INTERNET: TRANSFORMAÇÕES “FORTES” E “FRACAS” (RANCIERE / HUGON)

INTERNET: TRANSFORMAÇÕES “FORTES” E “FRACAS” (RANCIERE / HUGON).


Jacques Rancière, a transformação “fraca” da internet:

Rancière tem expressado recorrentemente acerca da associação contemporânea entre arte e política, e tem respondido sobre o futuro do livro e dos novos fenômenos sociais que estão surgindo na Internet. Contudo, neste autor, percebe-se um argumento no qual advoga uma transformação ‘fraca’ da internet. Rancière tenta dar um freio naqueles que veem ‘muita coisa acontecendo de novo’. O surgimento de uma arte colaborativa com as novas tecnologias? Para ele, isto seria um pouco forçoso, pois desde sempre este conceito poderia ser usado. Internet é tipo original de linguagem? Para ele, não. Não haveria ‘nada de novo no front’. Na questão da análise de novas configurações e arquitetura da política, do poder, Rancière também permanece “frio”.

Stéphane Hugon, a transformação “forte” da internet:

Hugon é sociólogo, professor da Sorbone, integrante do Centro de Estudos do Cotidiano (CeaQ), lugar no qual figura nomes conhecidos, como o catedrático Michel Maffesoli. Estudioso das redes sociais na internet, o professor Hugon fala com bastante propriedade a respeito das novas identidades, comportamentos e mobilidades sociais nos meio de comunicação digital. Com ele, diferentemente de J. Rancière, analisa-se que as relações na internet vem satisfazendo uma transformação “forte”: “As relações que se realizam na web constroem comunidades fortes”. As tecnologias locativas, por exemplo, teriam dado novo status ao diálogo, mais constantes ainda nas redes sociais. A questão que separa real e virtual estaria ultrapassada; e a solidificação das novas redes sociais sobressariam como um imaginário significativo.

Segue dois treços de entrevistas de ambos os autores:

RANCIÈRE:

CULT – O senhor critica muitas vezes a separação a priori entre atividade e passividade. Nesse contexto, como analisa as tecnologias colaborativas que estão surgindo na atividade artística?

Rancière – O que digo não é especialmente ligado à arte colaborativa. Em primeiro lugar, toda atividade comporta também uma posição de espectador. Agimos sempre, também, como espectadores do mundo.

Em segundo lugar, toda posição de espectador já é uma posição de intérprete, com um olhar que desvia o sentido do espetáculo. É minha tese global, que não está ligada só a uma arte interativa.

Todas as obras que se propõem como interativas, de certa maneira, definem as regras do jogo. Então, esse tipo de obra pode acabar sendo mais impositivo do que uma arte que está diante do espectador e com a qual ele pode fazer o que bem entender.

Podemos dizer, então, que as obras estão no museu, na galeria, na internet, e o espectador é convidado a colaborar. Mas isso é só mais uma forma de participação, e não necessariamente a mais interessante.

CULT – O senhor recupera o lado político da literatura, graças a seu poder de reconfigurar os modos de existência, e evoca a passagem de Aristóteles em que ele diz que o ser humano é político porque possui o logos, ou seja, é capaz de fazer discursos. Hoje, os meios de publicação tradicionais, jornais, editoras etc. estão ameaçados por formas como blogs e redes sociais. Que tipo de mudanças podemos esperar na vida política com essas novas formas?

Rancière – Isso depende de até que ponto a internet define uma escritura específica. Para mim, na verdade, a internet define essencialmente apenas um modo específico de circulação da informação, que não nega as formas anteriores da escrita. Dá para consultar, numa infinidade de sites, as obras clássicas da literatura e da filosofia, ao mesmo tempo em que existe a linguagem SMS.

Tudo circula, cada vez mais rápido e com mais facilidade: da linguagem minimalista dos SMS aos livros todos, digitalizados pelas grandes bibliotecas. Muitas vezes, recuperam-se livros que não podem mais ser encontrados no papel. Desconfio sempre desse discurso de que o Google vai matar o livro. Não há motivo, porque podemos ler livros no Google.

Para pensar essa questão da política e da literatura na era da internet, precisamos primeiro pensar nas relações entre tipos de mensagem. A internet é, para mim, um suporte que não vem associado a um tipo de mensagem particular. Portanto, não deve causar grandes mudanças.

É diferente do que aconteceu com a chegada do cinema, por exemplo. Podemos constatar que a literatura não tem hoje o papel que tinha no século 19. Apesar do número enorme de romances publicados, poucos são os que remodelam a imagem do indivíduo e da comunidade. Esse papel foi assumido pelo cinema. A literatura oferecia uma capacidade de alargar as formas de percepção do mundo e da comunidade, ela agia sobre a visão e o sentimento de praticamente qualquer um. Hoje, quem faz isso é o cinema, a televisão, a internet.

(…) O que está em funcionamento é a gestão da insegurança como um sentimento para agregar as pessoas em torno de um poder que gerencia a segurança.

Resisto muito às teorias paranoicas de “sociedade de controle” que dizem que “somos observados e controlados em todo canto”. No 11 de Setembro, vimos como as pessoas podem passar tranquilamente diante das câmeras de segurança e fazer seu atentado sem serem molestadas. Acredito muito mais na ideia de uma administração ideológica, no sentido tradicional, dos sentimentos, particularmente no que diz respeito à segurança.

Criamos um sentimento de que vivemos na insegurança e precisamos de gestores de segurança. Isso cria uma legitimação de decisões autoritárias que podem se estender a praticamente tudo. No fim, a segurança acaba significando qualquer coisa. A pobreza dos subúrbios, a saúde dos idosos, os “países terroristas” pelo mundo, os poluidores, qualquer coisa.

A segurança vira um sentimento de perigo onipresente, extrapolando a ideia da proteção das “pessoas de bem” contra os maus de qualquer tipo. Isso cria estruturas de gestão estatais e interestatais, que não são necessariamente da ordem do controle minucioso ou do terror, mas de um sentimento flutuante.

(Jacques Rancière. trechos da entrevista para a revista Cult, ed. 129, mar., 2010).


HUGON:

Vous êtes en permanence entre la sociologie et la technologie. Peut-on parler de différents types de communautés ou est-ce qu’elles se ressemblent toutes ?

Stéphane Hugon – Il y a une transversalité entre les différentes communautés. Chacune d’entre elles est un lieu où on va se rencontrer mais elles ne sont jamais exclusives. Elles sont toujours en relation entre elles. Chaque membre d ‘une communauté va avoir des moments de cristallisation avec cette tribu, des moments d’agrégation, des moments de rencontres, et puis des moments de relâchement total qui vont s’intervertir avec d’autres moments qui sont des moments d’adhésion avec d’autres communautés. Il y a cette idée de sincérités successives. La singularité des tribus d’aujourd’hui est leur capacité à être a la fois très solide et très molles. Je fais partie de plusieurs tribus et je vais vagabonder dans une même semaine, voire une même journée de l’une à l’autre, à des moments différents avec une certaine aisance dans le passage de l’une a l’autre.

On parle de communautés réelles et virtuelles. Y a t il une vraie différence ?

Stéphane HugonJe ne ferais pas différences. On ne considère par la relation sociale passant par le téléphone comme une sous-relation. Internet devient un usage de masse et on se rend compte que les relations qui se construisent par le web construisent des communautés fortes. Cela n‘est pas moins important que ce qui se passe dans la vie réelle. La réalité des communautés virtuelles ne doit pas être sous-estimée. A partir du moment où une certaine masse critique en termes d’expérience sociale est dépassée on ne peut plus parler de simple virtualité.

Peut-on parler de convergence entre le réel et le virtuel?

Stéphane Hugon – Le parallèle avec la convergence web-mobile est juste. Aujourd’hui une communauté ne se conçoit plus uniquement dans la vie réelle ou sur le web. Elle est partout, dans l’espace et dans le temps. Les technologies de gestion de communautés les plus avancées intègrent cette notion et utilisent la puissance combinée du mobile et du web pour gérer le lien communautaire de manière unique, quelque soit le média, en permettant de rester en contact partout, dans la ville.

Une communauté ce sont des gens qui se regroupent dans un endroit. Qu’est ce qui fait que les gens vont dans un endroit et s’y regroupent?

Stéphane Hugon – L’essentiel de ce qui fait une communauté c’est le partage d’un imaginaire commun. Ce n’est pas le contenu de ce qui va s’échanger réellement. Avant tout il y a un protocole d’approche qui passe par des choses non rationnelles, qui sont dans le partage implicite de valeurs de codes de signes faibles. La solidité des communautés vient par la production et l’entretien de ce nuage de signes, de ce bassin sémantique, qui donne la corporalité à ceux qui sont dans la communauté.

(Stéphane Hugon – Entrevista à Mis à Jour 03-11-2006 07:55)

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