FOUCAULT II & BOLTANSKI – MOBILIDADE E CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

FOUCAULT II & BOLTANSKI – A “MOBILIDADE” COMO VARIÁVEL CENTRAL DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO:

No momento de desenvolvimento de novas tecnologias da comunicação e informação, critica-se o horizonte do capitalismo no qual ao mesmo tempo em que ‘libera’ cria novas novas formas de controle. Foucault, em “O nascimento da biopolítica”, lapidou este paradoxo inerente ao capitalismo que envolve liberdade e controle. Isto é marcado pelo fato de que rompe com o modelo do panopticismo. Foi Deleuze, no entanto, que levou mais adiante esta nova perspectiva em relação aos dispositivos de controle da vida, cunhando sua ideia de “sociedade de controle”.

A mobilidade, ou, se quisermos, a modulação, da vida se tornou variável central da lógica capitalista. Como bem enfatizaram o Boltansky & Chiapello (2009), a ascensão do “homem conexionista” satisfez uma exploração que não mais se baliza no âmbito do trabalho, mas entre aqueles que são móveis e aqueles que são imóveis. As respostas destes autores são semelhantes às de Deleuze.

“(…) as qualidades que, nesse novo espírito [do capitalismo], são penhores de sucesso – autonomia, espontaneidade, mobilidade, capacidade rizomática, polivalência (em oposição à especialização estrita da antiga divisão do trabalho), comunicabilidade, abertura para os outros e para as novidades, disponibilidade, criatividade, intuição visionária, sensibilidade para as diferenças, capacidade de dar atenção à vivência alheia, aceitação de múltiplas experiências, atração pelo informal e busca de contatos interpessoais – são diretamente extraídas do repertório de maio de 68. Mas esses temas, associados nos textos do movimento de maio a uma crítica radical do capitalismo (especialmente à crítica à exploração) e o anúncio de seu fim iminente, encontram-se, na literatura da nova gestão empresarial, até certo ponto autonomizados, transformados em objetivos que valem por si mesmos e são postos a serviço das forças cuja destruição eles pretendiam apressar. A crítica à divisão do trabalho, à hierarquia e à supervisão, ou seja, ao modo como o capitalismo industrial aliena a liberdade, está assim desvinculada da crítica à alienação mercantil, à opressão pelas forças impessoais do mercado, que, no entanto, quase sempre a acompanha nos textos contestadores dos anos 70”. (BOLTANSKY, 2009, p.130).

Esta conclusão é bastante relevante. A incorporação das ideias críticas do maio de 1968 pelo capitalismo tiveram como resultado a diluição múltipla e constante dos movimentos de resistências. “[A] nova gestão empresarial, escreve ainda os autores, volta-se para aquilo que se denomina, com frequência cada vez maior, ‘saber-ser’, em oposição ao ‘saber’ e ao ‘saber-fazer’” (idem, p.131). Como as formas de resistências e empresariais se con(fundindo), tornou-se cada vez mais difícil para os intelectuais acreditarem nas atividades que ‘liberaram’ os indivíduos para a construção de novas subjetividades e sociabilidades. Em relação à Internet, em que os termos “comunicabilidade”, “criatividade”, “diferença”, “novidades” são ordem do dia, as desconfianças e descréditos devido aos sentidos de mercantilização e controle alcançam discursos desmedidos. Afinal, deveríamos pensar que tudo isso é somente um disfarce para um bipoder de controle mais complexo e contínuo? Talvez seja preciso pensar concretamente este assunto, ao invés de se vincular a um pessimismo ou otimismo agudos – como se tudo que ocorresse nas redes, que inserem virtualidades-atualidades no mundo, já estivessem definidas, sem compreender que a construção de uma rede sempre evoca linhas de sedimentação e de fissuras.

[BOLTANSKY & CHIAPELLO, O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009; FOUCAULT, Michel, O nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008].

A questão da mobilidade ganha novos debates na filosofia política. Marcos Nobre, professor da Unicamp, destacou bem este novo marco no qual muda as formas de pensar questões clássicas – Estado, sociedade civil, mercado. Pontos que dividem opiniões em relação às posições de “esquerda” e “direita”. Veja o vídeo:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: