SOBRE “HOMO DELETABILIS” (MARIA CRISTINA F. FERRAZ, UFF, COMUNICAÇÃO).

Sobre “Homo deletabilis” (Maria Cristina F. Ferraz, Uff, Comunicação).


A professora Maria F. Ferraz (Uff, Comunicação) confeccionou um livro com ideias (e leituras) bastante originais e convenientes sobre alguns “problemas psicológicos” no mundo contemporâneo. Vejamos uma forma breve de apresentação delas.

Para ela, há algo mais capital a se pensar quando ouvimos falar de ‘burnout’, stress, síndrome do pânico, ansiedades generalizadas etc. Ora, essas patologizações contemporâneas não são apenas causalidade da ‘agitada’ sociedade de cobranças, de produtividade ou outras coisas do tipo.

Na verdade, como explica a autora, em cada época histórica, há todo um tipo de relacionamento do corpo humano com a memória/esquecimento, que é inseparável das condições sócio-técnicas do mundo. Esta é a base importante para pensar mais profundamente nossos estados psicológicos.

Se as sociedades vivem hoje sob os imperativos da “dissolução de continuidades”, do “imediatismo da produção e circulação” e do medo “quanto ao caráter irreversível do tempo”, então nada melhor do que resgatar as obras de H. Bergson e F. Nietzsche para entender essa ânsia de “esquecer”, “deletar”, “apagar” em nossa cultura.

E é exatamente isso que a professora Maria Ferraz irá fazer. O esclarecimento de Bergson é fundamental, pois ele mostrou que a memória/esquecimento não é apenas uma coisa material, que pode ser explicada, por exemplo, entendendo os mecanismos reguladores do cérebro. Tal visão reduz os processos de memória/esquecimento a uma máquina que não tem nenhuma interferência do mundo “externo”.

Memória/esquecimento tem a ver também com os fatores éticos, tecnológicos, políticos e existenciais. Aqui então as explicações vão além dos procedimentos de muitas pesquisas neurocientíficas  – que vem avançando hoje a passos largos e seduzindo muita gente.

Nietzsche também não poderia deixar de ser importante. Seu trabalho genealógico das formações históricas veio mostrar o papel da memória/esquecimento em cada cultura. Lutando contra o discurso historicista de seu tempo, Nietzsche nos legou a ideia de que a tarefa muitas vezes não é ‘lembrar’, mas também ‘esquecer’. Quando se lembra, o ser humano é capaz de guardar ressentimento. Quando se esquece, o ser humano é capaz de proporcionar uma força plástica para a vida, de renovação e aprendizado.

Podemos dizer então que o lembrar e esquecer são ambos fundamentais; e, em cada época, se estabeleceu (ou não) uma política de “cuidado de si” para estes dois atos cognitivos basilares da vida. A cultura contemporânea, porém, vive em intensa “crise” em relação a isso. Ora, em mundo em que as mutações tecnológicas acontecem a todo instantes, mergulhamos em um contínuo “curto-circuito” de nossos hábitos, gestos e sociabilização.

Maria F. Ferraz nos provoca a pensar, assim, que se Nietzsche estivesse presente em nosso mundo, talvez ele nos alertasse não somente contra da cultura historicista, que querem ‘lembrar de tudo’; mas também daquela cultura que quer ‘esquecer de tudo’…

Porém, o problemático do ‘esquecer de tudo’ na cultura contemporânea é que ele não é mais um gesto para alimentar as nossas potências, ativar renovação da vida e novos aprendizados que da vida sob “ressentimentos”. Na cultura contemporânea, é uma operação de “deletamento” das ‘coisas ruins’; descarte do que não é possível ‘enfrentar e suportar’; obsolescência imediata de tudo o que nos cerca como peso.

Assim, para ‘esquecer de tudo’ nada seria melhor do que as possibilidades (cada vez maiores) de manipulação cognitivas dos fármacos e dispositivos eletrônicos contemporâneos!

Ferraz, lembrando o sociólogo português Hermínio Martins, nos fala então da atual e progressiva desespiritualização dos corpos que é reconfigurada e adequada aos mercados de consumo, de auto-ajuda, por exemplo. Filmes como “Spider” (Cronenberg) ou “Brilho eterno de mente sem memória” (Gondry) são então bons para a autora contextualizar em formas de artes contemporâneas o aparecimento da questão.

A autora faz um alerta, então: “A invenção de novas máquinas de memória, inumanas, que não são análogas à fisiologia humana, parece ter intensificado contemporaneamente certa sessão de empatia ante as mais diversas estimulações e solicitações externas”.

O problema das intrusões tecnológicas no corpo recai na questão da exigência de perfomatividade da vida cotidiana, em que se deixa pouco espaço para a resolução verdadeira dos problemas “interiores”. Não se busca verdadeiramente a compreensão da interioridade – exterioridade que se encontra ‘enferma’ nas sociabilidades contemporâneas. Ora, a exigência biopolítica hoje não é a maximização da eficiência e do ‘capital social’ no curso dos eventos humanos?

Para entender a perfomatividade dos dispositivos tecnológicos de intrusões no cérebro humano, Ferraz recorre às teses de “modernização” dos sentidos e da visão contidas nos livros de Gumbrecht (Modernização dos Sentidos) e de J. Crary (Suspensions of Perceptions).

Estes livros trouxeram fomentos de debates importantes ao realizarem uma recuperação histórica do nascimento dos dipositivos de produção e reprodução de imagens do século XIX (fotografia, esteroscópio, cinema). Nesta época aconteceu as mudanças nos sistemas ópticos e modelos epistemólogicos da imagem vigentes ao longo do século XVII e XVIII.

Entenda-se: a partir da integração destes dispositivos nos hábitos das populações, aparece uma nova “imagem” do mundo que guia as cognições de memorização/temporalização do mundo. Nasce assim novas formas de interagir nas cidades, que condiz com a contínua maximização da performatividade do capitalismo. Para Gumbrecht, no século XIX teve início algo que hoje, nos ambientes ‘pós-modernos’, culminou em um mundo tomado por “des-referencialização”, “fragmentação” e “descentralização” do sujeito.

Os fomentos de Crary e Gumbrecht são importantes, uma vez que como explicou Bergson, a imagem pode ser vista como ontológica e provida de sentido: ‘Toda matéria e nosso próprio corpo se resumem a imagens. O universo é o conjunto de imagens e o mundo natural, um sistema de imagens solidárias e bem ligadas’.

Ferraz parece querer nos dizer que, no mundo contemporâneo, “deletar”, “esquecer” significa uma questão cognitiva que passa longe da ruminação, digestão (Nietzsche) que poderia ter duração (memória) saudável das “imagens do mundo” construído (Bergson). Ficamos então à merce da mecanização crescente da produção e lógica de consumo dos novos regimes perceptivos? Tudo termina então em um ‘esquecer robótico’, sem um verdadeiro cuidado de si, de vida autêntica? Cultiva-se então o homo deletabilis? Eis as questões interessantes que me aparecem na leitura do livro.

Dentro do conjunto de ensaios que formam o livro, nota-se por fim aquele que escreve sobre a literatura de Virginia Wolf. Nesta escritora inglesa aparece bem o questionando da “suspensão” do tempo e da memória no mundo da performatividade. A literatura de Wolf representou um enfrentando da crise da vida “interiorizada”, da construção do “eu” do início do século XX. A partir desta escritora, Ferraz pôde realizar um ensaio que contextualiza os sentidos negativos da “perda” da memória na cultura contemporânea.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. maelstromlife
    set 04, 2012 @ 19:29:09

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