HEIDEGGER E DELEUZE: FILÓSOFO DA FLORESTA / FILÓSOFO DA CIDADE

HEIDEGGER E DELEUZE: FILÓSOFO DA FLORESTA / FILÓSOFO DA CIDADE

O pensador canadense A. Feenberg talvez nos possa ajudar a interpretar a obra de Heidegger, diante da imensa dificuldade que é fazer isso, especialmente em relação as suas posições meditativas sobre a técnica moderna. No artigo “O que é tecnologia”, Feenberg intenta mostrar que deveríamos separar algumas coisas antes. Seria possível dividir as visões sobre a técnica em quatro posições: determinismo, instrumentalismo, substantivismo e teoria crítica. Ele se coloca como representante da última e passa a pensar acerca deste modo de pensar. A teoria crítica teria uma vantagem por ser a única a reconhecer que a tecnologia perfaz agenciamentos diversos nos quais ajudam a transformar a individuação humana, seja ela psíquica ou coletiva; ou seja, ela incorpora valores, mas isto não quer dizer que “determina” os valores, políticos, históricos etc. Heidegger, somente para um leitor primário seria visto como um autor ‘determinista’. Feenberg, ex-aluno de Marcuse e grande leitor de Heidegger, não comete este erro. Nota profundamente a originalidade de Heidegger e o importante caminho aberto por ele. No entanto, fiel aos marcos da práxis que envolve a Teoria crítica, Feenberg impulsiona seu discurso para uma resposta de emancipação. Pensar as tecnologias é então pensar saídas possíveis – em meios democráticos radicais, valorizando a local – em que se decide sobre adoção ou não de tecnologias, pensando suas mudanças, variações, abrangências, limitações etc. Heidegger teria permanecido como “substancialista”, assim como outros da própria Teoria crítica (Adorno e Habermas, principalmente).

A TEORIA SUBSTANTIVA DE HEIDEGGER, SEGUNDO FEENBERG:

“A teoria substantiva não faz tal suposição sobre as necessidades às quais a tecnologia serve e é crítica ao invés de otimista. Neste contexto, a autonomia da tecnologia é ameaçadora e malévola. Uma vez libertada, a tecnologia torna-se cada vez mais imperialista, controlando cada domínio da vida social, um após o outro. Na imaginação mais extrema do substantivismo, um Admirável Mundo Novo, como o que Huxley apresenta em seu famoso romance, domina a humanidade e converte os seres humanos em meros dentes de engrenagem de sua maquinaria. Isto não é utopia (‘o não lugar’ de uma sociedade ideal), mas distopia (um mundo no qual a individualidade humana foi completamente suprimida). Huxley descreve pessoas produzidas em linhas de montagem, destinadas a propósitos sociais específicos e condicionadas a acreditar exatamente nas coisas que as adaptam a suas funções. As pessoas, como disse certa vez Marshall MacLuhan, tornaram-se os ‘órgãos sexuais do mundo máquina’. O mais famoso teórico do substantivismo foi o alemão Martin Heidegger, um dos principais filósofos do século XX. Heidegger sustentou que a modernidade se caracteriza pelo triunfo da tecnologia sobre todos os outros valores. Ele percebeu que a filosofia grega já tinha fundado sua compreensão do ser na produção técnica e argumentou que este ponto de partida culminara na tecnologia moderna. / Enquanto os gregos tinham na technê um modelo para o ser em teoria, nós transformamos o ser em prática técnica. Nossa metafísica não está em nossas cabeças, mas consiste na real conquista técnica da terra. Esta conquista transforma tudo em matéria-prima para o processo técnico, inclusive os próprios seres humanos. / Nós não apenas obedecemos constantemente às ordens dos muitos sistemas técnicos com os quais nos envolvemos, mas também tendemos a ver a nós mesmos cada vez mais como dispositivos regulados pela medicina, psicologia, educação física e outras disciplinas funcionais. Eu não sei se vocês têm tantos destes livros no Japão como temos na América, mas em nossas livrarias vocês podem encontrar o equivalente de manuais de instruções para cada aspecto da vida: amor, sexo, educação infantil, alimentação, exercícios, ganhar dinheiro, divertir-se, e assim por diante. Somos as nossas próprias máquinas. / Mas, conforme argumenta Heidegger, embora possamos controlar o mundo através de nossa tecnologia, não controlamos nossa própria obsessão pelo controle. Há algo para além da tecnologia, um mistério que não conseguimos desvendar a partir do nosso ponto de vista tecnológico. Para onde apontamos é também um mistério. O Ocidente, na visão de Heidegger, já atingiu o fim da linha que seguiu. Em sua última entrevista ele declarou: ‘Apenas um Deus pode nos salvar’” (Feenberg in: “O que é tecnologia”).

Michael Hardt é um comentador importante de Deleuze. Em Gilles Deleuze: an apprenticeship in philosophy, de 1993, ele nos apresenta uma tese indelegável: a atitude filosófica de Deleuze tinha como uma de suas marcas principais o afastamento em relação às ontologias hegelianas e heideggerianas vigentes no cenário intelectual francês. E. Craia, fazendo comparação entre Deleuze e Heidegger, escreve uma diferença de perspectiva filosófica marcante: Deleuze é o filósofo das cidades, das maquinações; Heidegger, o filósofo da floresta, da meditação.

“Alguém comentou que Deleuze era homem das cidades imperiais, não da floresta; da dinâmica alucinada, e não das serenas caminhadas com silenciosos amigos. Deleuze era filósofo da produção de máquinas, não da nostalgia artesanal; por este motivo a técnica não o assustava. Deleuze nunca postulou o fim do pensar (…) A filosofia continuara a produzir seus conceitos, e os homens singulares continuaram a pensar atravessados por velhas forças. Eles mesmos já não mais homens, eles mesmos tornados uma outra coisa que ainda deveremos definir. Tudo deverá ser agenciado de novo, voltar a montar, o incessante retorno do diferente e suas potências” (In: Craia, “Deleuze e a questão da técnica”. Tese de doutorado, Filosofia-Unicamp).

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