REDES SOCIAIS COMO CATALISADORAS DE DESEJOS E PULSÕES

REDES SOCIAIS COMO CATALISADORAS DE DESEJOS E PULSÕES

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O aparecimento das redes sociais e sua intensa disseminação é um dos mais importantes eventos da história da Internet. O deslocamento da conexão por hierarquias para a conexão por pontos, diretamente entre as pessoas, trouxe uma reviravolta na forma de produção e circulação de comunicações. O resultado disto, estamos vendo, foi a queda da hegemonia da construção da “realidade” por corporações de mídias e ordens estatais. Desde o fim do século XX, acompanha-se uma mudança dos modelos de indústria cultural, e do capitalismo dito fordista. De lá pra cá, o capitalismo cognitivo aumentou a importância da “expressão individual”. Se por um lado, na história atual, a concentração de riqueza no mundo não diminuiu (na verdade, aumentou!) (http://www.inegalites.fr/spip.php?article1393), por outro lado, os indivíduos, ou a “multidão”, ganharam uma inédita potência de construção de desejos, de protagonização de devires, multiplicidades e diferentes espacialidades. Contudo, se o nosso desejo – de produção, criação, invenção, individuação – não é anulado, decidido por uma “ideologia”, ele está a todo momento arriscado a ser subvertido a partir das novas estratégias biopolíticas ou de controle.

Tal como pensa Tim Berners-Lee – um dos fundadores da internet que mais veio a pública para discurso sobre os rumos desta mídia –, a internet, nas mãos dos conglomerados corporativos americanos, corre um grande risco de se tornar um “jardim murado”. Sua preocupação recai, obviamente, como pensamos, para as contenções e deturpações das “vozes da multidão”.

Ora, esta expressão, que conota o cerceamento da produção da subjetividade, é uma hipótese já bastante investigada. Como vem sendo observado, a construção de subjetividade e a cooperação entre as pessoas, alcançaram o nível “cerebral” ou cognitivo e possibilitaram a reler e a movimentar pensamentos de filósofos sociais diferentes, e de épocas pré-internet – como os de Saint-Simon, A. Gramsci, G. Simondon, F. Perroux, J. Moreno ou K. Marx. A releitura é rica e bem-vinda, pois mostra a importância do cultivo de redes “abertas” ou de “jardins sem muros”. Todos esses pensadores (de épocas e de filiações diferentes) se encontram em um ponto fundamental: de certa forma, eles miravam formas mais dinâmicas de socialização, que partissem de agregados comuns (“redes”), de horizontalidade coletiva, em “sociedade civil”; em outras palavras, miravam as condições que oferecessem individuações coletivas, não baseadas em formas rígidas e hierárquicas –  que anulam as transformações as sociabilidades vinda de “baixo”, da maioria. Assim, como estes autores, a questão se relaciona à transformação das formas de “philia”.

Tal como vem sendo corrente equacionar, as mudanças com as redes sociais não provém somente das inovações tecnológicas de cunho informático, mas também das experiências político-culturais pós-maio de 1968. A partir destes dois elementos, notadamente, podemos começar a pensar nas diferentes possibilidades e efetividades de individuação psíquica e coletiva, que se repercutem em novas formas de construções estéticas, econômicas, políticas e culturais.

Não obstante, o “novo espírito do capitalismo”, como mostraram Boltanski & Chiapello, vem incessantemente tentando forjar a “exploração” a partir das novas formas de liberdades e produtividades. O contemporâneo deixou mais claro que o argumento deleuziano merece um debate cada vez maior. O modelo hegemônico que busca a desindividuação das pessoas dá continuidade às novas formas de proletarização e exploração e provoca um novo tipo de atarefamento, querendo, tão logo, cercear, a vida que foi “liberada”. Argumenta-se, assim, que a subjetivação e a cooperação nas redes teriam, ao mesmo tempo, colocado em xeque o modelo de cerceamento por “instituições fechadas” e destacado um novo assalto contra a vida – baseado em estratégias informáticas neocorporativas, que procuram explorar os afetos e os desejos.

A luta política contemporânea nas ruas e nas redes começa a ocorrer, portanto, contra um controle da economia libidinal que se expressa de forma genérica a partir das estratégias de marketing em ambientes virtuais. O otimismo em relação ao contemporâneo não deve ser uma cegueira. Vivemos em um mundo descentralizado, com novas e mais complexas estratégias de biopoder e de hegemonias culturais.

É a partir deste ponto que o contemporâneo pode ser visto relacionando as tradições de Freud e Marx. A produção de subjetivação nas redes sociais coaduna e compactua com a tensão dos investimentos corporativos de disseminação e controle da economia libidinal – e isto evidentemente diz respeito não somente à exploração tradicional do marketing, mas também às formas que se criam e estruturam as próprias redes sociais. Tal seria o caminho para pensar as novas experiências que ligam as redes e as ruas, sendo, especialmente, o caminho para avaliar o pêndulo entre dois futuros díspares: o de potências democráticas e criativas – lugar em que ocorreria a transformação da energia libidinal em riqueza simbólica de construção da individuação psíquica e coletiva e de economia da contribuição; ou, ao contrário, o lugar de forças corporativas, capaz de catalisar e explorar as pulsões individualistas e consumistas – transformando as energias libidinais em “miséria simbólica”.

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