SLOTERDIJK – REDES SÓCIO-TÉCNICAS – “ESFERAS”

SLOTERDIJKREDES SÓCIO-TÉCNICAS – “ESFERAS”

O filósofo Sloterdijk resgatou as reflexões heideggeriana por uma via antropotécnica, convocando-nos, em seus livros, a pensar o quanto a nossa era vive uma crise na metafísica tradicional, uma vez que ela se fundamentou na lógica de um sujeito que exerce sempre o poder de “senhor” supremo sobre o mundo. A metafísica clássica compreendeu o homem como um “ser epicêntrico, pensado e conservado em uma monoesfera e excentricidade perante ao mundo (SLOTERDIJK, 2008). Para ele, o pensamento das esferas – ou, quer se diga, das redes sócio-técnicas, não dissociam a constituição do humano a partir de sua ecologia, abrindo assim para as questões da hibridez homem-técnica, do devir e, notadamente, da cooperação e descentralização das obras humanas.

Sua atitude filosófica parece vir a compreender mais amplamente o sentido de nosso mundo contemporâneo, no qual fica evidente uma mudança histórica: a crise da ideia de centralidade do sujeito do humanismo moderno, em que a expressão estética esteve amarada a uma noção de interioridade excêntrica ao mundo.

As tecnologias de contribuição, de inteligências coletivas e de aceleração da inteligência, que Sloterdijk chama de “homeotechniques” (SLOTERDIJK, 2000), abriram para a construção de uma nova estética e política. Elas vem se sobrepondo, hoje, às “allotechniques”, nas quais primaram por artefatos e máquinas muito mais próprios à “dominação”, e ao mundo “epicêntrico”, do que à cooperação.

« Alors que dans le monde allotechnique, des sujets impérieux pouvaient encore commander à des matières premières, il est de plus en plus impossible, dans le monde homéotechnique, de voir des seigneurs « premiers » exercer leur pouvoir sur des matériaux  extrêmement fins. Les contextes fortement condensés du monde connecté ne voient plus non plus d’un bon oeil les inputs autoritaires; seul peut se déployer ici ce qui transforme d’innombrables autres connectés en cobénéficiaires des innovations. Si ces potentiels civilisateurs se déployaient, l’ère homéotechnique se distinguerait par le fait qu’en elle les champs d’action de l’errance se rétréciraient, alors que ceux de la satisfaction et du rattachement positif croîtraient » (idem, p.95).

Sloterdjik vem demarcar o jogo estético-político que o atual devir-humano mobiliza, com seus efeitos bons e ruins. Emerge, contudo, um conflito significativo: a herança bivalente “senhor-escravo”, e do que ele chama de “paranóia estratégico-polemizadora”, continuará agindo durante um longo período, e, junto a essa herança, a cultura da “suspeita” e do “ressentimento”, agindo em escala regional, que impede o florescer de pensares, do múltiplo.

« Les constructions d’identité relevant de l’égoïsme ancien et nouveau contribuent elles aussi à bloquer les potentiels généreux qui pourraient être tirés de l’idée de la plurivalence, des multitudes et de l’homéotechnique (…) Dans le monde connecté, condensé par l’inter-intelligence, les seigneurs et les violeurs n’ont pratiquement plus de chances de succès à long terme ; alors que les coopérateurs, ceux qui encourage nt, ceux qui e n richissent, trouvent des connexions plus nombreuses et plus adéquates. Après l’abolition de l’esclavage, au XIxe siècle, se dessine pour les XXIe ou XXIIe siècles l’abolition des reliques seigneuriales – mais personne ne croira que cela puisse se produire sans conflits intenses . Il n’est pas exclu que l’élément féodal réactionnaire s’allie encore une fois aux ressentiments de la masse pour produire une nouvelle vengeance du politique. Mais l’avènement de ce type de réactions révolutionnaires est aussi prévisible que leur échec » (idem, p.96).

 [SLOTERDIJK, Peter, La domestication d’être. Tradução de Olivier Mannoni. Paris : Mille et Une Nuits, 2000 ; SLOTERDIJK, Peter, Esferas II: Globos. Macrosferología. Tradução de Isidoro Reguera. Madrid: Siruela, 2008]

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