REFLEXÕES LATOURNIANAS

Reflexões latournianas, em três fragmentos:

 

 

 

 

 

 

 

 

(Imagem: Mario Ramiro)

Fragmento 1:

– Abdicação da ideia de ‘naturalizar’ tudo;

– Matter of concern;

– Noção de domos (Sloterdijk).

“O modernismo tradicional era a ideia que iríamos eventualmente naturalizar tudo: o todo de nossa existência. Nunca imaginamos de fato que iríamos completar esse processo, pois desde a invenção do modernismo – se considerarmos Descartes como o ponto inicial dessa invenção – queríamos distinguir as coisas. Sabíamos que não iríamos naturalizar, evidentemente, digamos, a res cogitans. A ideia era que o avanço do tempo iria levar-nos todos à naturalização, pois o tempo representa aqui também um acordo político, uma vez que há apenas uma natureza e todos nós estamos de acordo sobre isso. Esse é o modernismo à l’ancienne. Na “remodernização”, a ideia é herdar as ciências que não dependem dos matters of fact (objetos factícios), como faziam Descartes, Locke e Kant, mas sim essas que estão sempre expandindo os matters of concern (as coisas que nos preocupam). Como diz Ulrich Beck, essa é uma modernidade reflexiva. Ao colocar-se em prática essa nova história da ciência –– não há um termo para definir isso hoje em dia, Sloterdijk propõe domos – refazemos um passado diferente e portanto um futuro diferente. E isso não será a naturalização geral, nem o cérebro, nem os genes, nem as florestas, nem o clima, nem os carros obedecem às regras da naturalização. Acumulando-os, não vamos conseguir fazer um mundo naturalizado. No entanto, o ideal da razão, esse tem de ser preservado, porque ele vem de toda forma, da tradição euro-americana, de sua história particular”.

(in: Entrevista a revista Cult, março, 2011).

 

Fragmento 2:

– Questionamento da representação da “coisa” (res extensa);

– “Dimensão ética”, a preocupação se volta com a dimensão os objetos não-humanos;

–  Uma “coisa” não revela nada em si mesma; a importância do traço da história;

– Revisão do materialismo; Crítica ao idealismo no pensamento ocidental. 

“My argument is that res extensa —taken for the “material world” and considered until recently as the stuff out of which “nature” is made— is an unfortunate confusion of the properties of geometrical forms on white paper with the ways material beings stand. Let us be careful here: I am not saying that human intentional embodied mind and spirit never really look at the material world according to the laws of geometry. (The critique has been made often enough; the whole of phenomenology has explored this avenue already.) I am saying that even the material physical objects making up the world do not stand in the world according to what would be expected of them if they were thrown into res extensa. In other words, the “scientific world view” is unfair to human intentionality, spiritual values, and ethical dimensions does not bother me too much: I am much more concerned if it is even more unfair to the peculiar ways electrons, rocks, amoebas, lice, rats, plants, buildings, locomotives, computers, mobiles, and pills have a hold and a standing in this world. Nothing, absolutely nothing, ever resided in res extensa—not even a worm, a tick, or a speck of dust—but masses of beings have been exquisitely drawn on white paper, engraved on copper, photographed on silver salt-coated plates, modeled on the computer, etc.—including worms, ticks, and grains of dust. Res extensa pertains to art history, to the history of the publishing press, to the history of computers, to the history of perspective, to the history of projective geometry, and to a host of other disciplines, but it is definitely not part of natural history. Among the most puzzling features of the Moderns is how extremely difficult it is for them to be materialist: What they call matter remains even today a highly idealist projection”.

(in: “Spheres and Networks: Two Ways to Reinterpret Globalization”, a lecture at Harvard Graduate School of Design).http://www.gsd.harvard.edu/events/pdf/Bruno_Latour.pdf.

 

Trecho 3 :

– Técnica não é somente questão de objeto/função (meio, eficácia, transporte);

– Imanência em rede e composição de mundo: ou não há objeto técnico em si mesmo;

– Técnica enquanto adjetivo: como alteridade, como transdução;

– Sentido de ‘pli sur pli’ (dobra sobre dobra) da técnica.  

« Comment pourrait-on imposer un transport sans transformation dans l’acte technique quand tout indique le contraire ? Ô c’est très simple : il suffit d’y ajouter l’utilitél’efficacité ou, d’un mot plus savant, l’ustensilité. L’efficacité est à la technique comme l’objectivité à la référence : le moyen d’avoir le beurre et l’argent du beurre, le résultat sans le moyen, je veux dire sans le chemin de médiations appropriées (il en es d’ailleurs de même avec la Rentabilité, la troisième Grâce de cette archaïque mythologie). Tous les tourbillons et les trublions des transformations techniques peuvent être oubliés, si vous dites qu’on ne fait que transporter par l’objet technique la fonction qu’il doitfidèlement remplir. (…) « Ni le mur, ni la table, ni le vase —ni la voiture, ni le train, ni l’ordinateur, ni l’animal domestiqué— ne sont « techniques » une fois laissés à eux-mêmes. Ce qu’il y a d’objet en eux dépend de la présence des composés dont chacun a été arraché par des métamorphoses à la persistance des êtres choisis comme point de départ —inertes ou vivants— dont chacun prête certaine de ses vertus, bien sûr, mais sans qu’on puisse le plus souvent durablement profiter de leur initiative et de leur autonomie. (…)« ‘Technique’ n’est pas un substantif mais un adjectif : « ça c’est technique » ; un adverbe : « c’est techniquement faisable » ; soit enfin mais plus rarement un verbe : « techniciser ». Autrement dit, « technique » ne désigne pas un objet mais une différence, une exploration toute nouvelle de l’être-en-tant-qu’autre, une nouvelle déclinaison de l’altérité, une abaliété propre. Simondon lui aussi se moquait du substantialisme qui, là encore, là comme toujours, manquait l’être technique.  (…) « La technique, c’est toujours « pli sur pli », implication, complication, explication. Il y aura pliage technique à chaque fois que l’on pourra mettre en évidence cette transcendance de deuxième niveau qui vient interrompre, courber, détourner, détourer les autres modes d’existence en introduisant ainsi, par une astuce, un différentiel de matériau, de résistance, quel que soit par ailleurs le type de matériau.

(do artigo, « Prendre le pli des techniques », publicado na revista Réseaux).

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