Anotação sobre a relação cinema e filosofia

ANOTAÇÃO SOBRE A RELAÇÃO CINEMA E FILOSOFIA

Ednei de Genaro

Mestrando pela UFSC (2008)

Restabelecemos a noção de logopatia do pensador Julio Cabrera (autor de “O Cinema Pensa”): o cinema, assim como a literatura, constitui suas formas próprias de pensar e criar, isto é, suas formas próprias de conceber ‘conceitos’. Não é, portando, mera ilustração ou exemplificação de conceitos de outras linguagens. O cinema constitui sua linguagem, estabelecendo suas ferramentas para pensar.

De tal modo, o cinema é por excelência um tipo de filosofia ao nível imagético. É uma expressão estética que cria conceitos em um nível imagético.

Ocorre que, pensa Julio Cabrera, o cinema e a filosofia devem ser relacionados pela nossa logopatia, isto é, pelas nossas capacidades de atividades intelectuais e afetivas. A medida da logopatia está de acordo com o aprofundamento prévio do sujeito às questões que sobressaem à arte apresentada. Assim, um filme pode se apresentar de diferentes profundidades para diferentes pessoas. É o poder logopático de um ser que indica o “espírito filosófico” de uma película. A relação dialética do sujeito com a obra é crucial. E o sujeito? Expressá-lo-á sua logopatia com outra obra cinematográfica, em um romance ou em um ensaio filosófico?

O cinema é, enfim, uma linguagem que pode alcançar, a seu modo, um tratamento filosófico com o mundo, o que torna possível refletir e expor a sua relação com a história da filosofia, bem como pensar seus alcances metafísicos. A mesma coisa pode ser dita de outras artes como a música e a literatura. Digamos que fossemos pensar o caráter filosófico da música ou da literatura. Entraríamos, do mesmo modo, em um campo subjetivo próprio, único. A música de Mahler, por exemplo, consiste, para muitos ouvintes, em um primado “metafísico” indiscutível; enquanto que a literatura de G. Rosa são, para outros, grandes obras que tocam em questões fundamentais no campo lógico, da mitologia e do conhecimento humano. No entanto, tanto para a música do compositor como para a literatura do escritor, não foi preciso criar nenhum tratado de filosofia…

Cada experiência de um filme é uma experiência de pensamento e vida, que podem, muito bem, serem inatingíveis, fantásticas. O cinema expressa uma idéia de mundo e também forma nossas consciências e memórias. Gilles Deleuze e Bernard Stiegler são aqui autores que nos ajudam a pensar o tema. Resumimos a indicar dois textos.

INDICAÇÃO DE TEXTOS:

Gilles DELEUZE: Qu’est-ce que c’est avoir une idée en cinéma?  (Conférence à la Femis en 1987) ;

« Et la réponse est: avoir une idée en cinéma, c’est avoir une idée pour vivre mieux. Le film essaye un morceau de vie pas encore essayé, le film expérimente sur pellicule le théâtre du vivant  il est un passé présent virtuel en phase d’actualisation. Chaque vision du film est une expérience de pensée et de vie. Tout se joue à l’écran (une matière en dur pour un effet proprement technique et matériel) selon le mode du « on parle de quelque chose, en même temps on nous fait voir autre chose ». C’est pour Deleuze l’idée du cinéma des Straub, Duras, Syberberg et autres cinéastes de notre temps. Ceci n’est donc pas informer, ceci est proprement faire vivre ensemble. Les films, en fait, mettent quelque chose là où ça manque. Or, dit Deleuze à la fin de sa conférence, c’est le peuple qui manque toujours. Donc l’idée en cinéma est une idée en biopolitique et biotechnique » [extrato do texto de Alain Jugnon, «Le temps, les films, la vie », Philosophie pour les multitudes, Mise en ligne octobre 2002. Acessado em :http://multitudes.samizdat.net/spip.php?auteur175%5D.

Bernard STIEGLER : La technique et le temps, tome 3 : le temps du cinéma, Galilée, 2001.

« Tout ce qu’écrit Bernard Stiegler dans « Le temps du cinéma » renchérit sur cette idée de cinéma, sur cette présentation du film comme vie. Dans le film, nous avons à faire à un objet technique et temporel ( temporel parce que technique, prothétique, un « quoi » concrétisé). Nous adoptons cet objet car il nous constitue par défaut, comme toute prothèse, il s’impose comme une part donnée de notre milieu associé et technicisé (industrialisé). Selon Stiegler, « la conscience est toujours en quelque manière montage de souvenirs primaires, secondaires et tertiaires les uns par les autres ». Est rétention tertaire, la forme objetive du « souvenir »: cinématogramme, photogramme, phonogramme, écriture, tableau, buste mais aussi monument et objets en général”, toutes choses qui actualisent un passé non vécu, virtuel et producteur du présent. La conscience ainsi est cinéma : elle dérushe, monte, visionne, découpe, recadre. En un mot, la conscience filme. Nous avons à nous trouver pensant dans les films que nous sommes en pensée. Nous avons à réaliser ce montage, cette cinématographie, écriture de nos vies et graphe de notre pensée. Une pensée qui est une image, des images qui pensent  » [extrato do texto de Alain Jugnon, «Le temps, les films, la vie », Philosophie pour les multitudes, Mise en ligne octobre 2002. Acessado em :http://multitudes.samizdat.net/spip.php?auteur175%5D.

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