FILOSOFIA DO AGENCIAMENTO MAQUÍNICO EM “MIL PLATÔS”, VOL.II

FILOSOFIA DO AGENCIAMENTO MAQUÍNICO EM “MIL PLATÔS”, VOL.II

Tecnologia em si mesma? Não!

“Em seu aspecto material ou maquínico, um agenciamento não nos parece remeter a uma produção de bens, mas a um estado preciso de mistura de corpos em uma sociedade, compreendendo todas as atrações e repulsões, as simpatias e as antipatias, as alterações, as alianças, as penetrações e expansões que afetam os corpos de todos os tipos, uns em relação aos outros. Um regime alimentar, um regime sexual regulam, antes de tudo, misturas de corpos obrigatórias, necessárias ou permitidas. Até mesmo a tecnologia erra ao considerar as ferramentas nelas mesmas: estas só existem em relação às misturas que tornam possíveis ou que as tornam possíveis. O estribo engendra uma nova simbiose homem-cavalo, que engendra, ao mesmo tempo, novas armas e novos instrumentos. As ferramentas não são separáveis das simbioses ou amálgamas que definem um agenciamento maquínico Natureza-Sociedade. Pressupõem uma máquina social que as selecione e as tome em seu phylum: uma sociedade se define por seus amálgamas e não por suas ferramentas” (p.31).

O que deve estar incluso ao pensar os agenciamentos maquínico?

Há, portanto, como que um duplo movimento: um, através do qual as máquinas abstratas trabalham os estratos, e não cessam de fazer aí fugir algo: o outro, através do qual elas são efetivamente estratificadas, capturadas pelos estratos. Por um lado, jamais os estratos se organizariam se não captassem matérias ou funções de diagrama, que eles formalizam do duplo ponto de vista da expressão e do conteúdo; de forma que cada regime de signos, mesmo a significância, mesmo a subjetivação, são ainda efeitos diagramáticos (mas relativizados ou negativizados). Por outro lado, jamais as máquinas abstratas estariam presentes, incluindo-se aí já nos estratos, se não tivessem o poder ou a potencialidade de extrair e de acelerar signos-partículas desestratificados (passagem ao absoluto). A consistência não é totalizante, nem estruturante, mas desterritorializante (um estrato biológico, por exemplo, não evolui por dados estatísticos, mas por picos de desterritorialização). A segurança, a tranqüilidade, o equilíbrio homeostático dos estratos não são, portanto, jamais completamente garantidos: basta prolongar as linhas de fuga que trabalham os estratos, preencher os pontilhados, conjugar os processos de desterritorialização, para reencontrar um plano de consistência que se insere nos mais diferentes sistemas de estratificação, e que salta de um ao outro. Vimos, nesse sentido, como a significância e a interpretação, a consciência e a paixão poderiam se prolongar, mas ao mesmo tempo se abrir para uma experiência propriamente diagramática. E todos esses estados ou esses modos da máquina abstrata coexistem precisamente naquilo que denominamos agenciamento maquínico. (p.103).

 

* Deleuze & Guattari, Mil Platôs, vol.II, São Paulo: ed. 34, 2007. 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Gilberto Gomes
    jun 01, 2017 @ 21:24:38

    Procure em um dicionário francês o que significa “agencement” e você verá como é imprópria sua tradução como “agenciamento”!

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