MÍDIAS PÓS-MASSIVAS, NOVA SUBJETIVIDADE E COLETIVIDADE

MÍDIAS PÓS-MASSIVAS, NOVA SUBJETIVIDADE E COLETIVIDADE

O aparecimento das intituladas mídias pós-massivas representaram indubitavelmente uma abertura para uma intensa expressão e construção transindividual. Como é sabido, se antes tínhamos uma “cultura de mídia” que possibilitava apenas uma irradiação do centro para a periferia, hoje entramos em uma era na qual a liberação de potências de trocas de experiências possibilitam “desacoplá-las” de um ordenamento e fixação prévios de conteúdo.

FOUCAULT – HYPOMNEMATA

Foucault, em um escrito intitulado “A escrita de si”, estudou as práticas tecnológicas de si ou de “cultura de si” na literatura grega e romana. Propriamente, interessou-o entender como a função “etopoiética” – expressão cunhada por Plutarco –, opera a transformação da verdade em ethos, atribuindo valor a subjetividade e a coletividade. Seu estudo encontra a presença de dois dispositivos, propriamente: os hypomnemata, as tecnologias da memória, que na época greco-romana constituiam os variados excertos do “livro da vida”, tais como cadernos pessoais, os livros de contabilidade, registros notariais etc.; e as correspondências, que surgem a partir do compartilhamento de cadernos pessoais com outros. “[O uso de hypomnemata], parece ter-se tornado coisa corrente entre um público cultivado. Neles eram consignadas citações, fragmentos de obras, exemplos e acções de que se tinha sido testemunha ou cujo relato se tinha lido, reflexões ou debates que se tinha ouvido ou que tivessem vindo à memória. Constituíam uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas; ofereciam-nas assim, qual tesouro acumulado, à releitura e à meditação ulterior” (FOUCAULT, 1992, p.135).

Como diz Foucault, mais do que diários íntimos ou confissionais, os hypomnematas são veículos importantes da subjetivação, de construção de narrativas de si e do outro. O ato de corresponder, de compartilhar se coloca enquanto processo constitucional e complementar a isso: “A carta enviada actua, em virtude do próprio gesto da escrita, sobre aquele que a envia, assim como actua, pela leitura e a releitura, sobre aquele que a recebe. Esta dupla função faz com que a correspondência muito se aproxime dos hypomnemata e com que a sua forma frequentemente lhes seja muito vizinha” (idem, p.145).

Contemporaneamente, uma questão que nos parece interessante é pensar como os hypomnematas, constituídos de variadas ferramentas digitais (blogs, redes sociais, grupos de email, plataformas de vídeos, microblogs, chats, creative commons etc.), permitem (ou não) o surgimento de uma “escrita de si”. Para além de restrita a uma prática de “público cultivado”, os hypomnematas digitais tornam-se, ao se democratizarem, cada vez mais intensiva e extensiva. Na história humana, o florescimento da correspondência sempre resultou em grandes aperfeiçoamentos na vida social. O mundo romano, renascentista e iluminista foi de criação de novos hypomnematas para aprimoramento dos compartilhamentos. Como deveríamos pensar isto hoje?

[FOUCAULT, Michel, “A escrita de si”. In: Focault, M., O que é um autor? Lisboa: Passagens, 1992. pp. 129-160].

MAUSS – O VALOR DO COMPARTILHAMENTO

Marcel Mauss, em sua obra clássica “Ensaio sobre a dádiva”, de 1923, havia admiravelmente explanado sobre a potência integradora das trocas simbólicas em sociedades primitivas.

Para ele, o ato de intercâmbio, que gera sempre a generosidade da retribuição, determinava a “economia do dom”. De tal modo, uma dos importantes preocupações deste antropólogo estava em afastar a questão das trocas simbólicas, nas quais engloba sempre dimensões materiais e imateriais, de uma compreensão economicista. O rebaixamento do fenômeno pelo simples viés utilitarismo, de acumulação, isto é, de cálculo econômico, inviabilizaria o entendimento mais profundo da constituição de grupos e entre-grupos pelas dimensões respeitáveis de honra, reconhecimento, assistência, aliança etc.

Ora, de que forma as explicações de Mauss podem ser valiosas para problematizar a ascensão dos compartilhamentos pelas mídias digitais, uma vez que abarquemos os sentimentos e gestos na Internet não exclusivamente gerados por uma “economia de mercado 2.0” – no qual se daria pela rotina de captura e reprodução ao consumo?

[MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naif, 2003.]

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