ACERCA DO CONTEMPORÂNEO [2° EIXO]

ACERCA DO CONTEMPORÂNEO [2° EIXO]

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Antes de seguirmos para uma apresentação e análise dos discursos aceleracionistas pós-capitalistas, será necessário, neste eixo da pesquisa, fazer uma reflexão acerca das proposições teóricas centrais para uma compreensão do contemporâneo – salientando as noções de singularidade e antropotécnica, como vimos, no campo estritamente filosófico; e, agora, as de fluxos midiáticos associativos e sujeição social/servidão maquínica, no campo filosófico-político.

Como compreender contemporaneamente a relação humano-máquina? Uma investigação mais apurada sobre o progresso tecnocientífico e de superação da dicotomia filosófica humano/máquina pode nos levar a enfrentar, de forma adequada, uma faceta importante do estado atual da política com as atuais materialidades de mídias. Sem dúvida, a devoção tecnocrática-escatológica ao progresso e sua utopia de “abundância”, isto é, sua devoção às máquinas técnicas, auferem-nos algo: constrói-se uma noção fechada de máquina, que não se vincula à perspectiva de realidade transindividual em que estas, na verdade, deveriam ser observadas – ou seja, nos “hibridismo dos reinos”, lugar em que “[…] os discursos críticos não deveriam apoiar-se num humanismo universalista sob pena de passarem ao largo do que constitui os agenciamentos contemporâneos e sua força” (Pelbart, 2013, p.124).

Tal como pensamos, a partir de uma interpretação dos dois tomos de Capitalismo e Esquizofrenia, a máquina, perfaz uma noção aberta – multiplicidades, alteridades, agenciamentos –, de “fluxos associativos” (Deleuze; Guattari, 1972), que podemos expressar por sua adjetivação, a maquinação, enquanto “zonas de proximidades e de indecernibilidade”, sistema de fluxos e “cortes”, satisfazendo planos de consistência entre os seres orgânicos e inorgânicos.

Máquinas como fluxos midiáticos associativos Parte-se, pois, de uma recuperação e atualização da perspectiva epistemológica aberta por Deleuze e Guattari (não nos restringirmos a eles). Ora, o primeiro tomo de Capitalismo e Esquizofrenia (O Anti-Édipo) realizou uma releitura das obras de Marx e Freud (e dos marxismos e freudismos), criticando centralmente as posições naturalistas, mecanicistas ou reducionistas acerca do que vem a ser o humano e sua socialização. Influenciados principalmente por Gilbert Simondon, Deleuze e Guattari pensam uma teoria sociotécnica a partir das associações de máquinas técnicas, desejantes e sociais, estando interessados em expressar a ideia do humano e do mundo em um conceito bem peculiar de máquina, no qual abrange os variados aspectos da realidade[1]. De tal forma, no diálogo crítico com a teoria da psicanálise e na proposição da esquizoanálise do livro, a política dos desejos não se encontra hipostasiada e determinada por parâmetros de performatividade pré-codificados, mas, sim, inserida em uma política de fluxos midiáticos associativos – maquinações.

Hoje, as máquinas técnicas estão longe de serem determinadas por finalidades únicas. Ao ultrapassarmos o paradigma da era mecânica e entrarmos no paradigma da era algorítmica (Galloway, 2013; Serres, 2004; Rouvroy; Berns, 2013), as máquinas se tornaram, por excelência, descentralizadas e sem-finalidades a priori (e, precisamente, isso ocorre justamente no momento em que surgem os discursos de singularidade tecnológica). Assim, não estaríamos mais na era do homo faber, “que constrói ferramentas pela sua utilidade, que actualiza máquinas tendo em vista uma finalidade” (Serres, 2004, p.77). A partir da invenção das máquinas algorítmicas começamos a nos afastar da era mecânica, uma vez que estas máquinas trazem uma novidade: elas são universais, ao mesmo tempo, teóricas e práticas. As máquinas servem para todas as coisas “[…] e ainda para mil outras, justamente porque não servem para nada. Diferenciadas, universais, transferem o projecto de utilidade do construtor para o utilizador, que as emprega como lhe apraz e como lhe parece” (Idem, Ibidem).

Fluxos midiáticos associativos e capitalismo contemporâneo – Com a ascensão das máquinas algorítmicas, e com a maximização das maquinações, o capitalismo contemporâneo – chamado muitas vezes de cognitivo – tornou-se cada vez mais um amálgama de operações diversas no espaço-tempo: operações de movimentações (de matérias-primas, técnicas, humanos,…), de comparações (de lucros, culturas, informações, forças de trabalho,…) e de capturas (de territórios, tempos, grupos humanos,…) que ganham complexidade e potenciais inéditos de fluxos midiáticos associativos centralizados e descentralizados sócio-politicamente (Galloway, 2007). Assim, nos hibridismos dos reinos, Deleuze e Guattari cultivaram um universo conceitual próprio. Assim, noções como subjetividade, agenciamento e individuação aparecem como inovações nos campos social, político e econômico[2]; e revelam novas formas de subjetividades e de exploração capital-trabalho criadas pelas maquinações capitalista[3] – explicitadas no segundo tomo de Capitalismo e Esquizofrenia (Mil Platôs).

Deleuze e Guattari afirmam: com as “máquinas da cibernética e da informática […], a relação do homem e da máquina se faz em termos de comunicação mútua interior e não mais de uso ou de ação” (Deleuze; Guattari, 1997, p.169, grifo nosso). Em Mil Platôs[4], o capitalismo apareceria como uma “empresa mundial de subjetivação”; porém, somente aparecia, sob um Estado garantindo as “axiomáticas do capital”[5] nas populações. Capitalismo e Estado atuariam a partir de duas palavras-chave intimamente conexas para apreender os movimentos de liberação (inovação perene e ilimitada) e de contenção (codificação retroativa) das populações. Para os autores, na conjunção contemporânea dessas duas palavras-chave, isto é, na expansão do Estado liberal capitalista da era algorítmica, as populações se encontram constantemente em domínios que almejam reduzir seus modos de existência a partir do duplo movimento de produção/exploração –: de sujeição social e servidão maquínica[6].

[1] “Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões. […] Toda máquina está, em primeiro lugar, em relação com um fluxo material contínuo (hylê) que ela corta” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 11; 55). A máquina é, de tal modo, um “sistema de cortes” que não significa separação de realidades (de completude, de subtancialização ou de isolamento), mas, pelo contrário, operações de extração de “fluxos associativos”, isto é, de maquinações – nas ordens do desejo, do técnico e do social. Na teoria sócio-técnica dos autores, é este sistema que continuamente engendra e torna possível compreender as produções sociais (ações, paixões,…), as distribuições técnicas (registros, marcações,…) e os consumos e desejos (volúpias, angústias, dores,…) das formações sociais como um todo.

[2] Na esteira de Deleuze e Guattari, considerações como as de Paolo Virno, por exemplo, articulam bem as consequências de pensar os coletivos a partir deste novo universo conceitual, estabelecendo, enfim, um determinado tom político: “O que aqui está em causa é a conceituação do campo de coincidência imediata entre produção e ética, estrutura e superestrutura, entre a revolução do processo de trabalho e da revolução de sentimentos, entre a tecnologia e a tonalidade emocional, entre o desenvolvimento material e cultural […]. Se não formos capazes de perceber os pontos de identidade entre as práticas de trabalho e modos de vida, não iremos compreender nada das mudanças que ocorrem na produção atual e não compreenderemos muito sobre as formas de cultura contemporânea” (Virno, 1996, p.268).

[3] “[No capitalismo contemporâneo,] “por um lado, o indivíduo leva a subjetivação ao clímax, já que provoca nela, no curso de sua atividade, todos os recursos ‘imateriais’ e ‘cognitivos’ de ‘si mesmo’; por outro lado, faz coincidir subjetivação e exploração, uma vez que o indivíduo é, ao mesmo tempo, patrão de si mesmo e escravo de si mesmo, capitalista e proletário, sujeito de enunciação e sujeito de enunciado” (Lazzarato, 2007).

[4] Neste segundo tomo, os discursos em relação às maquinações aponta diretamente para uma teoria política e sociológica, propondo a “resistência das minorias” e suas “políticas de subjetivações”, isto é, propondo política de liberação por desterritorialização da vida submetida às axiomáticas do Estado e das empresas.

[5] Deleuze e Guattari (1997, p.334) escrevem: “Em suma, a conjunção dos fluxos descodificados, suas relações diferenciais e as suas múltiplas esquizas ou fraturas, exigem toda uma regulação cujo principal órgão é o Estado. O Estado capitalista é o regulador dos fluxos descodificados como tais, enquanto tomados na axiomática do capital”. E Sibertin-Blanc (2013, p.150-151) esclarece: “O conceito de axiomática é introduzido em 1972 para pensar, primeiramente, não apenas a especificidade da ‘relação social’ capitalista, mas a forma singular que o capitalismo confere à relação social. Ele é, ainda, determinado diferencialmente pela relação com os outros conceitos da relação social (código, sobrecodificações), destacando imediatamente a temática sobre um terreno duplo: uma antropologia econômica, e uma analítica do modo de produção capitalista, esta última mobilizando um exame triplo, genealógico, estrutural e dinâmico-tendencial”.

[6] A sujeição social aparece enquanto processo de assujeitamento (o “cinismo ‘humanista’”, como interpreta Lazzarato, 2010), de normalização ou governamentalidade das populações a partir de um sistema homem-máquina. É o regime que – como conjecturou Marx e Foucault atualizou e apurou – sujeita os indivíduos à máquina social, segundo discursos, ideologias, ordens de segmentação de poderes etc., buscando agenciar a formação do trabalhador-empresário, o consumidor, o soldado, os gêneros e diversos governos de modos de vida na cidade. Um tipo de poder molar que pode ser identificável, manipulável e quantificável. Na era algorítmica, seria preciso falar também de servidão maquínica, enquanto segunda natureza de produção/exploração; segunda modalidade de maquinação da subjetividade no capitalismo – trabalhando simultaneamente e complementarmente, em movimentos, aqui negativos, de (re)codificação (sujeição social) e de descodificação de cunho servil (servidão maquínica). A servidão maquínica corresponderia, pois, ao sistema homens-máquinas (no plural). Neste sistema, não seria mais a partir de discursos e outras “falas” (semióticas significantes) que as maquinações irromperiam, mas sim a partir da modalidade de semiótica assignificante, que atuam como “maquinações inconscientes”, não quantificáveis ou identificáveis linear e antropocentricamente: códigos, procedimentos, equações, gráficos, índices, diagramas etc. O regime no qual os indivíduos são submetidos às máquinas técnicas multiplicadas na era algorítmica. Na multiplicação das ações destas máquinas, ocorreria a fragmentação do sujeito (agora, o “cinismo ‘desumanizante’”), onde o sujeito é “despedaçado” nos agenciamentos técnicos de nível molecular, tanto em relação ao seu corpo-ação (tendendo a ser apêndice; peça; ferramenta) como em relação ao seu corpo-mente (tendendo a ser utilidade capitalista para alguma inteligência, afeto, sensação, cognição, memória). A servidão maquínica seria, enfim, o modo como as volições e as ações capitalistas buscariam manifestar o híbrido, a simetria, a horizontalidade humano-técnica e os espaços de desantromorfização e transindividuação.

*POLITIZANDO AS TECNOLOGIAS – tecnopolíticas aceleracionistas – [estudos pós-doc]
APRESENTAÇÃO [links]: https://maelstromlife.wordpress.com/category/1-politizando-as-tecnologias-estudos-pos-doc-2016-2019/ 

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