Felicidade e puerilidade no mundo contemporâneo.

FELICIDADE E PUERILIDADE NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Ednei de Genaro

Mestrando na UFSC (2008)

“Um homem não pode voltar a ser criança sem cair na puerilidade”. Karl Marx.

Somos a civilização dos prazeres profanos, da vida baseada no consumismo e na busca insaciável de entretenimentos nos ‘templos de diversão’ que a modernidade oferece. Tanto isto é verdadeiro que a ausência de maturidade e virtudes nos indivíduos adultos é um dos grandes problemas da vida pública.

O mundo contemporâneo é uma máquina de fazer consumir, de criar supérfluos e modismos. Houve, no século XX, empreendimentos sociais de todos os tipos para que tal máquina fosse uma forma administrada. Não foi à toa: criamos o culto do lazer capitalista e da eterna sedução com o progresso. É assim que ‘gastamos’ nosso tempo livre.

Somos, por excelência, a civilização da fruição material. Ficamos apavorados quando não temos aquilo que desejamos, pois somos colonizados por uma vertiginosa infinidade de objetos que ‘precisamos’ conquistar e desfrutar. A tecnologia é nosso vício e, cada vez mais, o nosso único ‘mundo’.

A conseqüência disto é, pois, encontrada na fugacidade e puerilidade com que os cidadãos se relacionam com objetos e outras pessoas. O utilitarismo da vida ocidental cresceu no mesmo atributo do ‘American way of life’. E, quando a vida coletiva se reduz a ‘ambientes de negócios’ e de diversão, o mais terrível talvez seja encontrar valores humanos massacrados.

A civilização dos prazeres mundanos vive da fragilidade em agrupar indivíduos com valores de base ética e de expressão política. Bem sabemos: não estamos mais em uma época em que as relações sociais se asseguram pela tradição cultural no nível familiar e civil. O nosso maior laço ‘a partir de cima’ – o ético-religioso cristão – cai por terra; e a modernidade se revela pela fragilidade de identidades e perda de sentido das tradições.

A miséria de espírito dos indivíduos adultos resulta dessas fragilidades e perda. O mundo é cada vez mais o do ‘gentleman’ de exaltação egoísta da alma. Este é o ser adulto destituído de questionamentos, de vida pública: de busca espiritual profunda e manifestação política. Pessoa, enfim, que não satisfaz responsabilidades fundamentais: como a de servir de exemplo e berço cultural para as gerações futuras.

Vivemos, pois bem, um mundo cheios de personagens como Euclião – gênero libidinoso, mal-caráter e fanfarrão – da comédia romana clássica do escritor Plauto. O mundo é circunscrito na idéia de felicidade ‘vazia’, dada por uma dimensão de volição irracional, tão-somente. Eis o caráter dos ‘Eucliões’ da modernidade. Há somente vontade de fruição mundana, pois, caso contrário, vive-se imerso em angústia!

A felicidade vazia é como o sorriso do tolo, do ser insensato e inoportuno que toma a palavra para a fugacidade dos seus vícios (de sua autodestruição orgiática). O tomar da palavra do tolo se resume na desesperada busca de prazeres com prazos de validades curtos. Quem não encontra, por exemplo, o discursar do tolo sobre as propriedades ‘magníficas’ do carro do ano?

A modernidade vive, pois, o drama da ampla destituição da posição de nobreza ética, da contemplação profunda com os verdadeiros valores das coisas do mundo e do adulto digno, consciente e aberto ao diálogo. A nossa civilização dita ‘do conhecimento’ (de que tipo?) emerge de uma felicidade vazia em que não há espectro algum para que se construa a vida pela união de sabedoria de vida e vontade, como fizeram os gregos. Temos um vasto mundo de objetos para entender; uma vida cheia de escolhas para se fazer; e uma ‘civilização do conhecimento’ para se qualificar.

Vasto mundo terreno é o nosso. Vasto mundo mundano! Resolver os problemas sociais deste mundo é complicado. Hoje, os limites da Cidade-Estado para ser um homem público não bastam. E não há dimensão da vida e fraternidade pública que não sejam complexas e fragmentadas. Para o homem moderno, compreender e ter uma vida prática que una intelecto e vontade não é tarefa fácil.

Fácil também não é diagnosticar, nos traços maiores, a civilização em que vive o homem moderno. Contudo, coube a nós falar sobre a puerilidade deste mundo nosso. Questão que é muito saliente e que nos faz pensar o quanto uma vida que contempla suas vontades é necessário hoje. De tal modo, deixa-nos manifesto a indigência de (re)ler e (re)considerar palavras como, por exemplo, a do estóico Marco Aurélio: “A vida humana tem duração de um átimo; a substância, fluida; as sensações, obscuras; a estrutura do corpo inteiro, corruptível; a alma, errante; a sorte, incerta; a fama, casual; em poucas palavras, aquilo que se refere ao corpo é uma corrente que passa; aquilo que se refere à alma, sonho e vaidade; a existência é batalha e estadia em terra estrangeira; a glória póstuma, esquecimento. O que resta, portanto, que nos possa escoltar? Única e somente, a Filosofia. E esta consiste em conservar incontaminado de qualquer insulto e dor; superior à dor e ao prazer (…)”.

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