SHERLOCK HOLMES E A NOÇÃO DE MASSA CULTURAL

SHERLOCK HOLMES E A NOÇÃO DE MASSA CULTURAL

Ednei de Genaro (Mestre em Sociologia Política – 2010)

Fazemos uma nota à noção sociológica de massa cultural, desenvolvida por pensadores do século XX.

O ‘homem médio’ de que falava Ortega y Gasset encontra uma definição bem objetiva no método de trabalho do detetive Sherlock Holmes: “Embora o homem individual seja um enigma insolúvel, o agregado humano representa uma certeza matemática. Nunca se pode predizer, por exemplo, o que fará um homem, mas é possível prever as atitudes de um certo número deles. Os indivíduos variam, mas as porcentagens permanecem constantes” (trecho do livro: “O signo dos quatro”).

Quem já acompanhou uma aventura policial de Sherlock Holmes, escritas por Arthur Conan Doyle, descobre que o seu material de trabalho é constituído por um fino pensar sociológico sobre o comportamento definido dos indivíduos em grandes cidades. Sherlock Holmes, como sabemos, é o detetive mais conhecido da literatura ocidental. Sua função é bem interessante lembrar: solucionar o mistério de um crime qualquer, fazer vir à tona as provas e produzir um exame capaz de impor o julgamento de um indivíduo.

Para ele, pois, ter um fino faro para a espantosa isomorfia da vida social moderna é de suma importância. Conan Doyle protagonizava descrições minuciosas a respeito dos variados desvios sociais que clamam por vir à tona uma investigação, a verdade e a justiça. Ele bem sabia que nas cidades modernas, mesmo com centenas de milhares de habitantes, os comportamentos, gostos e imaginários têm sentidos próprios e prescritos que são bases para o início de uma investigação. Podemos entender que Sherlock tem uma premissa básica: o indivíduo moderno segue o padrão para tudo. São modelos, séries, repetições… tudo segue ordenações, nada é aleatório, tudo é necessário apreender para estabelecer parâmetros, evidencias, comparações. Assim, o acidental, quando existe, é o exótico, o não-permitido e, em suma, o ato ‘criminoso’, o desvio social.

Sherlock Holmes tem o senso para separar o ato acidental do ato consecutivo: “Eis a pista”, diria. Na modernidade, o todo homogêneo é o sonho dos modelos de construção pública e privada. E foi assim que várias instituições acabaram sendo criadas para se objetivar no ordenamento social. Como clamou contra vários pensadores, criamos as instituições e colocamos a governabilidade, quer seja pública ou privada, para realizar os comandos de como se portar, como desejar, como viver…  “Na sociedade de massa, dizia Adorno, o indivíduo se perde no coletivo”. Como escritor, interessante notar, Coyle vivia enfim a situação de exótico, de marginal, pois foi de sua introspecção e valores espirituais que encontrou uma disposição para a vida de escritor e a identidade própria em meio à vida social.

Em meio ao totalitarismo economicista de nossa época, a publicidade, o marketing, as seduções diversas dos veículos midiáticos regulam os nossos maior e mais importante afazer no mundo: o consumo. Sabemos que o trabalho é algo gerido de forma universal, mecânica e regula a maior parte de concepção temporal do homem… O que ainda não superamos é a forma unidimensional, determinada e amorfa que criamos e passamos agora a fluir mecanicamente a vida, resultando no silêncio profundo das massas (como pensou Baudrillard).

Lendo Conan Doyle compreendemos melhor isso tudo.

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