DEMOCRACIA DIGITAL E CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

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*POLITIZANDO AS TECNOLOGIAS – tecnopolíticas aceleracionistas – [estudos pós-doc]

DEMOCRACIA DIGITAL E CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO:

Estudo de duas teorias tecnopolíticas aceleracionistas

[No capitalismo contemporâneo, as acelerações do progresso tecnocientífico e das descentralizações midiáticas – e o modo como estas cada vez mais contribuíram para (re)definir a vida biológica, psíquica e coletiva dos seres humanos –, fizeram surgir (pelo menos) duas novas teorias políticas, que salientam projeções tecnopolíticas de democracia digital. De um lado, aparecem anseios capitalistas tecnocráticos-escatológicos (“kurzwelianos”), pregando valores gerais hiperliberais, corporativos e idílicos ao mundo: os aceleracionistas capitalistas. Por outro lado, uma proposição de Deleuze e Guattari, exposta na conjuntura política do início da década de 1970, despertou valorizações contrárias: “acelerar o processo” (progresso, descentralizações) significaria alargar o “teor esquizofrênico” (liberal, mas crítico do poder corporativo, do consumismo etc.). Esta última visão, a dos aceleracionistas pós-capitalistas, defendida por determinada corrente deleuziana-guattariana, realizaria, pois, uma crítica imanente ao capitalismo, fazendo dissenso à ordem tecnocrática-escatológica capitalista dos primeiros, ao buscar a ampliação de formas de descentralizações mais democráticas. A partir de perspectivas genealógica, conceitual e crítica, procuramos pesquisar e refletir sobre tais teorias tecnopolíticas contemporâneas, nos contextos em que estas aparecem. Projetamos dividir a pesquisa em cinco eixos (futuros capítulos de um livro) – consistindo esses em apresentações (1° e 4°) e análises críticas (2° e 5°), e em proposição teórica sobre o contemporâneo (3°). O objetivo do estudo é, centralmente, colaborar com a compreensão de aspectos das novas posições políticas na democracia digital do século XXI, formada cada vez mais por materialidades de mídias – que despertam questões a partir de designs, arquiteturas, formas de fluxos e agenciamentos, desempenhos algorítmicos etc. Ao especificar duas teorias tecnopolíticas paradigmáticas e reversas, esperamos, enfim, ajudar a fomentar os debates ressaltando as influências, os fundamentos, as realidades e os valores éticopolíticos que estão sendo gestados hoje – a partir de estudos comparativo e crítico, trabalhando com aportes de método genealógico].

Introdução:                                                                              

No início do século XXI, caberia uma pergunta genérica: o que deveríamos esperar do chamado progresso tecnocientífico para a construção de valores e espaços democráticos em ambientes digitais, no momento atual de ampliação das descentralizadoras a partir das novas materialidades de mídias[1]?

Diante de tal questão, devemos lembrar que, em 1972, nos contextos da Guerra Fria, das investidas contra o modelo de Estado capitalista keynesiano, da ascensão do liberalismo consumista, da exaustão do Estado totalitário no bloco soviético e das revoluções culturais pós-maio de 1968, Deleuze e Guattari escrevem o livro Anti-Édipo – Capitalismo e esquizofrenia 1, no qual – no terceiro capítulo (“Selvagens, bárbaros, civilizados”) –, lançam uma proposição singular e polêmica: a de crítica imanente ao progresso e à modernidade capitalista.

É no nível dos fluxos, e dos fluxos monetários, não no nível da ideologia, que se faz a integração do desejo. Então, qual solução, qual via revolucionária? A psicanálise ajuda pouco, considerando-se suas íntimas relações com o dinheiro, pois que registra, embora evite reconhecê-lo, todo um sistema de dependências econômico-monetárias no coração do desejo de cada sujeito que ela trata, constituindo-se, por sua vez, numa enorme empresa de absorção de mais-valia. Mas haverá alguma via revolucionária? — retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselha aos países do Terceiro Mundo, numa curiosa renovação da “solução econômica” fascista? Ou ir no sentido contrário, isto é, ir ainda mais longe no movimento do mercado, da descodificação e da desterritorialização? Pois talvez os fluxos ainda não estejam suficientemente desterritorializados e suficientemente descodificados, do ponto de vista de uma teoria e de uma prática dos fluxos com alto teor esquizofrênico. Não retirar-se do processo, mas ir mais longe, “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche: na verdade, a esse respeito, nós ainda não vimos nada (Deleuze; Guattari, 2010, p.318, grifo nosso).

Deleuze e Guattari foram apontados como pioneiros em um debate recentemente designado como aceleracionismo[2] (Noys, 2014). Porém, sabemos, atualmente são os poderes os político-econômicos mundiais, notadamente da chamada new economy, centralmente localizada no pólo tecnológico do Vale do Silício (Silicon Valley, California, EUA), que procuram “acelerar o processo”, destacando discursos tecnocráticos-escatológicos. São os aceleracionistas capitalistas, como denominaremos, que por esses discursos afirmam, no mais das vezes, valores gerais hiperliberais, corporativos e idílicos ao mundo. Contudo, opostamente, reflexões posteriores sobre a propositiva e polêmica crítica de Deleuze e Guattari, dentro das conceitualizações de Anti-Édipo, e na obra dos autores como um todo, ganharam contemporaneamente valorizações e debates, a partir do advento de conjecturas políticas aceleracionistas pós-capitalistas, como também denominaremos.

Procuramos circunscrever recortes, questões específicas e contribuições em filosofia política e estudos de mídias (especialmente, em estudos sobre a democracia digital), a partir da sistematização do estudo em três eixos:

[1] Em geral, a democracia é compreendida de três maneiras, como forma de governo (teoria, constituição), como dispositivo de tomada de decisão (prática, tecnologia), e como relação social (valores, cultura). Liberdades (de expressão, de informação, reunião etc.) e direitos (de voto, de ser candidato, de igualdade de justiça etc.) constituem princípios democráticos. Bem sabemos, uma democracia não é meramente uma conquista técnica; contudo, as configurações e tecnicidades diversas com os humanos – de fluxos midiáticos associativos, como esclareceremos –, são imprescindíveis para definir e desenvolver uma democracia. Como escreve Gomes (2011, p.27-28), a democracia digital pode ser definida, particularmente, como “[…] qualquer forma de emprego de dispositivos (computadores, celulares, smart phones, palmtops, ipads…), aplicativos (programas) e ferramentas (fóruns, sites, redes sociais, medias sociais…) de tecnologias digitais de comunicação para suplementar, reforçar ou corrigir aspectos das práticas políticas e sociais do Estado e dos cidadãos, em benefício do teor democrático da comunidade política”.

[2] O termo aceleracionismo (accelerationism) foi cunhado recentemente, e de forma crítica, pelo teórico crítico inglês Benjamin Noys. Como veremos, o termo passou, no entanto, a ser utilizado tanto em sentido crítico como afirmativo.

PERSPECTIVA GERAL DO ESTUDO:

O estudo busca acompanhar, de forma genealógica, os contornos diversos (autores/textos/acontecimentos) de duas teorizações tecnopolíticas para a construção de democracias digitais contemporâneas e futuras, uma de base tecnocrática-escatológica-capitalista (“kurzweliana) e outra de base crítica-pluralista-prometéica-pós-capitalista (certa influência deleuziana-guattariana – e marxista). Sem dúvida, nosso recorte de pesquisa, sendo teórico, quer revelar aspectos dos novos regimes de ficções e verdades cada vez mais pertinentes à investigação acadêmica: de reconstrução de ideários políticos – de liberdade, igualdade, utopia, justiça e, centralmente, de democracia digital – das chamadas direitas e esquerdas. Acreditamos que, de acordo com nossas proposições, questões e hipóteses delimitadas nos eixos do projeto, poderemos aprofundar e assim contribuir para a discussão desta nova conjuntura. A partir dos eixos de “apresentação” e de “análise crítica”, competiria significativamente observar e avaliar – em suas formulações teóricas-discursivas – em que caso, de que forma e porque ambos os aceleracionismos buscariam “mais” tecnologias, porém – tal como conjecturamos de início pesquisar – com influências (pensamento tecnológico – Kurzweil; pensamento filosófico – Deleuze/Guattari), fundamentos (singularidade tecnológica; singularidades múltiplas); realidades (tecnocrática-escatológica; pluralista-prometética) e valores éticopolíticos (democracia digital liberal-capitalista: mundo centralizado, oligopólico, automatizado e idílico;  democracia digital liberal-pós-capitalista: mundo descentralizado, oligopsônico, indeterminado e crítico) que seriam muito distintos, antagônicos. Trabalharemos estas especificidades-diferenças, realizando do mesmo modo, a partir de uma perspectiva de compreensão do capitalismo contemporâneo, apresentado no eixo “proposição teórica sobre o contemporâneo”, uma ampliação e maior compreensão das análises críticas para ambos os aceleracionismos.

Procuramos portanto circunscrever recortes, questões específicas e contribuições em filosofia política e estudos de mídias (especialmente, em estudos sobre a democracia digital), a partir da sistematização do estudo em três eixos:

1° EIXO: ACELERACIONISTAS CAPITALISTAS:

a- Compreender e periodizar: como compreender e periodizar os aceleracionistas capitalistas?

b- Análise crítica: de que forma podemos entrar e aprofundar nos debates críticos a partir de duas noções centrais dos aceleracionistas capitalistas – singularidade e pós-humanismo?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/24/1287/ 

2° EIXO: PROPOSIÇÕES SOBRE O CONTEMPORÂNEO:

– Como pensarmos contemporaneamente a relação humano-máquina?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/23/acerca-do-contemporaneo-2-eixo/

3° EIXO: ACELERACIONISTAS PÓS-CAPITALISTAS:

a- Compreender e periodizar: como compreender e periodizar os aceleracionistas pós-capitalistas?

b- Análise crítica: de que modo forma podemos entrar e aprofundar nos debates críticos a partir de duas noções centrais dos aceleracionista críticos – materialidades de mídias e o acelerar?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/22/1301/ 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [dos três eixos, e desta Introdução]:

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/21/referencias-bibliograficas-dos-tres-eixos-e-desta-introducao/

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