EDUCANDO EM TEMPOS DE MEMÓRIA DIGITAL

EDUCANDO EM TEMPOS DE MEMÓRIA DIGITAL:

a enciclopédia audiovisual Qwiki[1]

digital-memory

Ednei de Genaro (2011)[2]

  • Artigo apresentado no V Simpósio Nacional ABCiber (2011):
  • Download do artigo em *.pdf: ABCIBER_Genaro (2011)

INTRODUÇÃO

‘Nova revolução nas ferramentas de busca’, ‘enciclopédia narrada do futuro’; ‘ferramenta para ser tão poderosa quanto o Youtube, Google, Wikipédia’; ‘uma promessa de revolução no ambiente de experiência multimídia’. Estas são apenas algumas das variadas descrições deslumbrantes e virais de blogs e sites comentando acerca da inovação da empresa de software Qwiki; descrições, na verdade, triviais, no corriqueiro mundo das novidades e imaginários da cultura digital.

A ferramenta Qwiki (www.qwiki.com/) é uma nova ferramenta search engines dos inovadores de Palo Alto, em São Franscisco. Lançada ao público em janeiro de 2011, em versão “Alpha”, Qwiki se apresenta como uma espécie de enciclopédia multímidia, ganhando o prêmio da TechCrunch Disrupt, que seleciona anualmente os melhores startups da economia digital. Caso esta empresa venha a ter realmente sucesso comercial ou não, pouco importa. Qwiki pode ser caracterizada como a primeira empresa a tentar criar e disseminar vídeos-robots, a partir das informações dispostas em sites comerciais e colaborativos da internet. Segundo o próprio “bordão” disposto na entrada do site, “Qwiki’s goal is to forever improve the way people experience information[3]. A novidade do site é a seguinte: segundo seus desenvolvedores, a plataforma digital Qwiki trabalha com tecnologia de inteligência artificial, de modo que, a partir de uma palavra-chave oferecida pelo usuário-humano, a plataforma cria sempre instantaneamente uma apresentação audiovisual – sem dispor, portanto, de um banco de dados de vídeos como armazenamento prévio.

No intuito de realizar uma breve análise desta inovação digital, iremos, em um primeiro momento, discursar sobre a expansão da memória digital na cultura contemporânea, evidenciando algumas importantes consequências na cultura, como um todo, e no campo educacional, em particular. Seguiremos, após, com uma perspectiva para pensar a questão a partir de Bernard Stiegler, uma vez que este nos oferece importantes articulações conceituais a respeito. Por fim, estabelecemos uma análise e debate da ferramenta Qwiki, tecendo então algumas considerações finais.

MEMÓRIA DIGITAL E CULTURA

O uso intensivo de plataformas digitais e o excesso de informações alcançam hoje novos hábitos e agenciam, sobretudo, novas aberturas e problemas para pensar as individuações psíquicas e coletivas. A incidência das tecnologias da informação e comunicação na sociedade vem repercutindo na alteração das maneiras de viver, conhecer e comunicar, evidenciando, assim, a necessidade de encontrar novos modos de pronunciar sobre a política e a cultura.

Os processos de digitalização abriram um leque de questões novas para as ciências, artes, pedagogias, que, irremediavelmente, não podem ser bem esclarecida a partir do clássico discurso que pensa a relação homem e técnica como dualista e antropocêntrica – e, tão logo, pouco aberta para um entendimento aprofundado da contingência que liga as individuações técnica, psíquica e coletiva em um mesmo plano de reflexão. Ora, esta atitude nos parece importante uma vez que foge das visões que acabam antecipando as explicações em termos de “determinismos”, “tecnofilismos” ou “tecnofobismos”.

Pois bem. Nunca as formas de extrair, estocar e distribuir os conhecimentos e informações estiveram tão complexas. Tal fato veio a movimentar intensamente as formas de pensar e constituir o universo sócio-técnico. Com a informatização da sociedade, o mundo ficou solicito a um “espírito de performatividade generalizado” (LYOTARD, 1989). A maquinação do saber acarretou importantes questões para Lyotard, no livro A condição pós-moderna: “Que sujeito está com o saber?”; “Quem transmite?”; “Com que suporte se comunica?”. Seu parecer foi alarmante: a informação mudou o antigo princípio de aquisição do saber que predominava no século XIX, baseado na unidade narrativa, da formação cultural “plena”, em que os românticos alemães exprimiam com a palavra Bildung. “Suportar o incomensurável” na investigação e transmissão do saber seria a condição inescapável dos indivíduos em meio ao predomínio de enunciados performáticos no mundo contemporâneo (idem, p.43).

A memória oral e a escrita compreendiam específicas funções espaço-temporal, cognitiva, nas quais estruturavam as informações e conhecimentos: a memória oral, sinteticamente, dentro de um limitado espaço orgânico, geracional e mítico; e a memória escrita: dentro de um ilimitado espaço societal, racional e livresco[4]. Contudo, com a ascensão das memórias analógicas e, principalmente, da memória digital, teríamos desenvolvido um novo “curto-circuito” nessas funções oral e escrita (STIEGLER, 1998).

No momento de ascensão da memória escrita, Platão, no livro Fedro, foi quem primeiro expressou o questionamento filosófico “negativo” para o que veio a ser o conhecimento e a verdade a partir desta memória. Resgatando o pensamento socrático, ele alertou que o registro escrito conferiria a própria “expropriação” do logos humano. O ofício de transmissão do conhecimento e verdade pela escrita apartaria as instâncias do diálogo – este o verdadeiro horizonte de “gestação” dos saberes; e, com isso, rebaixaria o logos aos problemas do esquecimento e da incapacidade de um verdadeiro pensar.

No Ocidente, a questão socrática, obviamente, nunca foi tomada tão à sério ao ponto de se “abandonar os livros”; nem Platão, no final das contas, a tomou. Contudo, este diagnóstico alarmante sempre assentou reflexões nos momentos de mudanças tecnológicas e, consequentemente, de novas formas de produção, processamento, organização, divulgação das informações e conhecimentos. Assim, como todo grande argumento filosófico, o argumento de Platão é continuamente retomado e, hoje, cria um ambiente para inúmeras reflexões[5]. Compreende-se que, na época de Platão, o horizonte de transformação cultural a partir da memória escrita estava na mudança de uma sociedade baseada na transmissão presencial (oral) para uma transmisão material (escrita). O nascimento do que viemos chamar de humanismo tem raízes nesta transformação.

A memória analógica e, sobretudo, a memória digital (ou eletrônica), cada vez mais auto-produzidas pelos engenhos  sócio-técnicos performáticos, estabelecem, portanto, maquinações informáticas nas sociedades. Isto é o estopim para novas experiências culturais em meio às mutações capitalistas; e um desafio enorme para reformulação de discursos tradicionais das ciências humanas. Em relação a isso, Ferreira & Amaral (2004, p.134) destacam uma problemática central: “falar da memória é falar de uma certa estrutura de arquivamento que nos permite experiências socialmente siginificativas do passado, do nosso presente e de nossa percepção do futuro”. A faceta contemporânea perplexa da performatividade da memória digital estaria na sua hiper-capacidade, inédita, de engendrar (des)individuações psíquicas e coletivas, agenciando fortemente os ambientes e valores sociais, éticas, culturais. Assim, o debate político sobre as ferramentas digitais se torna, evidentemente, crucial: Quem produz? Por que produz? Como produz? …

No século XX, inúmeros autores não deixaram de apontar as consequências diversas e espantosas para a vida moderna, ao relacionarem o caráter das memórias analógica e digital e os “valores humanistas”. O filósofo Ortega y Gasset foi, certamente, quem mais se importou com a “decadência” provocada pela elevação do especialista dotado apenas de informação e perfomatismos[6]. Walter Benjamin, o mais conhecido, apontou que as novas experiências de memória com a reprodutividade técnica, e os enormes volumes de estímulos entregues pelas “informações” urbanas, impediriam o recolhimento da rememoração, essencial à vida coletiva: estaríamos produtivos, informados, mas somente para “aguentar” o sensorialismo da indústria cultural. Impedidos, assim, da capacidade de plena experiência e possibilidade de narrar os acontecimentos do mundo.

Se as conjecturas “negativas” de W. Benjamin podem ser melhor reconhecidas hoje, isto se deve à ascensão da memória digital, que destacou, paradoxalmente, um performatismo engendrado pelo capitalismo contemporâneo no qual recai permanentemente em valorizar a informação tão logo que esta se desvaloriza rapidamente. O mundo da velocidade, do consumo, da “pouca memória” poderiam revelar este paradoxo; e, não por menos, psicologizações como burnout, stress, síndrome do pânico estão na ordem do dia em discussões midiáticas e acadêmicas, remontando, com isso, o problema cognição humana, o qual estabelece reflexões psicossociais acerca do indivíduo “apressado”, apto apenas a “descartabilidade” e à “obsolescência” imediata de tudo; estando muito longe, assim, do sentido temporal da vida em uma dimensão de duração (bergsoniano) ou de digestão (nietzschiano) (FERRAZ, 2010).

Acredito que Gumbrecht (1998) tenha lançado um argumento rico e um debate produtivo quando se dedicou aos estudos da modernização dos sentidos no Ocidente. A partir do modo de pensar foucaultiano, o autor buscou evidenciar que a atual “crise da representabilidade” tem a ver com os desarranjos humanos diante das “superfícies materiais do mundo” (idem, p.15); ou, em outras palavras, diante dos dispositivos. Diferente das outras épocas, a época pós-moderna teria gerado um observador que é incapaz de deixar de se observar ao mesmo tempo em que observa o mundo. O “problema de Foucault” seria encontrar um método adequado para pensar o sentido do “cronótipo” atual; se, de um lado, teríamos a “mobilização total”, das inovações tecnológicas, das modas etc., do outro lado, haveria uma “amplitude [temporal] cada vez mais amorfa”. Segundo Gumbrecht, as consequências culturais destacaram uma “crise da representabilidade”, conferindo três “tendências epistemológicas”: 1) a de destemporalização, em que “o tempo não mais aparece como agente absoluto de mudança”; 2) a desubjetivação, na qual “se a ação é essencial a subjetividade, então hoje há desubjetivação, já que as narrativas sobressaem como ‘variação sem originais’”; 3) e a desreferencialização, em que as mídias digitais inferem cada vez mais na captura de “olhos e mentes” do que na representações e experiências que criam fenômenos, períodos, mudanças históricas (o autor pensa aqui nos espetáculos dos “mundo dos esportes”, do rock etc.) (GUMBRECHT, 1998).

Em meio a isso, poder-se-ia perguntar: afinal, o que vem a ser a memória digital para a individuação humana? Há realmente um traço característico que a diferencia? E quais implicações que propriamente tiveram na cultura e política – e, especificamente, na educação contemporânea? Venho notando que estas inescapáveis questões, de ordem macro, são profundamente encaradas pelo francês Bernard Stiegler, pensador que avançou originalmente nos aqui avocados “problemas foucaultianos” dos dispositivos técnicos, e da ordem de sua representação no saber e na vida atuais. A explanação a seguir parece ser um bom caminho para falarmos, por fim, da inovação provocada pela ferramenta Qwiki.

A PERSPECTIVA CRÍTICA DE BERNARD STIEGLER

« Il n’y a pas de pensée hors de ses supports »[7],

 Bernard Stiegler

Fundamentalmente, para Stiegler, a relação homem e técnica exige hoje uma (re)formulação de forma a revelar melhor a constituição do humano e, derradeiramente, demarcar a condição psíquica, social – e técnica – deste no mundo. Assim, a questão da memória técnica estaria na constituição e demarcação do devir humano.

A técnica, escreveu Foucault em A escrita de si (1992), é melhor entendida por meio do sentido grego da palavra hyponemata, enquanto dispositivos ou suporte da memória e modalidade de constituição do si. Aprofundando este entendimento, Stiegler (2009) sentenciou: não há interioridade que preceda a exterioridade; esta sentença, que reporta aos trabalhos paleo-antropológico de Leroi-Gourhan, gesticula a tese de que os movimentos de invenção e história das técnicas são simultâneos aos de invenção e história do homem; ambos embalam a posição de sujeito e de objeto na constituição do humano, este visto de forma não-antropocêntrica e estudado a partir de sua individuação psíquica e social (STIEGLER, 1998).

Expõe-se um discurso que evita a separação e a dicotomização na relação que vincula o quem (o homem) e o o quê (a técnica). Para Stiegler, a qualidade da “memória viva” (anamnèse) é a capacidade de pro-jetar para fora dela mesma (hypomnèse). A “memória viva” humana se constitui pela memória genética (celular) e pela memória epigenética (somática e nervosa), sendo as duas finitas e morrem quando morre o ser. No entanto, a memória epifilogenética (técnica) é capaz atuar sobre a finitude destas duas primeiras, de forma a transpassar e a gerar novos atributos à vida humana. A técnica é, portanto, aquilo que prolonga a vida por outros meios que não a vida.

O suporte da memória epifilogenética é reconhecido enquanto uma retenção terceária – apurando aqui o discurso fenomenológico husserliano sobre as “retenções da consciência”. Para Stiegler, se quisermos entender o processo de gramatização – o “alfabeto” que regula a descrição, formulação e discrição das falas e dos gestos humanos –, é fundamental captarmos os ajustamentos e conflitos entre o artificial meio exterior das retenções terceárias e o meio interior da vida psíquica e coletiva (idem, p. 57). Assim, tal pensamento quer se atentar, concomitantemente, com as individuações técnica, psíquica e coletiva.

Ora, as conclusões de Stiegler são de sumo valor, uma vez que o suporte técnico – entendido como “exteriorização da memória” –, permite estudar a espacialização da experiência e captar os processos cognitivos e práticas sociais recorrentes. Como afirma STIEGLER (1998, p.13):

Hoje, isto é, no momento da industrialização da memória e que chamamos de mídia (ao mesmo tempo analógica e digital), o meio associado informacional torna-se o espaço público mundial, por meio dos fenômenos da velocidade de captação, de transmissão, de cálculo e processamento (de sinais analógicos ou numéricos); e afeta de maneira radical a capacidade de antecipação humana em si mesmo.

Esta “capacidade de antecipação” permite discorrer sobre as competências próprias dos indivíduos em realizar, em determinada cultura, a constituição de si e de sua maioridade, como forma reflexiva e crítica. Na visão de Stiegler (2004), a modernidade que herdamos, caracterizada pela Bildung alemã do século XIX, havia construído toda uma rede de dispositivos na qual evidenciou um modo próprio de gramatização da vida psíquica e coletiva. Porém, a partir do século XX, tivemos uma aguda transformação deste modelo de gramatização, que corresponde, notadamente, ao período de pleno desenvolvimento e disseminação dos objetos temporais industriais: fonógrafo, cinematógrafo, fotograma, videograma etc. (STIEGLER, 2004).

Ora, a formação da consciência (Husserl) humana é indissociável da relação entre a temporalidade humana e técnica[8]. Para Stiegler, o sentido geral da palavra cinema como “montagem do tempo” é o paradigma do funcionamento da consciência. Desde o século XX, com o desenvolvimento dos objetos temporais de massa – televisão, rádio, cinema etc. –, um novo fenômeno veio a aparecer na cultura ocidental devido à intensa capacidade destes objetos temporais realizar a sincronização dos fenômenos culturais; e consequentemente, conforme sabemos, ocasionar o aparecimento das indústrias culturais e da problemática da redução das potências dos indivíduos em torno de governo dos desejos para o “consumo capitalista”.

O século XX foi, assim, o momento de estabelecimento do “baisse de la valeur esprit”[9] (P. Valéry). Ao invés de criar uma nova Bildung, as exteriorizações da memória em curso teriam alterado, dissociado e des-gramatizado as individuações psíquicas e coletivas. De tal modo, as individuações técnicas, em velocidade vertiginosa de inovações e modas, entrariam de modo cada vez mais problemático nas sociedades, evidenciando, pois, a indispensável necessidade de criação de uma “política industrial das tecnologias do espírito” para alterar este quadro (STIEGLER, 2010).

Para Stiegler, a informatização hiperindustrial – a “alta tecnologia” –, surgidas no fim do século XX e início XXI, levantaram uma nova vigência paradigmática. Sobressai então uma tese: com a memória digital, o paradigma anterior da memória escrita entra em declínio; e, de tal modo, os dispositivos de memória digital no capitalismo contemporâneo, formado ao mesmo tempo por redes corporativas e colaborativas, lineares ou  múltiplas, podem, em diferentes conjunturas, serem vistas em sinergias positivas ou negativas com as individuações psíquica e coletiva. Assim, ter-se-ia uma ambivalência própria aprontada nos dispositivos contemporâneo. As tecnologias digitais, em determinadas formas e ambientes, poderiam ser veículos de intensificação de individuações; ou, ao contrário, projetar a desindividuação psíquica e coletiva.

Em Stiegler, portanto, a dimensão hiperindustrial e a gramatização digital provocada pelas hypomnemata analógicas e digitais lançam novas questões políticas (STIEGLER, 2009, p.39), seguindo um resgate do sentido platônico da palavra pharmakon, que designa tanto um remédio como um veneno[10]. Stiegler explica o quanto a tecnologia deve ser sempre analisada no sentido dessa farmacologia, isto é, dentro de uma ambivalência originária (STIEGLER, 2007).

De tal modo, a questão seria encarar o fato de que essa informatização hiperindustrial, em que ascenderam as tecnologias da virtual ou cognitivas, movimentou um amplo espectro de novos objetos temporais digitais, promovendo uma grande “desterritorialização” dos eventos no próprio ato de sua recuperação informacional e confirmando o diagnóstico benjaminiano acerca da (in)capacidade de “narrar” (FERREIRA & AMARAL, 2004).

A resposta de Stiegler para a “crise da representabilidade” é clara: é necessário uma nooética que seja nootécnica[11] para (re)constituição de sentidos e usos dos dispositivos/suporte da memória – da escola, sistema financeiro, internet, das tecnologias móveis, dos audiovisuais –, de forma a constituir verdadeiras gramatizações e hyponnematas; caso contrário, haverá tão-somente “proletarização cognitiva” e “declínio do savoir-faire” (STIEGLER, 2009b).

Em suma, o filósofo francês nos abre uma perspectiva que realmente pensa e age diante da “questão da técnica”. Tal perspectiva seria, portanto, importanto, pois não apenas buscariam responder acerca de “como deveríamos agir?” (questão central de H. Arendt) ou acerca de “como devemos viver?” (questão central de M. Heidegger), mas, acima de tudo, responder e politizar sobre a questão do devir: “o que estamos a nos tornar?” – remetendo, por conseguinte, a estas compreensões filosóficas de agir e viver[12]. Ora, aqui, neste artigo, a demanda indagativa poderia então ser: o que o Qwiki, e tantas outros dispositivos, vem nos compelindo a se tornar? E quais as implicações disto?

A ENCICLOPÉDIA AUDIOVISUAL QWIKI

« Il y a beaucoup d’inventions qui ne produisent aucune innovation » [13]

Bernard Stiegler

Uma distinção entre invenção e inovação vem a ser interessante para pensar a forma como podemos conceber as transformações tecnológicas em um certo ambiente cultural e político. Invenção, enquanto um momento tecnocientífico de criação de um novo método, objeto, mecanismo (ex: invenção da técnica de circuito integrado), seria diferente de inovação, caracterizada como um momento em que aquela invenção sai dos “laboratórios” e um novo produto se insere na vida pública (ex: laptops, sendo uma inovação nos modelos de computadores). Assim, não pode haver inovação sem invenção, e seria exatamente na análise de um “novo produto” (inovação) que poderíamos examinar os potenciais (ou não) de modificações positivas ou negativas em um determinado ambiente (STIEGLER, 1998).

Cotidianamente milhares de novas invenções são hoje posta no “mercado de consumo” (uma empresa como a Sony é capaz lançar milhares invenções anualmente!); no entanto, do mesmo modo, milhares saem tão logo de produção, “morrem”, comprovando-se então sem nenhum potencial de inovação. Sintomaticamente, no que diz respeito ao imaginário tecnológico e de sucesso de marketing, o potencial de inovação da ferramenta Qwiki se afirmou de modo muito rápido: na primeira semana de lançamento, a empresa já tinha recebido mais de 500 mil visitas.

Qwiki Incorporation é uma empresa privada que se instalou em Palo Alto, São Franscisco (EUA), dedicando-se no ramo de serviços de tratamento de informações e conectividade em ambientes de internet. Atualmente tem um time de não mais do que 30 pessoas, em sua maioria jovens ligados a engenharia de computação, design e marketing. Os chefes executivos e fundadores Doug Imbruce e Louis Monier, este conhecido como co-fundador do AltaVista, vêm recebendo poderosos aliados para as suas propostas de inovação. Em janeiro, acrescentaram ao bolso mais de 8 milhões de dólares a partir de investidores individuais[14], entrando para a empresa nomes de peso, tais como o brasileiro Eduardo Saverin (co-fundador do Facebook), Jawed Karim (co-fundador do Youtube) e Pradeep Sindhu (co-fundador da Juniper Networks). Isto deixou claro um interesse “entusiasmo” com a pretendida inovação.

Em relação ao estado atual, Qwiki é ainda uma plataforma de geração robótica de audiovisual em versão “alpha” (de teste): o visual é ainda “fotográfico”; o áudio robótico, ainda com voz maquínica esteriotipada; sua disponibilidade se limita a língua inglesa, e o banco de dados acessado pelo robo-algorítmo ainda não foi estendido até onde é possível.

Pouco importa esta situação elementar. A ideia de Qwiki é a de dispor sua tecnologia de geração de produtos audiovisuais para os dispositivos móvel, interfaces para Ipads; sendo que, provavelmente, é este seu lugar no futuro. O projeto Qwiki é cheio de interesses inovativos e, realmente, as potencialidades são muitas – de modo que é isto que cabe refletir neste artigo. A empresa não mede palavras sobre a versátil da máquina Qwiki:

Se você está planejando férias na web, avaliando restaurantes pelo seu celular, ou procurando ajuda para seu trabalho de casa com sua família em frente da Google TV, Qwiki está trabalhando para você enviar informações em um formato que é a quintessência humana – via narrativas ao invés de pesquisas[15].

O termo “quintessência humana” é um interessante e sintomático pedantismo – pois a individuação maquínica seria capaz de garantir o “ato de narrar”, no mesmo instante em que a individuação humana vem a entrar em um lugar de “crise”. A partir de mídias digitais como o Qwiki, as possibilidades de transformação do “arquivamento eletrônico da memória” em objetos temporais cinemáticos movimentam os processos que estão invocando novas formas cognitivos e sociais – e, por conseguinte, alterando a maneira como as pessoam falam, categorizam, lembram as atividades da vida cotidiana. Altera-se, pois, as formas de agir com as informações e conhecimentos; as mudanças são lentas, mas os processos são amplos: atingem a vida social como um todo, notadamente aos aspectos educacionais.

Ora, a máquina Qwiki nasce dentro de uma tecnocultura problemática. O problema aqui, dentro do ambiente de “crise de representabilidade”, é aquele que invoca cada vez mais a palavra lembrar como sinônimo de “armazenar” e “se exaurir” em informações, enquanto que os sentidos de valorizar, recuperar, preservar – mas também esquecer, dividir, abstrair – vêm a ser perdidos; sendo evidente que lembrar/esquecer não poderiam ser reduzidos a uma maximização produtiva.

Deve-se entender que, obviamente, os agenciamentos técnicos do Qwiki não são diametralmente “fechados” às possibilidades de experimentar e aprender das pessoas. Bem entendido, contudo, a questão recai, em primeiro lugar, em um olhar para o ambiente em que se inserem estas ferramentas digitais: um mundo cada vez mais satisfeito por inteligências artificiais que anseiam os performatismos, a automatização de gestos e pensamentos. A inovação na “experimentação da informação” proposta pelo Qwiki se encontra dentro deste mundo, algo que vem provocando investigações acerca dos processos de destruição da atenção e de desindividuação coletiva.

Contudo, seria parcial se fechássemos argumento no qual Qwiki surge apenas para suprir o atual estado da tecnocultura de “colecionismo”, “enciclopedismo”, “fragmentação”, e de transformação da cultura como “recurso econômico e performático”. Certamente, a questão tem desdobramentos múltiplos, que não só nestes aspectos. Em relação, por exemplo, à questão das novas relações entre cérebro humano e máquina, Ferraz (apud INGUI, 2011, p.13) escreve que:

[Pierre] Lévy tem certa razão ao ressaltar o aspecto problemático da utilização do mesmo termo (memória) tanto para o complexo fenômeno humano quanto para as máquinas cibernéticas. O uso comum pode se prestar à equivocidade, na medida em que a memória humana, quer no plano individual quer no coletivo, diz respeito à vivência num tempo e espaço, ao contrário da informática que apenas armazena informações (…) no caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente.

Como explicou Stiegler, a retenção terceária, a memória epifilogenética, técnica, teria suas particularidades, e ela se encontraria intimimente ligada à constituição da cognição, dos gestos e pensamentos humanos. O questionamento do tipo de retenção proporcionada pelas novas ferramentas digitais vão no sentido de tentar entender os “curto-circuitos” que estas vem a produzir nos modos de existência. O funcionamento da máquina Qwiki é, sem dúvida, mais um capítulo da “perda do corpo” (da cognição) que as tecnologias digitais estão desencadeando. Porém, com esta “perda”, pode-se abrir (ou não) novas formas de vida. Ocorre que os agenciamentos, as midiatizações próprias das linguagens tecnológicas avançadas, levam-nos a outras formas de pensar o humano e as coletividades. Assim, de certa forma, automações como as da plataforma audiovisual Qwiki se encontram imersas nisto.

Mas, contudo, qual o valor colaborativo, de uso da “inteligência coletiva” da plataforma Qwiki? A questão vem a ser pertinente e pode-se questionar acerca do significado da maquinação corporativa do Qwiki na tecnocultura contemporânea. Ora, no momento em que se sai dos ambiente de transmissão “um-todos” e se abre para os de interação “todos-todos” (SILVA, 2008), os agenciamentos centralizadores que o Qwiki provocam poderiam (e devem) ser politizados. As “economias contributivas” (Stiegler) propiciam oportunidades de múltiplas experimentações, expressões, e estão mobilizando novas experiências de conhecimentos (culturais, sociais, econômicos). A enciclopédia audiovisual Qwiki se encontraria longe deste universo. Na verdade, caminha na direção contrária. Assim, de modo algum a empresa estaria fazendo jus o uso wiki em Q-wiki.

A partir dos estudos de BURGESS & GREEN (2009), sobre o Youtube e a revolução digital, podemos realizar uma abreviada comparação entre as plataformas Qwiki, Youtube e Wikipédia:

Qwiki
Youtube
Wikipedia
definição: plataforma enciclopédica audiovisual, agregadora automática de conteúdos, com experiência e tipo de conteúdo pré-definido.
definição: plataforma e agregador de conteúdo, não sendo produtora de conteúdo em si mesma.
definição: enciclopédia multilíngue online, livre e colaborativa.
ambiente: audiovisual, de estabilidade “maquínica” (centralizador)
ambiente: audiovisual, de instabilidade “humana” e “maquínica” (centralizador/descentralizador)
ambiente: baseado em linguagem hipertextual, de instabilidade “humana”, com possibilidade de agregação de áudios e fotografia (descentralizador)
conteúdo: cultura audiovisual enciclopédica e conceitual.
conteúdo: cultura audiovisual indefinida, ilimitada.
conteúdo: cultura hipertextual, de conteúdo enciclopédico, almanáquico e conceituais, sem definição prévia.
interatividade: satisfeito por conectividade automática com conteúdos dispostos na internet.
interatividade: inserção de vídeos, com espaços para comentários, discussões, canais, respostas.
interatividade: inserção de novos termos, discussão, revisão etc.: abertos ao público em geral.
marketing: ainda não definido.
marketing: diversa e personalizada, com propaganda visual na página e nos vídeos.
marketing: plataforma digital sem fins lucrativos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Aos poucos nos tornamos consumidores passivos de arte.

Bernard Stiegler.

Uma das centrais movimentações críticas do pensamento de Bernard Stiegler advém do fato de que o modelo político-econômico na tecnocultura assentou uma energia libinal, os desejos, em torno do consumismo e, por conseguinte, da falência de um projeto que gere a atenção para a construção simbólica da vida íntima e pública. O próprio campo da arte e da educação estariam especialmente afetados neste cenário de maior “sensorialismo” audiovisual, performatismo e consumo de informação.

As maquinações informáticas como as que satisfazem Qwiki não podem ser satisfeitas apenas por uma hipoteca de mais “inteligência”, e menos individuações psíquica e coletiva; exaurindo as formas de criar, produzir, apreciar. A educação é, em última instância, a formação de atenção. Atenção é fluxo de consciência, ato de pensar, discernir, criar, apreciar, capacidade de antecipação, em que se propicia e se efetiva as retenções. A partir do século XX, as tecnologias de gramatização da percepção audiovisual apareceram como discretização dos fluxos de órgãos dos sentidos, de modo que a nova crítica da atenção deve passar por estes objetos temporais. A relação entre os objetos temporais e a educação devem ajudar, simultaneamente, a capturar e a formar a atenção, sendo preciso, urgentemente, procurar valorizar as hyponnemata digitais, que ajudam na fundação de uma “nova economia política da memória e do desejo”:

Em se tratando de filosofia política, importa saber quem se apropria e quem controla os processos de transindividuação denominados metatransindividuantes e que permitem controlar as metatransformações socioeconômicas e sociopolíticas, através das hipomnésias próprias a cada época da gramatização – as metatransindividuações sendo determinadas pelas características técnicas ou tecnológicas das retenções terciárias (STIEGLER, 2009b, p.37).

Aqui, o problema político é, em última instância, um problema estético. E, contrariamente a muitas perspectivas em cibercultura, a questão do controle do poder permanece central. Se temos hoje um “curto-circuito” a partir do desenvolvimento de uma temporalidade de individuação técnica que “anda mais rápido” que a temporalidade das (des)individuações individual e coletiva, isto é certamente devido ao modo como as população estão solícitas a variados grupos sociais que desenham tão-somente dispositivos de inovação para o consumo. Afinal, em meio à velocidade que anima muitas das interações digitais, é imprescindível saber qual é a política de industrialização da memória, de criação, utilização e preservação dela, que vem sendo arquitetada na Internet, pelas corporações de mídias digitais[16].

O futuro do ensino via máquina digitais é promissor. Um artigo da Folha de S. Paulo (10/10/2010), Avatar pode dar aulas em 2015, dá um exemplo do imaginário que já está sendo construído:

Para a Fast Future [organização britânica], ele [o Avatar] também substituirá professores de nível fundamental. Com ele, surge a função de gestor do avatar. Seu foco será acompanhar o aluno, reforçar conteúdos e mapear interações para planejar o curso, diz José Moran, diretor do centro de educação a distância da Anhanguera Educacional e professor aposentado de novas tecnologias da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes). ‘A educação ainda está muito aquém da evolução tecnológica’, ressalva”.

Sob a expressão do Qwiki, pensar o devir algorítimo é um caminho discursar acerca daquilo que estamos nos transformando, sabendo que, neste contexto de proeminência da digitalização da memória, torna-se fundamental políticas de criação de “tecnologias colaborativas do espírito” (Stielger), que seriam capazes de combater o modelo produtor/consumidor e “modificar profundamente a sequência linear de pesquisa / concepção / marketing / distribuição / consumo”[17]. A possibilidade aqui é de discursar sobre o design contínuo de “tecnologias de si”, “tecnologias relacionais” e “economias de contribuição” como caminho para um novo modelo de inovação e interações educacionais.

Um novo modelo de inovação está em processo de se inventar: passámos de um processo hierárquico, produzido pela forma de cima para baixo para as de aplicações em ‘inovação bottom-up’. As tecnologias digitais trouxeram essa inversão. Uma verdadeira infra-estrutura vem sendo desenvolvida nos últimos vinte anos via Internet, onde não há um produtor de um lado e o consumidor de outro, mas sim um lugar onde todos são de algum modo ‘colaboradores’ (STIEGLER, 2009b).

Uma dimensão ético-política contemporânea não pode se pronunciar bem sem se situar na condição tecnocultural vigente. Os dispositivos técnicos que produzimos, além de gerar fenomenologicamente a questão de sua objetualidade (coisa), gera também atitudes (“savoir-faire”), conhecimentos e volições (desejos ou pulsões) (MITCHAM, 1994). Se a ética, desde Aristóteles, havia pensado os meios para se alcançar a “felicidade” ainda demovidas de uma condição tecnológica, hoje isto é impraticável. É urgente a construção de discuros ético-políticos que busquem situar-se no mundo atual. Ora, deveríamos saber como agir com as tecnologias; saber as consequências da ação tecnológica; e agir de forma que a volição (desejo) e a inteligência empenha a realizar singularidades políticas e culturais. O artigo não procurou, de modo algum, dar um “saldo final” a respeito – mas sim tentou localizar os atuais contextos atuais e as questões pertinentes.

Referências bibliográficas

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[1] Artigo científico apresentado ao eixo temático “Educação, Processos de Aprendizagem e Cognição”, do IV Simpósio Nacional da ABCiber (2011).

[2] Doutorando em Comunicação – UFF (bolsista CAPES-REUNI). Mestre em Sociologia Política – UFSC. Desde a graduação se interessa pelos contextos das tecnologias da comunicação e informação e a sociedade. Atualmente concentra-se em dois eixos principais de pesquisa em Comunicação: Cibercultura e Filosofia e Política da Técnica/Imagem contemporânea. Desenvolve tese de doutorado sobre a obra do cineasta Harun Farocki, com foco especial nesses dois eixos de pesquisa. É integrante do Grupo Kumã (Laboratório de análise e experimentação de imagem e som). Email: ednei.genaro@yahoo.com.br.

[3] “O objetivo do Qwiki é sempre melhorar a forma como as pessoas experimentam a informação”.

[4] Ver, por exemplo: SERRES (2007); CARELLI & MONTEIRO (2007).

[5]  Em um entendimento positivo das mudanças, Michel Serres, por exemplo, enfatiza uma antropotécnica na qual expõe o quanto o cérebro e o corpo vão deixando de ser suporte da memória a cada vez mais que se inventa instrumento e organismo novos, e a partir do qual o humano vai se ‘reinventando’ (SERRES, 2007).

[6] “A especialização começa, precisamente, num tempo que chama homem civilizado ao homem ‘enciclopédico’. O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente, embora sua produção tenha já um caráter de especialismo […]. Eu disse que era [a especialização] uma configuração humana sem igual em toda a história. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é ‘um homem de ciência’ e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Devemos dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio” (ORTEGA Y GASSET, 1959, p.156).

[7] “Não há pensamento fora dos suportes [técnicos]”.

[8] Ver dissertação de mestrado: Genaro (2010).

[9] “Declínio do valor espiritual”, em francês.

[10] Ver a obra “A farmácia de Platão”, Derrida (2005), influência fundamental aqui, em Stiegler.

[11] Nootechniques: nous (em grego) = “intelecto” ou “pensamento”. Para Stiegler, o meio nooético seria capaz de abrir o indivíduo ao espaço público e, tão logo, possibilitar um meio simbólico associado a favor das coletividades, das individuações.

[12] A articulação conceitual de Stiegler parece ser bastante motivadora para estudar de forma empírica e crítica, fugindo de visões “otimistas” ou pessimistas”, ou de equações peremptórias acerca das tecnologias contemporâneas.

[13] “Há muitas invenções que não produzem nenhuma inovação”. Entrevista à revista Telerama.fr, em 09 de junho de 2009. Acessível em: http://www.telerama.fr/techno/bernard-stiegler-il-existe-beaucoup-d-inventions-qui-ne-produisent-aucune-innovation,43551.php

[14] Ver site Bussiness Journal, em: http://www.bizjournals.com/sanjose/news/2011/01/20/qwiki-raises-8m-in-first-round.html

[15] Consultar em: http://www.qwiki.com/about-us.

[16] Como bem salientam CARELLI & MONTEIRO (2007, p.11), “o Google, hoje, é uma das maiores plataformas de processamento de dados do mundo, entretanto, seu objetivo é a busca e não a preservação dessa memória. Atua gerando índices dos conteúdos existentes na rede, atualizando-os constantemente. Outro aspecto importante, que tem relação com a própria natureza do Ciberespaço, é a desterritorialização dos itens, pois cada vez que uma página da Web muda ou sai de linha a versão original se perde, de modo que para Battelle (2006 p. 239) a “Web não tem memória”.

[17] Consultar o site Ars Industrialis (http://arsindustrialis.org/), portal da “Associação Internacional por uma Política Industrial de Tecnologias do Espírito”.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. leandro
    set 01, 2015 @ 11:28:54

    Esse Qwiki desapareceu?! Nao era agora. Vai reaparecer em algum outro lugar tempo. A desterritorializacao da memoria é caminho sem volta! A nova geracao aguarda um bom gpogle glass

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