TECNOLOGIAS – REFLEXÕES BERGOSIANAS

TECNOLOGIAS – REFLEXÕES BERGSONIANAS

Henri Bergson, filósofo francês do início do século XX, trouxe reflexões importantes para o entendimento das tecnologias e a condição humana. Posto aqui umas reflexões que acredito convenientes, a partir do doutorado de Márcio Barreto “O anacronismo do tempo: um debate atual entre Einstein e Bergson”. [Barreto, Márcio, O anacronismo do tempo: um debate atual entre Einstein e Bergson / Márcio Barreto. – – Campinas, SP : [s. n.], 2007].

Comentários / trechos:

Apesar de permanecer em um “especial” dualismo em relação à divisão alma e corpo, algo que, por exemplo, Nietzsche já havia superado, Bergson explorou com afinco os problemas da separação cartesiana a respeito. O saldo de suas reflexões é um passo adiante, em que nasce toda uma fenomenologia para pensar o caráter espaço-temporal e não-mecânico do espírito (memória):

“O dualismo alma-corpo de Bergson é especial, pois não é um dualismo entre um corpo no espaço físico e um espírito num espaço espiritual, mas entre um corpo no espaço físico e um espírito numa duração desse espaço. Em outras palavras,“o espírito não é algo que se sobrepõe ao corpo, algo que vem de fora dele como uma instância transcendente que o captura, mas uma dimensão imanente do próprio corpo, uma dimensão temporal: o espírito é a dimensão temporal do corpo e o corpo é a dimensão espacial do espírito. Estamos aqui na imanência de um processo corpoalma que existe na medida em que evolui e se transforma e não diante da relação entre um corpo e uma alma que existem independentemente de sua própria relação”. O cérebro é o órgão que prepara a ação do corpo; a inteligência é a faculdade da consciência que se assenta sobre ele. A alma, em Bergson, está associada ao cérebro naquilo que dele transborda, ou seja, à consciência, cujo presente coexiste com o passado.“A consciência de um ser vivo depende de seu cérebro, no sentido em que uma faca pontiaguda depende da sua ponta: o cérebro é a ponta aguçada por meio da qual a consciência penetra no tecido compacto dos acontecimentos, mas não é mais coextensivo à consciência do que a ponta à faca.” (BERGSON, 2001: 235). Grosso modo, a duração, o fio condutor da filosofia bergsoniana, está para o espírito(memória) que, por sua vez, está para a intuição; assim como o tempomatemático está para o corpo (cérebro) que, por sua vez, está para ainteligência. O recorte que a inteligência opera sobre o real, buscando invariâncias e repetições, pode levar ao automatismo que liberta o espírito da ação imediata e permite seu passeio desinteressado pela memória”.

Sobre, então, a tese da indissociação entre corpo (ou, como se diz, o “cerébro”, por ser o órgão central de comando) e mundo na produção da inteligência, da memória. [Interpretação a partir de Deleuze]:

“Inteligência e matéria têm, em Bergson, estreita relação: a consciência humana não se restringe à atividade cerebral, mas a inteligência é parte importante da atividade consciente e desenvolveu-se na matéria, na dança de moléculas, átomos e elétrons de que o cérebro é feito e cujas reações eletroquímicas processam o recebimento de estímulos vindos da parte periférica do corpo e o envio dos respectivos impulsos reativos. No outro sentido, Deleuze aponta que a própria matéria é um princípio da inteligência. ‘A matéria é justamente, no ser, aquilo que prepara e acompanha o espaço, a inteligência e a ciência. É graças a isso que Bergson faz coisa totalmente distinta de uma psicologia, uma vez que, mais do que ser a simples inteligência um princípio psicológico da matéria e do espaço, a própria matéria é um princípio ontológico da inteligência’”.

mundo, agora, tecnológico, vem modificar o espírito (memória) humano:

“Bergson faz uma analogia entre os efeitos de um salto técnico na máquina a vapor e o grau de liberdade que a consciência atingiu graças ao automatismo permitido pelo cérebro humano. ‘A máquina a vapor primitiva, tal como Newcomen concebeu, exigia a presença de uma pessoa exclusivamente encarregada de manobrar as torneiras, quer para introduzir o vapor no cilindro, quer para lançar nele água fria destinada à condensação. Conta-se que um rapaz encarregado deste trabalho, e farto por ter de fazer isto, teve a idéia de ligar as manivelas e as torneiras, com cordões, ao balancim da máquina. Assim, era a própria máquina que abria e fechava as suas torneiras; funcionava sozinha. Agora, um observador que comparasse a estrutura desta segunda máquina à da primeira, sem ter em conta os dois rapazes encarregados da vigilância, apenas encontraria entre ambas uma ligeira diferença de complexificação. É tudo o que podemos ver, com efeito, quando observamos apenas máquinas. Mas se olharmos para os dois rapazes, vemos que um está absorto na vigilância, e o outro está livre para se divertir à vontade, e que, desta perspectiva, a diferença entre as duas máquinas é radical: a primeira prende a atenção, a segunda dispensa-a e liberta-a. É uma diferença do mesmo gênero, pensamos nós, que se encontraria entre o cérebro do animal e o cérebro humano’” (BERGSON, 2001: 168).

Márcio Barreto nos dá outro exemplo para reforçar tal assunto:

“Tomemos outro exemplo: analogamente à liberdade conquistada pelo rapaz da máquina à vapor, o piloto de um avião bem equipado poderá até dormir, pois o automatismo da aeronave o liberta de sua função. Se olharmos apenas para o mecanismo do avião, veremos que praticamente não há diferenças entre os funcionamentos automático e ‘manual’; mas se observarmos o piloto, a diferença entre o que dorme e o que pilota é radical. O piloto que dorme, mais do que o perspicaz operador da máquina de Newcomen, está livre de sua concentração no presente: durante o sono, com a atividade inteligente retraída, seu espírito pode se expandir pela memória. Quanto maior for a retração da inteligência, mais a consciência deixa-se guiar pela intuição, cujos caminhos não têm finalidade prática; e, quanto maior a tomada da consciência pela intuição – seja durante a vigília, seja enquanto sonhamos – mais apreendemos a duração e nos afastamos do tempo homogêneo espacializado”.

A conclusão da filosofia bergsoniana não poderia ser mais proveitosa para entender a condição humana no mundo tecnológico. Segue:

“Os limites de nossa percepção do espaço podem ser ampliados por máquinas, como o aparelho de televisão, os satélites de comunicação, o telescópio, o telefone, etc. Nestes casos, como a atualidade dos objetos distantes é transmitida pelas máquinas à velocidade da luz, pode ocorrer uma estranheza em nossa percepção como a que teve o telespectador de futebol [que assiste “ao vivo” a partida]. Da mesma forma, quando uma lembrança nos toca involuntariamente, sem que fôssemos buscá-la para utilizá-la na situação presente, somos estranhamente surpreendidos pela revelação de que o presente não é desconexo do passado”.

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