Memória ou esquecimento?

Memória ou esquecimento?

Ednei de Genaro

Mestrando pela UFSC (2008)

“– ‘Como fazer no bicho-homem uma memória? Como gravar algo indelével nessa inteligência voltada para o instante, meio obtusa, meio leviana, nessa encarnação do esquecimento?’… Esse antiquíssimo problema, pode-se imaginar´´ não foi resolvido exatamente com meios e respostas suaves; talvez nada exista de mais terrível e inquietante na pré-história do homem do que a sua mnemotécnica” (Nietzsche, em “Genealogia da moral: uma polêmica”; II, § 3).

Introduzimos aqui um breve comentário para um interessante e riquíssimo ensaio do psicanalista Adam Phillips, “A memória forçada”, publicado no jornal Folha de S. Paulo, 20 de novembro de 2005.

O psicanalista afirma a problemática motivadora do seu ensaio: a crença, o senso comum de que aquilo os erros do passado não devem ser esquecidos, devendo lembrar incessantemente, pois, caso contrário, fatalmente repetiremos os mesmos erros. Temos, pois, medo e temor do esquecimento e, por isso, persuadimos a relembrar constantemente os acontecimentos históricos. Acreditamos, com isso, no mito redentor da memória.

Para escapar desse mito, necessitamos (re)pensar algumas ideias e entendimentos sobre memória e esquecimento no homem moderno, recorrendo aos significados psíquicos de algumas noções centrais, tais como: experiência, desejo, obsessão, trauma etc.

Pelo mito redentor da memória criamos o pensamento de que aqueles que recordam as experiências traumáticas o fazem acreditando dever “manter em mente”, relembrando o fato terrível, o trauma, para supostamente mitigar ou impedir sua repetição.

Na verdade, nos diz o psicanalista, criar uma obsessão pela memória torna-se problemático e expressa simplesmente o teor negativo de uma doutrina, logo que o ato de lembrar vem a ser práticas recorrentes de instituições sociais.

Em primeiro lugar, a pergunta do psicanalista é a seguinte: o que se deseja persuadir? Ou, o que exatamente se deseja manipular – deliberada ou acidentalmente, com suas investigações e negações? Enfim, que objetivo temos ao lembrar-se de certo fato? Tais perguntas são fundamentais, já que, ele escreve, “voluntária ou involuntariamente (…) as memórias têm sempre um futuro na mente”.

A crença nos diz também que se lembrar de coisas certas e de maneiras corretas é comportamento de bem-estar e virtude. Mas, dentro dessa crença, reside uma grande dúvida sobre a capacidade de nossa mente memorizar ou ser manipulada.

O caráter negativo da memória expressa com força a nossa sociedade contemporânea. A memória não é mais virtuosa do que a manipulação. As construções históricas, seja de qualquer caráter ideológico, alimentam as perspectivas de obsessão pela memória, cegando-nos para “seus abusos que ela pode sofrer e para os usos do esquecimento”. Em relação a tal uso caráter negativo, Phillip Adams vem exemplificar exatamente as inúmeras comemorações para lembrar o Holocausto.

A partir daí, a pergunta subsequente passa a ser, ao invés de “o que significa enfim lembrar?”,      “o que significa esquecer?” Qual a melhor maneira de esquecer? Para Adams, a natureza humana tende a esquecer as coisas que são fortes, que causam excesso de prazer ou sofrimento, como um trauma. O quadro geral é de sempre estar considerando “aquilo que é passível de esquecimento como trivial ou insuportável”.

Ocorre que o insuportável ou traumático, em algum lugar, ocupam nossa memória e é capaz de retorno. Assim, cada pessoa realiza a separação entre aquilo que é obsessão ou descarte. No entanto, este poder de decisão nem sempre está em poder da pessoa. “É esse fator, assevera Phillips, “talvez acima de todos os outros, que faz com que obrigar as pessoas a lembrarem – assim como forçá-las a comer – seja ao mesmo tempo tão implausível e tão problemático moralmente”.

Chegamos ao ponto de conclusão crítica do autor: a imposição nas atitudes de recordar é a forma mais cabal de calcular respostas, dar soluções artificiais e consumar uma única versão possível para um trauma histórico. Essa “memória forçada” é o valor emocional que damos ao passado, valor de medo da história, que é pretenso à censura de múltiplas e variáveis interpretações de nossas mentes.

A maneira de recordar, nos diz Phillips, não se deve assemelhar a um ato intimidador demais e irrealista em excesso. Ao pensar sobre a nossa recordação do Holocausto, exemplo contumaz desse diagnóstico negativo, Phillips pronuncia sobre como os alemães são moralmente instruídos pelos “não-alemães” a terem uma pedagogia constante de recordar. Não há espaço para o altruísmo perante aos traumáticos conflitos e as diversas experiências pessoais vividas. Uma obediência que doutrina a memória e reduz, enfim, a complexidade da história.

A memória “forçada” é, de tal modo, o próprio retrato de nosso medo da memória (ou daquilo que pode surgir dela). E é somente o esquecimento sendo útil e verdadeiro que a memória poderá funcionar como tal. Esquecer se torna, portanto, o natural e o necessário metabolismo que se produz com o tempo. “Esquecer – pensa o autor – precisa ser permitido, se queremos dar uma chance à memória – memória não-manipulada, memória desregrada”.

Conclui-se que a “memória forçada” tem seu fim último na mesma situação problemática do personagem “Funes, o memorioso”, do conto de Jorge Luis Borges. Funes tem sua existência disposta infinitamente para a precisão do lembrar, tanto que transcende a qualquer realidade que dizemos ser ‘construída’. Sua lembrança seria a própria “verdade”, independente de qualquer interpretação. Sua psique, o registro dos próprios fatos. Seu martírio, no entanto, era a situação paradoxal de, por não poder esquecer, não fazer história alguma, pois a história é sempre uma interpretação do presente. Seu mundo era, pois, incapaz de reflexão, tão logo que era incapaz de esquecer.

Nietzsche, ao descrever a relação entre a genealogia do castigo e da memória, oferecia a seguinte reflexão:

Grava-se algo a fogo, para que fique na memória: apenas o que não cessa de causar dor fica na memória” – eis um axioma da mais antiga (e infelizmente mais duradoura) psicologia da terra. (…) Jamais deixou de haver sangue, martírio e sacrifício, quando o homem sentiu a necessidade de criar em si uma memória; os mais horrendos sacrifícios e penhores (entre eles o sacrifício dos primogênitos), as mais repugnantes mutilações (as castrações, por exemplo), os mais cruéis rituais de todos os cultos religiosos (todas as religiões são, no seu nível mais profundo, sistemas de crueldades) – tudo isso tem origem naquele instinto que divisou na dor o mais poderoso auxiliar da mnemônica(Nietzsche, em “Genealogia da moral: uma polêmica”; II, § 3).’

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: