Sobre a amizade.

SOBRE A AMIZADE

(por Ednei de Genaro)

Ao Junior.


Amizades são raras, mas perduram. Quem as vivenciou sabe o que é aconchegar na memória um contrastante sentimento de consolação e pesar quando uma amizade torna-se ausente…

Reconhecemos uma amizade pela substância sincera e positiva que identificamos reciprocamente. Tenho amigos que não o vejo há tempos; amigos que já se foram; pessoas que depois de uma conversa de bar o tive como.

Amizade não é igual ao amor, não exige a fidelidade e a confissão íntima. Uma noite sem o amor pode ser terrível! A amizade é muito mais harmônica…

Uma amizade não leva consigo um destino compartilhado junto. Não é sensato isto. Os caminhos dos amigos se entrecruzam e se divergem, o vínculo está no conforto mútuo que carregamos nas derradeiras alegrias das histórias de amizades. Ela se constrói na arte profunda de presenciar e compartilhar a vida com o outro. Não é por menos que Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a amizade (philia) é o único sentimento que envolve reciprocidade, porque os dois lados são iguais.

Na amizade, a tendência não é encontrar a servidão ao outro, mas a gratidão, a consideração. Nela, a construção do elo com o outro é mais forte e seguro do que com o sentimento de paixão ou de amor. Amor e paixão estão sempre caminhando e definindo os acontecimentos de “emoções”, de “pulsões”, sempre estão em um propósito desmedido, incompreendido. São, obviamente, propósitos felizes e deliciosos, mas insaciáveis! Ao contrário da amizade, a paixão e o amor anseiam, por finalidade, o outro para si, de modo a quebrar o bem recíproco que deveria surgir…

O significado do que é algo amigo é o encontro, não o domínio. É justo falar que a amizade é o sentimento que dá o sentido mais pleno a convivência entre os homens. O estado de amor é, talvez, a mais bela expressão, a mais vivaz e criativa atividade. Mas é a amizade quem garante o equilíbrio, a tolerância, a convivência entre os homens (papel que vemos, hoje, ser ao mesmo tempo tão necessário e raro).

Certa vez, Schopenhauer, em seus “Aforismos para a sabedoria de vida”, apresentou um pensamento bastante sensato acerca da fragilidade da amizade perante a distância e aos demasiados apegos circunstanciais que nossa natureza humana encontra-se submetida. Para sobrevivermos às intempéries de nossas vidas, estamos sempre um criando nossas estratégias de um mundo a nossa volta, a ponto de, muitas vezes, jocosamente, aprovarmos um ninho de convivência onde muitos hospedeiros não revelariam exatamente o lado verdadeiro da amizade.

Cito as sábias palavras de Schopenhaeur sobre este nobre sentimento:

“Distância e longa ausência prejudicam qualquer amizade, por mais triste que seja admiti-lo. As pessoas que não vemos, mesmo os amigos mais queridos, aos poucos se evaporam no decurso do tempo até o estado de noções abstratas, e o nosso interesse por elas torna-se cada vez mais racional, de tradição. Por outro lado, conservamos interesse vivo e profundo por aqueles que temos diante dos olhos, nem que sejam apenas os animais de estimação. Tão vinculada aos sentidos é a natureza humana. Por isso, aqui também são sábias as palavras de Goethe: ‘O tempo presente é um deus poderoso’.  Os amigos da casa são chamados assim com precisão, pois são amigos mais da casa do que do dono. Portanto, assemelham-se antes aos gatos do que aos cães. Os amigos se dizem sinceros; os inimigos o são. Dessa forma, deveríamos usar a censura destes para autoconhecimento, como se fosse um remédio amargo. Os amigos são raros na necessidade? Não, pelo contrário! Mal fazemos amizade com alguém, e logo ele estará em dificuldade, pedindo dinheiro emprestado”.

É possível, no entanto, acreditar que, apesar de nossa natureza humana ser tão vulnerável às afeições, nosso espírito é capaz de contemplar o verdadeiro caráter de uma amizade, seu sentido mais elevado. Esta é uma virtude demasiada bela, que nos torna possível reverenciar e desejar toda poesia a quem aprendemos a gostar, a quem nos apresentamos plenos, nus, verdadeiros. Isso, penso eu, fica inabalável em nós, mesmo que estando a todo momento sendo retalhados pelas contingências da vida…

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