Sobre o preconceito

SOBRE O PRECONCEITO

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Ednei de Genaro,
Mestre em Sociologia Política (2010)

Um dos mais sérios e persitentes problemas do mundo atual é, sem dúvida, a expressão do preconceito e suas perversas consequências para a geração de diversos conflitos humanos, seja em nosso cotidiano, seja entre países. Alguém pode perguntar: em um mundo que, como nunca antes, prega tanta democracia, como é possível que ainda haja a expressão deste sentimento que leva a intransigências, intolerâncias…?

O preconceito, é bom que se saiba, nasce de nossa má formação cultural. Propriamente, o preconceito está ligado a nossa incapacidade de entender o universo de valores do ‘outro’ e, por conseguinte, a si mesmo.
Ora, as pessoas esquecem que aquilo que somos não é, obviamente, fruto do acaso, de uma formação solitária. É, na verdade, fruto de nossas leis, crenças, religiões, comportamentos etc. Nada escapa para entender nossas identidades. Assim, o que torna um ser humano com todos os tipos de percepções e ignorâncias, prazeres e sofrimentos, é resultado da formação cultural do eu.

Foi Montesquieu quem melhor refletiu e perguntou: ‘Como posso eu ser alguém? Como pode existir o outro? Como se pode ser persa? Como se pode ser o que se é? Como posso ser alguém que sou?’. Com ele entendemos melhor que a minha identidade é possível de ser compreendida somente se tenho o outro para comparar e avaliar.

Ver o outro é ver a si mesmo. E é desta medida que surgem os preconceitos, ou seja, a sobrevalorização que damos aos conceitos de nosso agir e pensar. Como diz Montesquieu, os preconceitos são onipotentes nos homens, são eles que geram nossos apetites, nossas alegrias, nossos êxtases, nossos deleites e orgasmos. Quando se fecha os olhos ou as narinas para tal atitude do outro, quando se julga por razões não se reflete, quando se condena atos pelo desejo ser ‘mais forte’ que outro – são em ocasiões como estas que deveríamos refletir melhor sobre a medida de nossos valores, de nosso mundo e, assim, atingirmos um maior grau de humanidade.

Haja vista o teor dos conflitos mundiais, não sabemos ainda pensar a si mesmo e compreender a existência e a liberdade dos outros, para tolerar as diferenças e encarar as dificuldades. Ainda vê a predominância dramática de um círculo vicioso de agressões e revides. Nobert Bobbio, um dos grandes pensadores da filosofia política do século XX, escreveu uma frase bastante feliz a respeito do pior dos preconceitos: o racial. Diz ele: “O nosso dever é afirmar que não há raça, mas homens; que o ódio racial é um dos mais terríveis flagelos da humanidade, que a expressão mais violenta do ódio racial foi o hitlerismo, compartilhado pela maior parte dos ‘bons patriotas’ alemães: que a aparição de uma suástica é uma sombra da morte e em qualquer lugar que ela reapareça os homens de boa vontade, embora divididos em ideologia e interesses, estão empenhados em se reunir num pacto de solidariedades para apagá-los”.

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