“PERGUNTAS PARA A ESTÉTICA NO TÉCNICO”.

“PERGUNTAS PARA A ESTÉTICA NO TÉCNICO.


Portais como o Rhizome (http://www.rhizome.org/) podem nos dar a noção da imensa transformação que vem passando o mundo das artes por meio das tecnologias digitais. São muitas as experimentações e formas de se expressar em obras, artes. Rhizome é um portal para artistas interessados em trabalhos com as ferramentas digitais, propondo-se ser um lugar de debate e museu de arte digital. As possibilidades com as artes digitais são incomensuráveis e estão se ampliando: montagens, simulações, grafismo, animações. Quem consulta a enciclopédia virtual Wikipedia encontra uma infinidade nomenclaturas para o campo das “artes digitais”. Isso nos faz pensar de que forma, ao contrário das preocupações estéticas comuns no século XX, a “racionalidade tecnológica” não veio pura e simplesmente trazer um mundo pobre de significações artísticas e homogeneidades estéticas. Houve, é certo, uma complexização muitas vezes problemática: a fragmentação e rompimento com as estéticas do passado; a crise comunicacional do mundo artístico com o público (como notou Ortega y Gasset); a multiplicação de valores mercadológicos; a perda da “aura” pela reprodutividade técnica (Benjamin)… Tudo isso, no entanto, não significou o proclamado “fim da arte”; pelo contrário, a arte, seja ela consumida pela indústria cultural ou não, tornou-se um fermento de agitações do mundo contemporâneo, e está mais viva do que nunca. Interessante notar que quando surgem novas tecnologias, a demarcação estética delas é sempre difícil, e seu julgamento bastante dividido entre os favoráveis e os contrários, avessos. Basta lembrar o que ocorreu com a fotografia. Quando surgiu a fotografia não foi consenso que aquilo determinaria – muito mais do que material científico ou antropológico –, uma revolução nas artes; ou, ainda, exemplificando com algo atual: as interfaces eletrônicas poucos notaram que aquilo, em pouco tempo, entraria no panorama de experiências estéticas com artistas e obras “sérias”. Como havia notado o sociólogo Karl Mannheim, as artes não são desprendidas das condições culturais de nosso tempo e espaço; o objeto estético tem sempre um contexto histórico (e isto mesmo que o artista e sua obra expressem um valor ‘acima de sua época’). Hoje, este contexto histórico nunca foi tanto movimentado, a ponto de ser bastante problemático.

Na fala de Jorge L. Rosa, que me despertou para o post, ele nos faz avançar em relação à simbiose arte/tecnologia:

“Perguntas para a estética no técnico” (in: Revista Nada)

(Jorge Leandro Rosa, Doutor em Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa)

1. O que é a «inovação» nas artes?

Participar na esfera da inovação tende, hoje, a ter um sentido de «perpétua inovação», o que dilui a especificidade do gesto. Essa «perpétua inovação» faz parte das dinâmicas tecnológicas do capitalismo avançado. É o seu impossível programa político que se desfaz ante os nossos olhos. Se a inovação implicava a destruição daquilo a que ela se opunha, na perpétua inovação não há um lugar claro para o gesto de destruição, apenas para o devir obsoleto. O que é a destruição estética, hoje, senão a paródia da revolução, aqui encenada pelas artes tecnológicas?

2. O que citamos nas artes?

A produção, em arte, era solidária de uma estrutura complexa entre memória e esquecimento. Esse era o quadro que a História da Arte organizava. Os suportes artísticos articulam-se, hoje, com um arquivo em rede que torna a evacuação impossível. Significa isso que a própria dinâmica dos modernismos se encontra impossibilitada? Toda a citação convoca aqui o sublime, crise provocada pelo excesso de informação. Ridículo da originalidade. Toda a citação dá, hoje, voz ao doido em nós que reescreve Guerra e Paz.

3. Qual é o papel das técnicas na criatividade artística?

Sabendo que a técnica nunca foi exógena à criatividade artística, qual a razão deste pleonasmo «artes tecnológicas»? Será porque se trata aqui de uma intervenção tecno-lógica, dotada ela própria de um programa (artístico)? Introduzem estas a heterogeneidade necessária a toda a criação? Será porque a tecnologia contemporânea veio destruir os domínios que delimitavam o artístico, o racional, o imaginário? As técnicas transformam-se, paulatinamente, em dispositivos narratológicos, em critérios da construção da personagem, em modelos de encenação. Em breve, viveremos entre estruturas de ficção, que não são mais do que a arquitectura que vem.

4. O nomadismo técnico determina o nomadismo artístico?

Em que medida a transformação das relações epistemológicas e sociais entre ciência e técnica determina, hoje, a transformação das relações estéticas entre convenção e prática artística? Há aqui uma cena equívoca, já que todos queremos partir. Mas «partir» é, hoje, a parte incoativa da verbalização própria dos nossos ecrãs. O que significa que, perante o ecrã, vemos sempre mais do que imagens aí geradas: vemos promessas de uma vida paradisíaca no além-ecrã.

5. São as artes tecnológicas uma manifestação da «interiorização» da tecno-ciência?

Sabemos que a herança da tecno-ciência moderna é profundamente exterior à autoconsciência dos modernos, ou seja, que ela estava fundada numa relação de exterioridade (“manipulo a técnica, mas ela não me usa”) que preservava a castidade ontológica do humano. O progresso e a inovação eram figuras dessa relação instrumental. Pode a introdução da aisthesis (o sensível) na relação com as técnicas modernas actualizar e aprofundar a constituição sexual da experiência? Não será ela a manifestação de uma história de posse incestuosa, história edipiana onde aquele que penetra repete apenas a penetração originária? Pela aesthesis tecnológica entramos no lugar que deveríamos ter esquecido e ao qual era suposto não voltarmos.

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