PERSPECTIVISMO – LATOUR, PASSANDO POR NIETZSCHE

PERSPECTIVISMO – LATOUR, PASSANDO POR NIETZSCHE

Referencio o link de um pequeno e admirável artigo de sobre o ‘fundador’ do perspectivismo: Nietzsche. “O abismo da suspeita: Nietzsche e o perspectivismo” – http://www.oquenosfazpensar.com/adm/uploads/artigo/os_abismos_da_suspeita_de_nietzsche_e_o_perspectivismo/n18SilviaPimenta.pdf. O melhor comentário que já li sobre este tema super difícil em Nietzsche (bem dizer, em qualquer filósofo que queira discursar sobre perspectivismo e não cometer o deslize de cair em mera ideia de relativismo). Usei intencionalmente o termo fundador para dizer que, na verdade, neste modo de pensar – mostra o artigo da Rocha – não há nenhuma fundação, que determinaria uma origem, uma essência e, tão logo, um ponto fixo indiferente para discursar sobre algo. No caso, a autora acrescenta quando explica que o que restará então é uma constante ‘suspeita’ (que pode ser recair até do próprio ato de suspeitar). Isto torna diferente do que o ceticismo que ainda desejou ‘a verdade final de que não há verdade’. Nietzsche foi realmente radical: “O que nos distingue dos crentes e dos piedosos não é a qualidade, mas a quantidade de nossa fé e de nossa piedade: nós nos contentamos com menos” (Vontade de Potência). //“A novidade de nossa posição atual com relação à filosofia é uma convicção que jamais houve: a convicção de que não possuímos a verdade. Todos os homens de antigamente ‘possuíam a verdade’: mesmo os céticos” (Nietzsche, Aurora).

A posição de Bruno Latour em relação ao perspectivismo provém de sua preleção por uma antropologia simétrica. Ele exemplificou com uma história muito curiosa de desvio de sócio-lógicas em ‘redes diferentes’. Reproduzo de “Ciência em Ação”:

“Associação livre 2: Em junho de 1974, estive presente numa festa em honra ao doutoramento de Marc Augé, antropólogo francês, promovida por aquele que fora sua principal fonte de informação, Boniface, na região litorânea de Allada, na Costa do Marfim. Comíamos e bebíamos em cabanas de sapé de frente para o oceano, mas sem nadar, pois Boniface avisara que a corrente submarina era perigosa demais. Um de nossos amigos, ligeiramente embriagado, resolveu nadar, apesar do aviso. Logo foi tragado pela arrebentação. Todos nós, negros e brancos, ficamos olhando, impotentes. Boniface, homem idoso sentindo-se responsável por seus convidados, foi para o mar com uns amigos mais jovens. Algum tempo depois a arrebentação trouxe nosso amigo de volta para a praia, mas durante muitas horas ficamos observando o corpo de Boniface boiando nas ondas. Toda a aldeia, seu clã familiar, reuniu-se ali, chorando e gritando, mas impotente. Como branco, senti-me responsável, e odiei meu amigo, outro branco, que causara o trágico afogamento de nosso anfitrião. Também temi que os habitantes do lugar, levados pela mesma interpretação coletiva, se voltassem contra nós e nos linchassem. Num gesto protetor, agarrei-me a minha filhinha. Mas ninguém olhava para nós nem nos ameaçava. Os mais idosos queriam simplesmente saber quem causara a morte de Boniface, e deram início a um atento interrogatório. Em momento algum chegaram a pensar em nós. A responsabilidade tinha de ser de alguém da linhagem de Boniface. Quando, de madrugada, o mar depositou o corpo na praia, começou um interrogatório do cadáver, ao qual Marc Augé assistiu. Foram tentadas muitas interpretações de sua morte, por meio de longas discussões que passaram em revista dívidas, doenças, propriedades, o clã e a biografia de Boniface, até ficar claro para todos que uma das tias dele fora a causadora da morte. Ela era o elo fraco daquelas longas cadeias que atavam Boniface a seu destino; e meu amigo, que não obedecera as recomendações do anfitrião, literalmente nada tinha que ver com a morte dele. Eu distribuíra causas e efeitos, atribuíra opróbrio, culpa e responsabilidade, definira elos entre as pessoas reunidas na praia, mas a distribuição, a atribuição e a defínição dos velhos reunidos em torno do cadáver foram inteiramente diferentes. Entre as duas redes circulavam, em idênticos graus, ansiedade, ódio, raiva, ceticismo, vigilância e crença, mas seus fios não passavam pelos mesmos pontos”.

A ‘moral da história’ do perspectivismo latourniano parece ser muito semelhante ao cerne da proposta de Nietzsche. Para sintetizar o que pretender com sua aobrdagem simétrica. Ele escreve um pouco a frente ao parágrafo acima:

“Diante de uma acusação de irracionalidade, ou simplesmente de crencas em alguma coisa, nunca acharemos que as pessoas acreditam em coisas ou são irracionais, nunca procuraremos saber que regra da lógica foi infringida, mas simplesmente observaremos o ângulo, a direção, o movimento e a escala do deslocamento do observador”.

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