Sobre a mentira

SOBRE A MENTIRA

Only children and fools always speak the truth”

Mark Twain.

Ednei de Genaro

Mestrando pela UFSC (2008)

Frequentemente quando as pessoas falam sobre a mentira, elas abordam como uma coisa ruim ou um mau costume das pessoas. Este parecer ser a boa reprovação do senso comum. Ora, mentir é sempre um tipo de pecado ou uma atitude imoral. Mas será que esse ideal negativo quanto a mentira nos garante inteiramente o que vem a ser este ato no mundo? Em uma reflexão mais atenta, a resposta é não.

Certa vez, conversando com um amigo, ele me disse: “você realmente acredita que as pessoas precisam mentir?”. Eu, de pronto, afirmei que faltalmente sim. E disse ainda que talvez, numa análise da história humana, as ‘grandes mentiras’ tiveram mais consequencias positivas do que negativas!

Explanemos sobre a questão um pouco mais reflexivamente. Assim resumo o modo como refleti junto ao amigo.

Em primeiro lugar, é preciso entender que quando falamos sobre a mentira estando sempre falando sobre um agir humano, isto é, de uma relação social. Assim, diferentemente da ‘ordem da natureza’, não há como pensar em uma ‘coisa-em-si’ do mentir – ou então, de uma mera conclusão lógico-argumentariva que evidencia a mentira (e, inversamente, a verdade). Nestes termos, é impraticável falar sobre a mentira em termos absolutos.

Mentir é sempre um fenômeno social – ora, sozinhos, podemos ‘enganar’ a nós mesmos ou estarmos incosncientes de algo, mas nunca conseguimos propriamente mentir para si mesmo. A mentira é, enfim, algo avaliável no campo ético e, portanto,  sujeito a múltiplas interpretações. Convém lembrar aqui, para resumir, o que sentenciava Nietzsche: “não há fenômenos morais, apenas interpretações morais de fenômenos”.

É óbvio que o mentir é reprovável. Num mundo ideal não haveria espaço para a mentira. No entanto, como nos mostra o personagem do filme “O Mentiroso”, este mundo ideal não existe e seria insuportável que tentássemos cumprir que ele existisse.

Mentir, nas condições contingenciais em que vivemos, é um comedimento constante de nossa existência. Estamos sempre pensando e decidindo o que é correto ou não em uma situação; o que garante algo bom e o ruim  para as nossa vidas e espaço público. A linha tênue que separa a verdade da mentira passa toda hora em nossas cabeças. E neste jogo da vida, a relação entre ‘as verdades’ e ‘as mentiras’ nem sempre são claras. Muito menos fáceis de empregar.

Definitivamente, o mentir é um fato da vida! Impossível escapar-se dele. Mas, enfim, por que o repudiamos tanto? Ora, porque devemos ter o ensinamento ético de que precisamos dizer a verdade para as relações humanas darem certo. Ora, é preciso também sempre preferir a verdade em vez da mentira, pois é assim que parece transparecer um mundo melhor. Se o melhor, penso eu, é basear nossas decisões em atitudes de coragem e amor ao mundo, a escolha da verdade sempre deve ser o império em nossas vidas: o que pensar, por exemplo, do homem público, da autoridade, que para proveito próprio, egoístico, se vale de um punhado de mentiras?

Contudo, o escritor Mark Twain nos provoca, ao expor que a diferenciação entre o ato mentiroso e o verdadeiro tem sempre uma dimensão estética. Ele nos diz que o ato ético é inseparável do estético. Sabemos, pois, que o homem está sempre dentro de um meio social onde suas maneiras, idéias e condutas são examinadas. E, no mais das vezes, estamos sempre querendo cumprir uma atitude cortês e politicamente correta que trabalha, ora com a verdade, ora com a mentira. Nietzsche , outro provocador, concordaria aqui com Twain. No §192 de “Além do Bem e do Mal”, ele escreveu: “Mesmo nas vivências mais incomuns agimos assim: fantasiamos a maior parte da vivência e dificilmente somos capazes de não contemplar como ‘inventores’ algum evento. Tudo isso quer dizer que nós somos, até a medula e desde o começo – habituados a mentir. Ou, para expressá-lo de modo mais agradável: somos muito mais artistas do que pensamos”.

Em uma reflexão maior o ditado “mentira é sempre mentira” torna-se uma sentença ingênua. A idéia de que somos julgados por nossas mentiras  (e verdades) – e que nós mesmos julgamos elas – parece ser mais relevante.

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