DEPOIS DE LATOUR? NOTAS SOBRE O DEBATE LEMOS & RÜDIGER

 

DEPOIS DE LATOUR?

NOTAS SOBRE O DEBATE LEMOS & RÜDIGER

Bruno Latour

Ednei de Genaro (2017)

As notas a seguir tentam fazer uma interpretação do debate entre André Lemos e Francisco Rüdiger a partir de seus textos publicados na revista Matrizes (Lemos: 1- “A crítica da crítica essencialista da cibercultura”, vol.9, n°01, 2015: http://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/100672; 2- Rüdiger: “Contra o conexionismo abstrato: réplica”, vol.9, n°2, 2015: http://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/111719 ; 3- Lemos: “Contra a crítica abstrata: tréplica”, vol.10, n°1, 2016; http://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/119470/116875). Arrisca-se, primeiramente, uma interpretação pragmática, evitando-se ao máximo o estilo polêmica. O que podemos tirar de produtivo do debate? Após, procuramos ponderar sobre as teorias, epistemologias e/ou metodologias colocadas em debate.

Os textos variam entre duas acusações bem gerais: Lemos acusando que a tradicional categoria de pensadores e acadêmicos Críticos, principalmente os ditos essencialistas, faz “pouco empírico”, tão logo produz muitas vezes compreensões, argumentos e julgamentos da política, economia e cultura bastante normativos, idealistas ou abstratos; Rüdiger, por sua vez, acusando que a nova categoria de pensadores e acadêmicos da Teoria Ator-Rede (TAR) faz apenas “muito empírico”, produzindo com isso um vazio de compreensões, argumentos e julgamentos da política, economia e cultura, que ele julga ser um tipo de conexionismo formal e abstrato. No “muito” e no “pouco” empirismo entrariam duas ênfases, duas posições de pesquisadores, a primeira que busca especialmente uma integração-e-isolamento discursivos (“purificações”, como veremos) sobre os fenômenos ditos humanos e técnicos; a segunda, que busca uma inclusão-e-simetria discursivas para analisar simultaneamente fenômenos ditos humanos e não-humanos (estudos de redes sociotécnicas, fugindo das purificações ou essencialismo). Os Críticos estando na tradição dos modernos em ciências humanas: em determinado momento faz-se uma “pausa” no empírico – e julga-se sociopoliticamente: por exemplo, sobre os tipos de poderes dominantes e seus dispositivos, sobre as classes sociais e seus principais agentes, as ideologias vigentes –, muitas vezes “saltando” hermeneuticamente para escrever sobre a cultura mercadológica, o desencantamento ou miséria do mundo, o niilismo. Os partidários da TAR, no entanto, estando na nova visão amoderna, agnóstica e perspectivista das ciências humanas: em determinando momento, quando o empírico não é mais viável, digamos assim, descreve-se sociotecnicamente: por exemplo, sobre as conexões e reconexões entre atores ou ambientes, as formas de transmissão de informação, as inovações nas materialidades e as mudanças de designs, com suas consequentes mutações nos procedimentos e controvérsias.

Os autores abrem, portanto, duas acusações gerais, com inevitáveis consequências ao produzir sentidos acusativos – pois, de alguma maneira, é preciso fortemente categorizar e julgar de forma negativa os modos epistemológicos do adversário. Abre-se enfim um debate, com também inevitáveis posições de defesas de fronteiras acadêmicas – entre um paradigma “vigente” e um paradigma “novo”.

Os textos de Lemos, inspirados nas proposições teórico-metodológicas de Latour, parecem nos fazer dois convites básicos: 1 – hoje seria bom que déssemos uma “pausa” na crítica, na verdade; 2 – e, consequentemente, seria bom que investíssemos mais na “ciência básica”, “pé no chão”, deixando um pouco de lado a velha “sociologia compreensiva e crítica”, para fazer mais e melhores observações, descrições e associações de fenômenos sociotécnicos no mundo, que são infinitamente maiores que no século XIX.

Os convites parecem bons, pertinentes, corretos? Ora, quem poderia dizer que, sendo cientista social, fazer “bastante ciência” seria ruim? Contudo, dos convites nascem perguntas evidentes, complicadoras, de diferentes matizes, que o texto de Rüdiger procura investir em contra-argumento: a “sociologia compreensiva e crítica”, aquela que faz interpretações ou hermenêutica dos fenômenos da linguagem, da histórica, dos signos – isto é, aquela que vai além do domínio dos fatos, observações, associações – não está mais fazendo ciência e funcionando bem, epistemológica e politicamente (criticamente)? Por que alguém, que estuda a sua própria sociedade, deveria deixar de fazer suas interpretações (hermenêuticas) históricas, política, econômica etc., para enfatizar suas pesquisas apenas em “descrições” – como um viajante ou antropólogo que entra em terras ou povos desconhecidos e faz suas anotações em um bloco de notas?

Enfim, polêmica lançada.

Tal como interpretamos, a resposta dos textos de Lemos vem a ser que a “sociologia compreensiva”, crítica, ficou presa demasiadamente em paradigmas (“frames explicativos”) totalizadores (desencantamento, luta de classe, sistema técnico, razão instrumental, ideologia) que não ajudam mais na compreensão da sociedade contemporânea; e isso ficaria claro – e torna-se motivo do texto –, na forma com que a técnica foi vista normalmente pelos Críticos: a grosso modo, como racionalidade negativa e oposta ao humano. Assim, a crítica teria se tornado, em muitos casos, demasiadamente “essencialista”, discursando muito mais próxima de um tom de “filosofia social moralista” do que propriamente de ciência social.

A conjuntura histórica nunca foi tão boa para Lemos tecer tais argumentos acima. As posições críticas, em suas linhas gerais, procuraram destacar uma compreensão das estruturas de pensamento e de ação da sociedade como um todo, desvendando suas forças dominantes para, enfim, produzir uma crítica dos processos vigentes, e uma imaginação de “emancipação”. Correntes muito díspares, marxistas, weberianas, fenomenológicas, existencialistas, estruturalistas, pós-estruturalistas, de uma forma ou de outra, constituíram um tipo de perspectiva crítica. Todas vivem suas crises hoje. (Por motivos históricos que não cabe discursar nestas notas, infelizmente, mas que tem muito a ver, como sabemos, com as experiências fracassadas de emancipações, ditas “comunistas”, no século XX. Lembremos Latour, em “Jamais fomos modernos”, proferindo que o ano de 1989 foi “miraculoso”, pois teve acontecimentos que romperam de vez com os abjetos paradigmas prometéicos de “progresso científico” e de “emancipação humana”).

Os textos de Lemos pedem então um “novo olhar” para as coisas. Não mais uma perspectiva de crítico-emancipatória, mas de responsabilidades, que seriam produzidas a partir de uma cuidadosa pesquisa de compreensão dos complexos laços sociotécnicos presentes hoje – na dimensão da cultura digital, mote do texto, “de engenheiros, criadores, produtores de informação, empresas, distribuidores, usuários, empresas, distribuidores, usuários, leis, softwares e bancos de dados, servidores, redes…” (p.48, texto 1). A pesquisa deveria vir fundamentalmente da compreensão das mediações entre agentes (“actantes”), dando ênfase não aos agentes em si (epistemologicamente esses não existem!), mas aos processos que estão realmente acontecendo.

Na posição de um criador de responsabilidades, o pesquisador parece torna-se uma figura comedida, mas autossuficiente. Isto porque ele não desejaria “abraçar o mundo”; não começa a pesquisar sobre um ambiente específico, uma agência de telemarketing, por exemplo, e de repente está falando, com a “ajuda” de Boltanski e Chiapello, sobre os traços macro do capitalismo contemporâneo. Caso seu acompanhando dos rastros não lhe tenha levado a isso, ele não faz “saltos” sobre os fenômenos. O uso de paradigmas tende a ser visto como “muleta”. Ao descrever bem a composição de um ambiente, o objetivo do pesquisador é se tornar um intelectual capaz de ajudar a ver as posições e encargos de cada agentes, para assim, de alguma maneira, auxiliá-los na resolução de controvérsias, problemas de organização, fazendo modificar as formas como os agentes veem as coisas. Portanto, o pesquisador procura adotar uma posição perspectivista e agnóstica, sendo que os temas e enfoques de pesquisa procuram também mudam. Buscam-se mais a descrição de ambientes do que de temas ou poderes, por exemplo.

Em relação ao “essencialismo” dos críticos que versam sobre a técnica, os textos de Lemos recuperam dois autores célebres: Heidegger e Ellul. Seus trabalhos pouco serviriam para a Teoria do Ator-Rede, pois, apesar de justificarem muito bem aos contextos históricos ou sociológicos, os conceitos que tais autores trabalham acabam se fechando em macros “esquemas” crítico-filosóficos sobre a técnica/tecnologia, sejam estes pessimistas ou otimistas. Virilio, Baudrillard, Debord e autores da primeira e segunda gerações da Escola de Frankfurt, e seus partidários ainda hoje, seriam os últimos a abusarem de sentenças “essencialistas”.

A questão difícil vem a ser a respeito do diagnóstico de “essencialista” para os mais contemporâneos. Esses realmente produzem aqueles “esquemas”? Morozov, Janier, Keen, ou então Stiegler, são críticos e essencialistas, ou somente críticos? Aqui, podemos dizer que, até onde o presente autor leu os supracitados, nenhum estaria fazendo argumentos essencialistas, e todos são “sucessos” em suas pesquisas empíricas. (E façamos jus, em relação ao último quesito, também são “sucessos empíricos”, o arqueólogo de mídias Virilio e o pesquisador-observador-viajante Baudrillard, citados por Lemos). Tanto que se pode perguntar – e o texto de Rüdiger faz isso – se a questão realmente pertinente hoje é a questão da crítica, e não a do velho argumento de condenação do “essencialismo” …

Certamente, para a maior parte dos críticos contemporâneos que versam sobre a cibercultura, o horizonte é desvendar um pouco as “ordens intrínsecas” da técnica, contudo evitando o erro de tratá-las como isoladas, o que seria o pecado dos “essencialistas”. Isso parece ser evidente – e talvez defina uma discussão pertinente hoje – quanto àqueles que se ligaram, uns mais fortemente outros menos, à tradição de Simondon, por exemplo, Deleuze-Guattari, Stiegler, Lazzarato e outros. Em relação a essa tradição, cabe aqui explicitar uma diferença crucial com Latour. Para Simondon, autor que pensa em termos de “transdução”, o olhar para a questão da individuação técnica é uma forma pensá-la enquanto fixação dos gestos humanos, “cristalização”, mesmo que temporária, tendo isso efeitos diversos nos ambientes (“tecnicidade”) – sendo “melhor ou pior” para as individuações psíquicas e coletivas, dependendo dos tipos de entropias e neguentropias vigentes. Para Latour, no entanto, autor pensa em termos de “tradução”, o olhar recai para os actantes não-humanos, que tende sempre à mediação, ao movimentos, criticando Simondon por ainda compreender a técnica como “objeto”, “coisa”, “sujeito”, e não como “advérbio” ou “verbo” – consideração esta que faz Latour eliminar de uma vez por todas os discursos críticos (“purificadores”) sobre dispositivos, objetos técnicos, máquinas, sistemas técnicos.

Deixemos claro: ambos os autores, contudo, estão abertos aos contextos a partir dos modos de existência dos seres ou objetos, criticando, ambos, o “substancialismo”. Mas podemos desvelar agora algo crucial: um adotando uma posição muito mais perspectivista (Latour).

Assim, parece haver uma consequência importante na forma como os textos de Lemos, a partir de Latour, observa a “purificação” (compreendida como o gesto de dar algum tipo de “substancialismo” aos fenômenos). As “purificações” dos críticos pessimistas Morozov, Keen e Lanier, autores que estariam na linhagem mais típica dos modernos, de “pouco empirismo”, presumiriam exacerbadas e antecipadas distinções e nivelações de poderes, instituições e valores, concluindo sobre um “todo assimétrico”; enquanto que, por exemplo, os modernos críticos otimistas Lévy, Jenkins e Johnson, também de “pouco empirismo”, presumiriam exacerbados e antecipados acordos, mediações, horizontalidade de poderes, instituições e valores, concluindo sobre um “todo simétrico”. Latour, por sua vez, estaria “no meio”, no espaço do antropólogo que observa, perspectiva e agnosticamente, tais roteiros empíricos “fracos” dos críticos pessimistas e otimistas, com suas marcas e diagnósticos apressados, abusando de palavras de ordem, chavões e enunciados políticos “mobilizadores”. O erro destes críticos estaria em sempre querer enxergar um “aquém” ou um “além” dos limites das redes sociotécnicas presentes.

Caso se entenda qualquer tipo de “purificação” como sinônimo de “essencialismo”, então as coisas realmente estariam complicadas para os críticos. Ora, os críticos, pessimistas e otimistas, sempre apostariam em esclarecer sobre formas de estabilizações, automatismos, cristalizações ou delegações nas redes sócio-técnicas que duram mais tempo do que o “normal” (crítico não se abstém do julgamento ético-político!), expondo, dependendo do caso, um mundo de violência ou de justiça, de formas de dominação ou de liberdades etc. (Mesmo sendo críticos simondonianos ou deleuzianos, por exemplo, com suas sofisticações para falar dos “dispositivos”, “sistemas técnicos”, “domínios sociais” e “domínios técnicos”, nada mudaria: para Latour, na hipervalorização das mediações ou hibridismos, o crítico seria sempre um “demônio simplificador da modernidade”!).

Mas cabe perguntar: mas não teria sido o “hibridismo total”, enquanto “desterritorialização contínua”, o sonho de Deleuze-Guattari? Os verdadeiros e contínuos reajustes, reformulações, desvios, dobras, desacoplamentos, o fim de um tempo que dura muito tempo trazendo as hierarquizações, a rigidez, a vida arborescente? Se na cabeça de Deleuze-Guattari, o fim do tempo que dura muito tempo seria o sonho de emancipação a partir da multiplicidade, para Latour isso é 100% pura realidade e banalidade no mundo.

Latour teria realizado a definição crítica mais sucinta do que é ser moderno: aquele que está sempre fazendo a produção e negação dos híbridos (purificação). Para escapar disto, procurou investir, como lembra Lemos, em “ultrapassar as fronteiras do senso comum entre signos e coisas” (p.44, texto 1), do julgamento entre a representação e a realidade empírica-material, entre ideologia e infraestrutura… Com o objetivo de não alimentar qualquer hipostasia de significados para as coisas; caso contrário, cair-se-ia em algum tipo de negação dos híbridos, os “quasi-x”, “quasi-y”. Influenciado por Latour, Lemos então formula: “As infraestruturas técnicas são sempre pontuais, provisórias, sendo que as controvérsias ajudam a revelar o imbróglio que as constitui, ou seja, abrir as caixas-pretas e desnudar as redes até então estabilizadas” (p.41, texto 1). A disposição intelectual pelos hibridismo seria, pois, a meta mais importante da TAR (Rüdiger procura provocativamente dizer que isto evidenciaria uma “nova metafísica” … E não está sozinho na empreitada. Ver, por exemplo, a entrevista de Latour com Carolina Marinda: “À métaphysique, métaphysique et demie: L’Enquête sur les modes d’existence forme-t-elle un système ?” [http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/140-TEMPs-MODERNES-SYSTEME.pdf]).

Abre-se, enfim, entre os críticos e o perspectivismo latourniano, olhares e ênfases diferentes, com consequências epistemológicas e políticas.

*

Poder-se-ia, em primeiro lugar, ressalvar que que a razão crítica, na maior parte dos autores contemporâneos citados por Lemos, não vem exatamente “negar as mediações”, mas – ao fazer o julgamento ético-político –, identificar onde elas não acontecem de forma democrática. Questão: explicitar a realidade que nega as mediações (democráticas) não seria diferente de negar as mediação? E, de tal modo, o problema vem a ser de “fracasso empírico” ou de identificação da falta dele (leia-se: da mediação democrática)?

Bachelard notava que um conhecimento “novo” é sempre feito contra um anterior. Algo que talvez nos faça compreender porque, na disputa entre dois “programas de pesquisa”, e na luta pela identificação das “anomalias” desses programas, o leitor não fica encurralado entre duas acusações.

Os críticos modernos diriam: só uma purificação radical, instrumental e essencialista, pode nos fazer crer que há humanos de um lado e instrumentos do outro. Os acríticos amodernos inverteriam a ordem das coisas: só uma hibridização radical, abstrata e anti-essencialista, pode nos fazer crer que não há de um humanos e instrumentos do outro.

Lemos e Rüdiger não estariam forçando uma dicotomia, cada lado, afinal, com seu anseio metafísico “purificador”?

É possível fazer algumas considerações finais, aproveitando questões de ambos os lados. Diferente de Rüdiger, poderíamos desenvolver que a questão acerca dos híbridos em Latour parece vir a cumprir um papel, na verdade, altamente material, real – e não abstrato por antecipar (inevitavelmente) princípios epistemológicos; e, diferente de Lemos, poderíamos notar duas problemáticas: as acusações de “essencialismo”, de “determinismos tecnológicos”, de “fracassos empíricos e cegueiras da vida social” parecem ter sido mais pertinentes nos anos 1980, e não hoje; e é possível divergir, como começamos a notar acima, de uma posição importante de Latour, expressada em vários livros, e bem sintetizada pelo texto de Rüdiger: “a crítica nos põe no mau caminho ao nos afastar dos fatos em vez de nos fazer chegar mais perto deles; ela nos impede de dar nova vida a um empirismo com o qual poderíamos nos libertar da epistemologia moderna e suas dicotomias” (p.128). Em relação ao “afastar dos fatos” ou ao “por em mau caminho”, já respondemos: nada tem a ver com a crítica, apenas que condiz com o nível de compromisso científico dos pesquisadores. Em relação à crítica, propriamente, sejamos assim o mais direto possível: a crítica é essencialmente dissensual, demanda a radicalização democrática (as mediações verdadeiras!) em um modo de vida, capitalista, que gera exatamente da legitimidade política para tais litígios (sobre o assunto, ver a obra “O desentendimento”, do filósofo Jacques Rancière).

O ponto inicial de divergências entre os pesquisadores Lemos e Rüdiger, acreditamos, são duas diferentes posições éticopolíticas no contemporâneo: a de responsabilidade e a de crítica. (A primeira nada esclarecida nos textos de Lemos; a segunda, insuficientemente tratada nos textos de Rüdiger). A partir disto, um condenando o fetichismo do outro: o abuso de empirismo e a miséria de iluminismo crítico (Lemos); a miséria do empirismo e o abuso de iluminismo crítico (Rüdiger).

Há, por exemplo, quem muito lê – o presente autor inclui-se – Deleuze-Guattari, Lazzarato, Stiegler, por exemplo, e também Latour, ocorrendo a pergunta: pode-se trabalhar com redes sociotécnicas, adotando muitas posturas epistêmicas latournianas e, ao mesmo tempo, tomar uma atitude crítica? Cremos que a resposta seja sim, e começamos a esboçar nestas notas que a tradição aberta pela epistemologia de Simondon, por exemplo, abriria um caminho crítico “não-substancialista” que está sendo iluminado hoje por alguns autores.

O que parece certo – e isso vem sendo notado aos brados por muitos intelectuais – é que crítica contemporânea não pode querer ressuscitar a “velha crítica” onde ela é ainda melancolicamente depositária. Para nós, ela deve encontrar as “novas armas”, expressando as realidades que negam as mediações (democráticas), e que alimentem, ao mesmo tempo, novas estéticas de vida e mundo possíveis.

 

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REFLEXÕES LATOURNIANAS

Reflexões latournianas, em três fragmentos:

 

 

 

 

 

 

 

 

(Imagem: Mario Ramiro)

Fragmento 1:

– Abdicação da ideia de ‘naturalizar’ tudo;

– Matter of concern;

– Noção de domos (Sloterdijk).

“O modernismo tradicional era a ideia que iríamos eventualmente naturalizar tudo: o todo de nossa existência. Nunca imaginamos de fato que iríamos completar esse processo, pois desde a invenção do modernismo – se considerarmos Descartes como o ponto inicial dessa invenção – queríamos distinguir as coisas. Sabíamos que não iríamos naturalizar, evidentemente, digamos, a res cogitans. A ideia era que o avanço do tempo iria levar-nos todos à naturalização, pois o tempo representa aqui também um acordo político, uma vez que há apenas uma natureza e todos nós estamos de acordo sobre isso. Esse é o modernismo à l’ancienne. Na “remodernização”, a ideia é herdar as ciências que não dependem dos matters of fact (objetos factícios), como faziam Descartes, Locke e Kant, mas sim essas que estão sempre expandindo os matters of concern (as coisas que nos preocupam). Como diz Ulrich Beck, essa é uma modernidade reflexiva. Ao colocar-se em prática essa nova história da ciência –– não há um termo para definir isso hoje em dia, Sloterdijk propõe domos – refazemos um passado diferente e portanto um futuro diferente. E isso não será a naturalização geral, nem o cérebro, nem os genes, nem as florestas, nem o clima, nem os carros obedecem às regras da naturalização. Acumulando-os, não vamos conseguir fazer um mundo naturalizado. No entanto, o ideal da razão, esse tem de ser preservado, porque ele vem de toda forma, da tradição euro-americana, de sua história particular”.

(in: Entrevista a revista Cult, março, 2011).

 

Fragmento 2:

– Questionamento da representação da “coisa” (res extensa);

– “Dimensão ética”, a preocupação se volta com a dimensão os objetos não-humanos;

–  Uma “coisa” não revela nada em si mesma; a importância do traço da história;

– Revisão do materialismo; Crítica ao idealismo no pensamento ocidental. 

“My argument is that res extensa —taken for the “material world” and considered until recently as the stuff out of which “nature” is made— is an unfortunate confusion of the properties of geometrical forms on white paper with the ways material beings stand. Let us be careful here: I am not saying that human intentional embodied mind and spirit never really look at the material world according to the laws of geometry. (The critique has been made often enough; the whole of phenomenology has explored this avenue already.) I am saying that even the material physical objects making up the world do not stand in the world according to what would be expected of them if they were thrown into res extensa. In other words, the “scientific world view” is unfair to human intentionality, spiritual values, and ethical dimensions does not bother me too much: I am much more concerned if it is even more unfair to the peculiar ways electrons, rocks, amoebas, lice, rats, plants, buildings, locomotives, computers, mobiles, and pills have a hold and a standing in this world. Nothing, absolutely nothing, ever resided in res extensa—not even a worm, a tick, or a speck of dust—but masses of beings have been exquisitely drawn on white paper, engraved on copper, photographed on silver salt-coated plates, modeled on the computer, etc.—including worms, ticks, and grains of dust. Res extensa pertains to art history, to the history of the publishing press, to the history of computers, to the history of perspective, to the history of projective geometry, and to a host of other disciplines, but it is definitely not part of natural history. Among the most puzzling features of the Moderns is how extremely difficult it is for them to be materialist: What they call matter remains even today a highly idealist projection”.

(in: “Spheres and Networks: Two Ways to Reinterpret Globalization”, a lecture at Harvard Graduate School of Design).http://www.gsd.harvard.edu/events/pdf/Bruno_Latour.pdf.

 

Trecho 3 :

– Técnica não é somente questão de objeto/função (meio, eficácia, transporte);

– Imanência em rede e composição de mundo: ou não há objeto técnico em si mesmo;

– Técnica enquanto adjetivo: como alteridade, como transdução;

– Sentido de ‘pli sur pli’ (dobra sobre dobra) da técnica.  

« Comment pourrait-on imposer un transport sans transformation dans l’acte technique quand tout indique le contraire ? Ô c’est très simple : il suffit d’y ajouter l’utilitél’efficacité ou, d’un mot plus savant, l’ustensilité. L’efficacité est à la technique comme l’objectivité à la référence : le moyen d’avoir le beurre et l’argent du beurre, le résultat sans le moyen, je veux dire sans le chemin de médiations appropriées (il en es d’ailleurs de même avec la Rentabilité, la troisième Grâce de cette archaïque mythologie). Tous les tourbillons et les trublions des transformations techniques peuvent être oubliés, si vous dites qu’on ne fait que transporter par l’objet technique la fonction qu’il doitfidèlement remplir. (…) « Ni le mur, ni la table, ni le vase —ni la voiture, ni le train, ni l’ordinateur, ni l’animal domestiqué— ne sont « techniques » une fois laissés à eux-mêmes. Ce qu’il y a d’objet en eux dépend de la présence des composés dont chacun a été arraché par des métamorphoses à la persistance des êtres choisis comme point de départ —inertes ou vivants— dont chacun prête certaine de ses vertus, bien sûr, mais sans qu’on puisse le plus souvent durablement profiter de leur initiative et de leur autonomie. (…)« ‘Technique’ n’est pas un substantif mais un adjectif : « ça c’est technique » ; un adverbe : « c’est techniquement faisable » ; soit enfin mais plus rarement un verbe : « techniciser ». Autrement dit, « technique » ne désigne pas un objet mais une différence, une exploration toute nouvelle de l’être-en-tant-qu’autre, une nouvelle déclinaison de l’altérité, une abaliété propre. Simondon lui aussi se moquait du substantialisme qui, là encore, là comme toujours, manquait l’être technique.  (…) « La technique, c’est toujours « pli sur pli », implication, complication, explication. Il y aura pliage technique à chaque fois que l’on pourra mettre en évidence cette transcendance de deuxième niveau qui vient interrompre, courber, détourner, détourer les autres modes d’existence en introduisant ainsi, par une astuce, un différentiel de matériau, de résistance, quel que soit par ailleurs le type de matériau.

(do artigo, « Prendre le pli des techniques », publicado na revista Réseaux).

Latour – “Se falássemos um pouco de política”

Uma apresentação do artigo de Bruno Latour

ARTIGO:

“Se falássemos um pouco de política” (publicado na revista Política & Sociedade, n°4, abr., 2004).