Pensar as mídias um pouco além da euforia

Pensar as mídias um pouco além da euforia

A febre excitativa que vem provocando a “marcha imperativa (e sem passado) da mídias” (ver post anterior) parece fazer criar, no mínimo, matérias jornalísticas muito descuidadas do ponto de vista crítico.

A matéria da “Folha de S. Paulo”, publicada na segunda quarta-feira deste ano de 2011, veio dar um exemplo de descuido (ainda mais quando apenas reproduziu texto que saiu no New Times Times).

A chamada da matéria:

Conheça dez maneiras para tirar o máximo da tecnologia”: ajustes ajudam a ganhar tempo e a diminuir frustrações e raiva

E continua:

Seus aparelhos e computadores, seus programas e sites – eles não estão funcionando como deveriam. Mas a indústria da tecnologia lhe dá a impressão de que fazer ajustes é uma tarefa difícil e longa. Não é.
Abaixo estão dez coisas para melhorar sua vida tecnológica. Elas são fáceis e, na maioria das vezes, de graça.
Juntas, elas devem tomar cerca de duas horas (uma envolve ligar para sua operadora de TV a cabo ou telefone, então essa previsão é elástica). Feitas, elas compensam tanto pelo tempo livre como pela diminuição de frustração. Você consegue”.

Agora, somente a primeira das 10 maravilhosas dicas:

Compre um smartphone
Por quê: Ter acesso imediato a e-mail, fotos e internet deixa a vida mais fácil.
Como: Adquira um novo celular por meio de sua operadora atual; mais para a frente, você pode começar a pesar os prós e contras dela em relação à concorrência.

Como bola da vez, os discursos da “vida fácil”, “vida simples” parecem estar aí para ficar e encher muita linguiça em revistas e jornais. A meu ver ocorre, sem dúvida, uma latente incapacidade de entendimento de que quanto mais criamos estas tecnologias que nos ‘agiliza’, mais ficamos sob um jogo de relações maiores, mais cognitivas e imateriais e, portanto, de cada vez mais fina absorção de nossas pulsões e achaques – em suma, maior e mais profundo “consumo” do tempo dos indivíduos.

Em todos os meios sociais vem ficando evidente, a começar com o acadêmico, a nossa incapacidade de dar sentido menos ‘tecnicista’, produtivista às experiências e ações. Nos rumos da vida acadêmica, no qual venho me inserindo, a ‘vida fácil e simples’ é, na verdade, daquelas muito duras, tal como atestam os mecanismo à la ‘qualis’ e do bisonho abismo da ‘ultraprodutividade acadêmica’: os controles tecnológicos diversos proporcionam tais rumos.

Diante do fato de estarmos mais conectados, somente acabamos ficamos sob mais velocidade, mais tráfego de informações, mais plugados e… mais stress, ansiedades e – de suma – somos tomados e falamos muito (muito mesmo!) da “falta de tempo”. E, se eu estou certo, pode vir o Smartphone e o escambal que a ‘vida fácil e simples’ vai ficar apenas nas páginas das revistas das bancas por aí.

Em 2008, achei tão importante que resolvi dedicar o meu mestrado inteiro para tentar responder o que a tecnologia tem a ver com o nosso discurso de falta de tempo (“O tempo da técnica”, mestrado Sociologia Política, UFSC, 2010). No final das contas, hoje parece que vivemos dentro de um paradoxo. Cito uma passagem do mestrado que fala sobre isso: “A nossa percepção macro é de que nunca antes na história houve um cenário de tantas mudanças contínuas e, no entanto, nunca fomos tão incapazes de alterar o devir histórico. (…) Ora, as pessoas vivem inescapavelmente o cenário de mudanças, imaginários e experiências que ela provoca, mas, ao mesmo tempo, elas não definem valores e tornam-se ausentes, passivos, às mudanças, aos rumos históricos e aos problemas enfrentados pelos indíviduos e sociedades. Renuncia-se, pois, a uma cultura subjetiva. Renuncia-se a pensar em seu tempo da vida e a se voltar mais e mais a uma subordinação e descompasso aos ritmos das tecnologias”.

Uma breve palavra:

Mas, o que fazer? Apenas condenar isso tudo e rejeitar pura e simplesmente os caminhos antropotécnicos são ingenuidades. Uma ética do cuidado de si somente faz sentido se a gente começar pensar das tecnologia/dispositivos que nos rodeia. No fundo, é preciso saber o que se faz e se relaciona com o email; é preciso saber o que se faz e se relaciona com as redes sociais, com os celulares… Enfim, é preciso não se deixar contaminar pelas tecnologias. Como dizia um professor Filosofia da tecnologia meu, “no fundo, é preciso não levar tão a sério a técnica”. Afinal, serão elas mesmo que vão nos ‘salvar’?

 

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