ENTRE TEORIA DA COMUNICAÇÃO E TEORIA DA MÍDIA?

ENTRE TEORIA DA COMUNICAÇÃO E TEORIA DA MÍDIA?

Um debate acerca do livro As teorias da comunicação de Francisco Rüdiger

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Resumo:

A partir das reflexões e proposições de F. Rüdiger sobre as ‘teorias das comunicação’ (“As teorias da comunicação”, 2011), realizamos uma avaliação indagatória e debatedora acerca da epistemologia no campo comunicacional. Em nossa explanação crítica, três pontos decisivos de debate são isolados: 1) a questão da ‘natureza humana’; 2) os limites do argumento tradicional de determinismo técnico; 3) as novas formas de definir o comunicar. Os pontos nos levam a imaginar uma situação menos cindida entre as hoje chamadas teoria da comunicação e teoria da mídia.

Introdução

Francisco Rüdiger contribui, mais uma vez, com um livro que nos ajuda a compreender os legados históricos e as diferentes perspectivas filósoficas e científicas para pensar o “campo da comunicação”. E, não obstante este saldo compreensivo e didático, temos também, no livro,  reflexões e posições próprias do autor em relação ao campo no qual o professor Rüdiger se dedica a refletir epistemologicamente há vários anos. O diálogo franco e com propriedade é um dos pontos fortes da obra.

Em sua resposta a carta de Heidegger sobre o humanismo, o filósofo Sloterdijk lembrou bem o que vem a ser desde sempre o humanismo: são cartas endereçadas aos “amigos”; os livros seriam as cartas “mais longas”. Como escreve o autor, caso os romanos não tivessem a vontade de receber e interpretar os escritos gregos “como se fossem cartas a amigos da Itália”, nada teria prosseguido (SLOTERDJK, 2000).

O livro de Rüdiger é, pois, uma viva carta sobre o debate epistemológico no campo da Comunicação, realizando um compêndio histórico sobre as “conversas” anteriores a respeito. De tal modo, mais do que uma rotina de reduzir e rearfirmar as escolas, estruturas, descrições e análises que o autor evoca como representativa para as “teorias da comunicação”, como se faria naturalmente em uma resenha, aqui parece ser importante tentar interpretar e tentar avançar em pontos fundamentais do debate provocado, dando assim um valor mais justo ao livro. Após apresentar a obra, estenderei pontos de vistas que notam insuficiências e divergências em relação a ele. Espera-se, com isso, ajudar com produtivos debates em epistemologia da comunicação.

Realizemos, primeiro, uma breve viagem aos cinco paradigmas das teorias da comunicação destacados por Rüdiger: os paradigmas cibernético, funcionalista, interacionista, materialista e midiológico.

As ‘teorias da comunicação’ de Rüdiger

A abertura do livro e o capítulo 1, este intitulado Fundamentos gerais da problemática teórica da comunicação, são diretamente voltados para tentar entender a epistemologia que envolve o campo da Comunicação. O autor assevera o a priori sociólogico que justifica este campo: “o homem não vive sem comunicação”. Tal seria o fundamento que dá sentido e serve para a construção da Comunicação como uma “categoria sociológica e filosófica autônoma” (RÜDIGER, 2011, p.3). Desejando, pois, estar mais perto da filosofia social e do pensamento sociológico, o autor deixa, desde já, bem claro: comunicação, a princípio, não tem nada a ver com tecnologias, com ciências cognitivas, com as confusões entre a comunicação midiada e social etc.

Para Rüdiger, não é pelos meios, usos e aplicações do campo da Comunicação que iremos desvendar qual é a “essência” da disciplina. Na busca pelo “estado puro” da Comunicação, o autor vai se afastando de todos os campos ‘auxiliares’, amplos e multidisciplinares, da Comunicação; e que, de tal maneira, aumentam a neblina no caminho que levaria a encontrar o verdadeiro “rosto” da Comunicação. O livro preocupa-se, pois, com a diferenciação da teoria da comunicação da publicística (1), do estudo da mídia (2), da semiótica (3), do jornalismo (4). De tal modo, nesta separação, a publicística, pegando a definição emprestada de Franz Dröge, vem a ser os estudos interdisciplinares e especializados de todas as formas de comunicação pública (idem, p. 9); o estudo da mídia, não sendo “ciência” em um sentido rigoroso (que infelizmente Rüdiger não evidencia), entraria como campo especializado da Comunicação, voltado para pesquisas com as mediações tecnológicas; a semiótica se definiria enquanto uma disciplina auxiliar da publícistica e da teoria da comunicação, sendo que ela não revelaria realmente fundamentos da “vida concreta” e da interpretação sócio-histórica (Idem, p.11). Por fim, o jornalismo se definiria mais como uma tecnologia ou arte dentro dos processos comunicativos.

Assim, para o autor, um terrível erro dos teóricos foi a maneira ingênua com que eles associaram e confundiram a comunicação social com os meios de comunicação, sendo as duas caracterizadas por diferentes formas analíticas e ordens: a comunicação é algo que precede os meios de comunicação. Para ele, se pegassemos um filósofo social como G. Tarde ou A. Small veríamos que, desde a muito tempo, a exposição de que a comunicação vem antes dos “meios de comunicação”. Foi no século XX, contudo, que teria confusão se tornado forte, levando a obscurecer que “a comunicação representa um processo social primário, com relação ao qual os chamados meios de comunicação de massa são simplesmente a mediação tecnológica: em suas extremidades estão sempre as pessoas, o mundo da vida em sociedade” (Idem, p.16).

O termo Comunicação é, pois, “reservado à interação humana, à troca de mensagens entre os seres humanos, seja quais forem os aparatos responsáveis por sua mediação” (Idem, ibidem). Aqui, a estrutura, função e sentido do ato de comunicar são pensados por base antropomórfica e cultural, sendo ndependente da “técnica” ou da materialidade.

A área acadêmica da Comunicação, mesmo tendo uma demarcação, não se colocaria, contudo, como uma ciência, no sentido forte do termo, mas como um projeto de pesquisa multidisciplinar, com respaldos filosóficos, históricos e sociológicos. No livro, os esclarecimentos do que vem a ser comunicar começam a partir de uma crítica ao “modelo cibernético”, tal como exposto por C. Shannon e W. Weaver e passou a imperar no início do século. Os deficits filosóficos, históricos e hermêneuticos do modelo são destacados: ora, o comunicar transcende a simples troca de informações; ocorre dentro de um universo humanístico; e está sempre inserido em determinações histórico-culturais e existenciais. Contudo, a “primeira fase” de defesa do modelo cibernético deixaria um legado importante para entender o conceito de informação que, no entanto, ao mesmo tempo, incorria em reduzir a comunicação dentro de uma teoria da informação.

Em capítulo 2, A escola de Chicago e o interacionismo simbólico, Rüdiger destaca o peso que esta escola deu para a estrutura simbólica na organização da comunicação e, tão logo, da sociedade. Autores como C. Cooley, G. Mead e R. Park teriam mostrado a dupla tendência que exercem e modificam os símbolos: a de socialização, como fator de estruturação, e a de individualização, como fator de renovação. Uma das contribuições mais importantes, aqui, foi revelar que a comunicação não é simples transmissão mecânica de símbolos, mas mecanismo pelo qual existem e se desenvolvem a partir das relações sociais.

À parte os autores citados, teríamos o legado particular de Hugh Ducan, uma vez que este enfatizou o poder cognitivo que está presente nas interações simbólicas: os símbolos são tanto fontes de significação como esquemas de ação, nos quais mantém certas relações de poder. Harry Pross, na mesma linha de politização do interacionismo simbólico no campo da Comunicação, assentou aportes para pensar a relação e os meios de comunicação de massa. Pross sublinhou como os sistemas de mídia não são neutros (“simples aparatos tecnológicos”), mas responsáveis por criação de hábitos, rotinas, disciplinas; e, ao mesmo tempo, por “violências simbólicas”.

Após os modelos cibernéticos e interacionistas é vez do paradigma funcionalista, destacado no capítulo 3. Enquanto os sociólogos da escola de Chicago depositaram no conceito de símbolo a base para organizar a comunicação/sociedade, os funcionalistas salientaram o conceito de sistema; a ação social se estrutura em sistema, e os sistemas sociais não podem se constituir sem comunicação. Para Rüdiger, teóricos como H. Lasswell, W. Lippmann, E. Bernay foram pioneiros em estudar como as ações sociais das mídias de difusão estruturam e mantém em equilíbrio o funcionamento sistêmico da sociedade. Lippmann e Bernay, especificamente, foram emblemáticos por demonstrarem como as pessoas são incapazes de agir sem os sistemas de mídia formadores de opinião.

Como esclarece Rüdiger, em N. Luhmann, um dos autores mais ricos desta escola, “a comunicação é um meio de agir sobre os outros para obtermos a satisfação de nossas necessidades, constitui um processo intencional, pelo qual as pessoas influenciam o comportamento dos demais, levando-os a realizar certas ações cuja premissa não se encontra em sua própria motivação, mas na mensagem que recebem de seu semelhante, e isso no quadro de interações sucessivas, que determinam a formação de verdadeiros sistemas de ação social” (Idem, p.57).

No processo comunicacional, há sempre uma “realimentação”, para usar termos caros aos funcionalistas. A comunicação de massa cria novas estruturas de sentido (e não simplesmente “influenciam” as pessoas). As mediações tecnológicas não se reduzem a “veículos de transmissão”. Elas são distribuidoras de estruturas de sentido e mecanismo de coordenação social. O avanço do funcionalismo de Luhmann permaneceria, precisamente, em ter formulado uma teoria da mídia enquanto processual, sistemática e generalizada, que se distingue e se relaciona com a comunicação de massa e a conversação pública. Para isso, coube ao autor diferenciar entre as mídias de difusão (de massa) e as mídias de intercâmbio, sendo estas últimas, em resumo, o resultado imediato e complexizador do alastramento das mídias de difusão, no qual as conversações públicas aparecem, criando especializações e (re)estruturas de sentido necessárias para o sucesso da comunicação.

O paradigma materialista é a quarta tradição de pensamento abordada. Sobre o assunto, o livro emprega os capítulos 4 e 5, uma vez que a obra de J. Habermas tem um capítulo especial. Este paradigma, escreve Rüdiger (idem, p.78), despertou para o entendimento da comunicação como um processo de generalização simbólica da praxis humana, satisfazendo como mediação do amplo processo de reprodução da materialidade da vida social; em síntese, aqui “a comunicação é a forma por meio do qual, desigual e contraditoriamente, a consciência se expressa no mundo histórico” (idem, p.78), podendo ela ser fonte de alienação ou de conscientização do homem.

Sob o legado das obras de Marx e Engels, a comunicação torna-se uma condição de possibilidade de interação social. Em primeiro momento, para desenvolver o paradigma na área, teriam sido decisivos os aportes dados por M. Bakhtin e A. Schaff, pois estes haviam procurado evidenciar a relação da comunicação com a divisão do trabalho e com a realidade histórica e cultural da sociedade. A conclusão dos autores não poderia ser outra: “os indivíduos não interagem como seres separados e isolados, cujo contato só surge com a comunicação, mas, antes, como sujeitos sociais, que colaboram na produção dos seus meios materiais de vida” (Idem, p.85).

M. Enzensberger e R. Barbrook se destacariam como estudiosos marxistas das “novas forças comunicativas” a partir dos desenvolvimentos tecnológicos. A imprensa, rádio, televisão, internet etc. seriam questionadas como meios de padronização da consciência, uma vez que as redes técnicas serviriam como meios de circulação das estruturas ideológicas do capitalismo.

O teórico crítico J. Habermas, explicado no capítulo 5, é, derradeiramente, o expoente mais importante para o paradigma, uma vez que passando pelas contribuições de T. Adorno e M. Horkheimer, assegurou uma perspectiva inovadora para pensar a relação da comunicação e a emancipação social. Rüdiger lembra que, antes de Habermas, Adorno e Horkheimer haviam se tornado pessimistas em relação aos rumos da comunicação de massa e da categoria comunicação em si mesma (seriam “barreira” para o entendimento dos humanos entre si e mistificação ideológica comprometida com a dominação social e da natureza). Habermas veio mudar essa perspectiva, expondo como a comunicação poderia servir para a “reconstrução” da vida social a partir de sua conhecida distinção entre razão comunicativa e razão instrumental.

Habermas construiu, pois, uma alentada teoria da ação comunicativa, no qual Rüdiger esmiuça atentamente, e veio também propor um roteiro para pensar as mídias de comunicação contemporâneas. No livro, destaca-se a distinção entre as formas generalizadas de comunicação, guiadas por redes de influência e engajamento valorativo, e os meios sistêmicos de comunicação, guiados por atividades normativas e pelo cálculo egocêntrico de utilidade; e nota um importante paradoxo habermasiano: o desenvolvimento das formas generalizadas de comunicação “cria as condições para a verificação de sucessivos progressos nos processos de reprodução material do mundo da vida, que culminam, porém, no surgimento de complexos funcionais de ação, regulados cada vez mais por meios sistêmicos de comunicação” (Idem, p.110). Na conclusão de Habermas, imprescindível para a visão de Rüdiger, as tecnologias de comunicação expressariam apenas as infraestruturas que guardam um antagonismo somente resolvido na práxis da comunicação.

No capitulo 6, a última escola de pensamento abordada é a do paradigma midiológico. Rüdiger dedica-se, inicialmente, a uma apresentação de “Wiener, McLuhan e herdeiros”. Nos autores deste paradigma, a contribuição estaria na aprofundada análise da cibernética com vista a destacar a crise da “conversação social” em que se assentava as sociedades tradicionais. McLuhan provocaria uma revisão e reversão do olhar para a história, atentando para o papel das tecnologias na “extensão do homem” e na construção de um universo social.

Na apresentação das ideias de H. Innis (e M. McLuhan), fundadores da “Escola de Toronto”, Rüdiger movimenta questionamentos – e isto é fundamental para compreender o posicionamento deste autor – sobre o caráter técnico que foi destacado ao simbólico, descartando uma “teoria social”; ou, ainda, imprimindo valor excessivo à materialidade na definição da comunicação. Estes fundadores teriam sido tão influentes e problemáticos ao ponto em que, nos autores pós-McLuhan (representados por D. Kherckhove, V. Flusser, F. Kittler, S. Lash, J. Baudrillard, P. Virilio), “a comunicação não tem a ver com o processo social” (idem, p.130), pois a situação se dissolveria na “reprodução tecnológica”.

Em Rüdiger, uma observação crítica permeia toda a apresentação do paradigma midiológico e, de fato, levanta um debate fundamental, no qual, derradeiramente, a área cindiria entre a “teoria da comunicação” e a “teoria da mídia”. Ele escreve: “(…) vimos que a comunicação representa, em essência, um processo social primário, por mais que, paralelamente, também seja passível de mediação por alguma tecnologia maquinística” (idem, p.115). A objeção fica explícita, tão logo que as tecnologias da comunicação deveriam ser sempre subordinadas “no âmbito da estrutura e do sentido da conversação social, do diálogo cotidiano e ordinário da sociedade” (Idem, ibidem).

Na visão das teorias da comunicação de Rüdiger – agora estamos na Conclusão –, os autores do paradigma midiológico, com exceção de L. Sfez ou D. Wolton, lembra o autor, apesar de contribuirem estudando minusiosamente a “natureza da técnica”, enfatizariam um “imperalismo tecnológico” que colocaria em xeque a ideia de que é preciso uma teoria da sociedade para se ter uma teoria da comunicação.

De tal modo, em Rüdiger, teríamos uma posição de crítica e descrédito em relação às teorias da mídia, uma vez que, desde a clássica obra de Umberto Eco, “Apocalípticos e Integrados”, evidenciaria-se, tanto dentro dos “direitistas” como dos “esquerdistas”, um determinismo tecnológico aplicado à cultura e à história, e uma substituição da teoria da comunicação pela teoria da mídia. Ocorre que, na preocupação de preservar o paradigma materialista e garantir uma não visão não “adesista”, na qual evita uma “reificação da tecnologia”, Rüdiger faz uma marginalização redutora dos ricos e variados autores “ensacolados” no último capítulo.

O problema aqui é sintomático e, veja-se, coeso com as filiações teóricas, de longa data, do autor. Ora, para Rüdiger, “a comunicação é um processo social que, conforme viu boa parte da teoria social moderna, envolve interpretação, pressupõe a mediação de símbolos, reproduz um senso comum e contém um bom-senso, refratário à tecnificação” (Idem, p.135). O “mutismo da comunicação” (Idem, p.141), dado ao emprego de “linguagens mercantis”, abarcaria cada vez menos social, o sentido estético, político e moral. E, portanto, a falta de ênfase da racionalidade comunicativa na constituição e distribuição do poder na esfera pública apenas confundiria a localização do poder em outros lugares (na “técnica”, na “comunicação” etc., em lugar da exploração econômica, do fetichismo da mercadoria, etc.).

No livro, os adeptos ao paradigma midiológico parecem estar entorpecidos pelos “espólios mcluhianos”, ficando poucos afeitos a uma filosofia da história e a procedimentos sócio-políticos. Esta crítica não difere da realizada, outrora, por Cohn (1980).

A decisiva e severa separação entre a “teoria da mídia” e a “teoria social e cultural” empacam um evidente e importante ambiente de renovação na área da Comunicação, fato que, devo notar, fez-me decisivamente entrar em diálogo com a área. A fim de explicitar isso, damos por encerrada a apresentação da obra de Rüdiger, salientando três pontos fundamentais nos quais podemos entrar em debate com este autor.

Entre teoria da comunicação e teoria da mídia?

Primeiro ponto: natureza humana

Um primeiro ponto a ser destacado é quanto a visão em relação a dita natureza humana. Gesticulando dentro de uma visão do marxismo, Rüdiger permanece, de uma forma ou de outra, dentro de uma teoria do sujeito que enaltece o “ser social” hegeliano-marxista; afastando-se, por conseguinte, de qualquer visão sobre a alteridade que existe na individuação humana, técnica e natural. Há um caminho de aproveitamento e compreensão da problemática do paradigma midiológico a partir de bases antropotécnicas. Com o entendimento da relação íntima entre o ser técnico e o ser natural, teria-se naturalmente uma ampliação da noção de ser social, salientando assim o universo humano a partir da hibridez, da mediação sócio-técnica – em vez de pensar que, no (não)diálogo com a natureza e a técnica estão, em suas extremidades, sempre as mesmas pessoas, “o mundo da vida em sociedade” (RÜDIGER, p.16).

As “cartas aos amigos”, que nos lembra Sloterdijk, seriam outras aqui. Pioneramente, as aberturas neste sentido não estão somente em McLuhan, mas também foram dadas, antes, já no chamado “primeiro” M. Heidegger e em G. Simondon (GENARO, 2010). As sugestões destes filósofos são pioneira, mas não exclusiva, pois são distribuídas e estudadas em autores como Merleau-Ponty, Foucault, Deleuze, Bernard Stiegler, Bruno Latour, e em quase todos os autores do paradigma midiológico contemporâneo; e, nota-se, que mesmo no marxismo, autores como Maurizio Mazzarato, Antonio Negri e Michael Hardt gesticulam hoje a respeito.

Segundo ponto: determinismo técnico

O segundo ponto, como consequência do acima, é a superação da ideia de determinismo técnico que o autor usa como forte argumento de crítica. A natureza não é algo exterior à constituição do sujeito, não é algo que está dado objetivamente e em assimetria com a sociedade. Do mesmo modo, as tecnologias não são meramente “meios”, externos. E isso poderia ficar bem esclarecidos, uma vez que só assim o relacionamento homem-técnica entraria também, essencial e analiticamente, como evidenciadoras do problema da comunicação. Falar da técnica exclusivamente no âmbito do ‘instrumento’ ou do ‘meio’ não leva em conta a sua dimensão constitutiva, que não está na relação homem-natureza-técnica. O argumento de determinismo tecnológico é sintomático: “A permanência do determinismo tecnológico no interior do legado cartesiano reside, assim, no fato de que só considera as transformações na percepção e na memória, mantendo a separação entre sujeito e tecnologia. Como se o fluxo de consciência e a capacidade de refletir ou de organizar argumentos complexos não fossem transformados pelo surgimento de novos objetos, como a linguagem, a escrita, o computador, etc.” (VAZ, 2002, p.9). Novas tecnologias estão mudando paradigmaticamente vários termos do humano: corpo, guerra, visão, cognição, espaço, tempo e, enfim, a própria comunicação social. Não será com o emprego do tradicional argumento de determinismo técnico, com a técnica aparecendo como algo “de fora”, “intervindo” na cultura e história, que poderemos compreender a complexidade a respeito.

Mesmo em autores como McLuhan (que em vários quesitos seria problemático para ser exemplificado aqui), muito mais do que “redução” e “confusão” do qual advoga Rüdiger, teve importantes intuições e contruções. Como bem escreve Ferreira (2004, p.39, grifo nosso), no limite, levar a sério a “suplementaridade técnica” (Derrida) do humano “não significa dizer, como Mcluhan, ou o mcluhanismo em Baudrillard ou Virilio, por exemplo, que nosso meio técnico constitui sempre a mensagem fundamental sobre a qual jogaríamos com algumas ‘possiblidades fechadas de dicção’. Isso quer dizer que nos abrimos para o mundo, e o constituímos, a partir de possibilidades técnicas sempre conflitantes, ambíguas (…)”. E o modo de pensar aqui não se confunde nem com o fim da “crítica social”, nem com perspectivas francamente ideológicas de “pós-humanismo” na computação e engenharia avançadas, do qual, por sinal, Rüdiger fez trabalhos importantes.

Pensar a ambiguidade da técnica, em última instância, não se faz dissociando conhecimento (episteme) e prática (teckne). O que fica evidente – a partir de autores como M. Foucault, P. Sloterdijk, J. Derrida, A. Leroi-Gourhan –, é que, em sentido amplo, ‘a fala é uma técnica’, ‘a escrita é uma técnica’… e, a bem dizer, ‘a técnica é algo inseparável daquilo que dizemos ser o humano’. Como notou Neves (2006), não foi à toa que apareceram, no século XX, teses ora linguísticas, ora epifilogéneticas ou mesmo anatomísticas a respeito do “humano”.

Terceiro ponto: comunicar

Cabe salientar ainda um terceiro ponto que estaria, propriamente, na noção de uma concepção do comunicar e, imediatamente, de indicações para uma relação não-cindida entre a teoria da comunicação e a teoria da mídia.

A partir de uma revisão que acompanha os limites das concepções tradicionais sobre a teoria do sujeito, a natureza humana e o determinismo técnico, é possível construir novas propostas teóricas e políticas a respeito. Felizmente, trabalhos de autores brasileiros (FELLINTO, 2011; MARCONDES, 2011) podem nos ajudar a mostrar, brevemente, os caminhos para o que vem a ser o comunicar no mundo contemporâneo. Tanto Fellinto como Marcondes concordam em um ponto central: sobre a insuficiência da ‘metafísica da comunicação’. “A concepção comunicacional clássica, escreve Fellinto (2011, p.7), engendrou uma espécie de ‘metafísica da comunicação’ que nos tornou, talvez, confiantes demais em sua eficácia e transparência. Uma metafísica fundada em pressupostos humanistas, na qual o sujeito humano ocupa posição absolutamente central, como senhor e mestre da tecnologia e do significado”. MARCONDES (2011, p.6-7), por sua vez, sintetiza e conclui: “tentar definir a comunicação é o mesmo que ceder à pressão de uma ontologia. O problema histórico das ontologias foi o de se deixarem seduzir pela tentação metafísica (…). Nós só conseguimos nos livrar disso a partir do momento em que virmos a comunicação em seu movimento, em sua mudança, em sua contínua transformação”.

Os autores acima conseguem rumam, portanto, para uma renovação importante. Aqui, ainda, é oportuno notar o ponto em que a opção pela hidridez homem-técnica-natureza anuncia mudança na visão de dissociação entre teoria comunicação e teoria da mídia. Podemos continuar com os dois autores. Em Fellinto (2011, p.7), “falar em um apriori medial significa dizer que as tecnologias de comunicação e informação constituem elemento central na determinação das realidades humanas e dos processos de cognição”. “Nosso conceito de comunicação, escreve agora Marcondes (2011, p.6), não privilegia os sujeitos. Em princípio, não há sujeitos. Há um todo emaranhado de linhas e de ligações – sociais, históricas, políticas, culturais, econômicas, religiosas, subjetivas – e as pessoas são constituídas e constituem esse complexo. Para alguns, a conectividade eletrônica realiza essa ligação social, agora de nova forma. Mas aqui nós nos deparamos, mais uma vez, com fenômenos similares mas estruturalmente distintos”[1].

A atitude de revisão do antropocentrismo biológico não tem nada de “contra o homem” ou de esquecimento da realidade da “violência” impetrada pelo capitalismo. Como pensa M. Sodré (2007, p.20-1), se vivemos um bios midiático hoje, isto vem deliberar, essencialmente, uma nova “força metafísica que possibilita a expansão da vida”: isto não retira a disposição subsequente em problematizar politicamente as ligações sócio-técnicas desse novo bios. Sodré enfatiza a mudança que ocorre em captar isso, “com o intuito, de ver além da pura dimensão de controle ou dominação, nós introduzimos o conceito do bios midiático, que é a configuração comunicativa da virtualização generalizada da existência, a partir dos bios estruturantes da pólis (…). Esse novo bios é a sociedade midiatizada enquanto esfera existencial capaz de afetar as percepções e as representações correntes da vida social, inclusive de neutralizar as tensões do vínculo comunitário”.

Os pontos destacados parecem ser bastante pertinentes e de suma importância para os debates contemporâneos. As “teorias da comunicação” de Rüdiger refletem, obviamente, uma maneira de pensar, salientando suas preocupações políticas que estão por trás. A clareza e a coragem de disposição das ideias são notória. Em certo momento, o autor conjectura exatamente de debate mais produtivo sobre as questões apontadas por nós, a partir dos trabalhos do português Adriano D. Rodrigues. Contudo, apesar de destacar como “sedutora” e “aberta à discussão”, logo finaliza com resoluções talvez peremptoriamente: “[…] saber se, procurando superar o determinismo tecnológico em relação às modificações ocorridas no processo de interação, seu formulador não terminou sucumbindo às ilusões de um discurso de natureza ontológico (historial) sobre a técnica e a cultura. Poderíamos, por outro lado, pensar também se, conforme outros sugerem, a tecnificação da interação social a que assistimos, na verdade, não passa de um modo, problemático é certo, de instituição (imaginária) de regime simbólico que preside a toda comunicação” (Idem, p.130).

Referências:

COHN, Gabriel, 1980, “O meio é a mensagem: análise de McLuhan” (p.363-371). In: Cohn, G. (org.), Comunicação e Indústria Cultural, Nacional/Edusp, São Paulo.

FELLINTO, Erik, 2011, “Da teoria da comunicação às teorias da mídia: ou, temporando a epistemologia com uma dose de cibercultura”. In: XX Encontro da Compós, UFRGS, Porto Alegre, Julho-2011.

FERREIRA, Jonatas, 2004, “A condição pós-humana: ou ‘como pular sobre nossa própria sombra’”. In: Revista de Ciências Sociais, n°21, out-2004.

GENARO, Ednei de, 2010, “Convergências e divergência dos discursos de Heidegger e Simondon sobre a técnica moderna”. In: Revista Tecnologia e Sociedade, n°11, 2°S.-2010.

MARCONDES FILHO, Ciro, 2011, “De repente, o prédio falou comigo. Anotações sobre experiências metapóricas em Teoria da Comunicação”. In: XX Encontro da Compós, UFRGS, Porto Alegre, Julho-2011.

NEVES, José Pinheiro, 2006, O apelo do objeto técnico. Campo das Letras, Porto.

RÜDIGER, Francisco, 2011, As teorias da comunicação. Penso, Porto Alegre, 152p.

SODRÉ, Muniz, “Sobre a episteme comunicacional”. In: Revista Matrizes, n°1, Outubro, 2007

SLOTERDIJK, Peter. Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo. Estação Liberdade: São Paulo, 2000.

VAZ, Paulo, 2002, “História das tecnologias cognitivas”. In: XI Encontro da Compós. Grupo de Trabalho “Comunicação e Cibercultura”, UFRJ, Julho-2002.

[1] Em Marcondes (Idem, p.4), a comunicação torna-se “um conceito negativo. Ela se realiza pela quebra, pela negação do padrão, pelo fato de provocar uma ruptura, uma dissonância naquilo que existia. Ela corrói a positividade do estabelecido e do existente e introduz um elemento perturbador, instigador, incômodo, que nós aceitamos ou não, o incorporamos ou não, dependendo de nossa capacidade ou interesse na abertura de nós mesmos ao Outro”.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. jonas
    set 01, 2015 @ 11:10:02

    Opa, me ajudou bastante em um trabalho. Valeu!

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