Meu Tio, uma sátira da vida moderna

Meu Tio, uma sátira da vida moderna

(Mon Oncle, FRA, 1958, Jacques Tati)

 

 

Ednei de Genaro

Mestrando (UFSC – 2008)

E como não rir bastante com um filme de Jacques Tati? Este – como outros tantos de Tati – não fora ingenuamente concebido apenas para se desfrutar o cômico, mas sim também para refletir, e bastante! Cria-se, portanto, uma ótima sátira: deliciar-se com as atuações, digamos, chaplianas de Tati é também se apossar de um fino senso para as mudanças culturais da vida moderna: “Meu Tio” expõe vivamente os contrastes e crises sociais resultantes do progresso da cultura material na França. Assistir hoje o filme, cinquenta anos após, é perceber uma humorada comédia que culmina com uma antevisão acertada e crítica do que viria a se exacerbar como o vazio ‘life style’ do capitalismo moderno.

O cineasta Jacques Tati, ele mesmo, é o protagonista. A trama que ele satiriza é a seguinte: Tati é o tio pobre de um menino que mora com sua ‘perturbada’ família burguesa. A história se passa por meio do contraste entre o modo de vida pobre e tradicional do tio e a vida dos moradores da casa, no momento em que o tio visita-a e acaba pedindo um emprego.

O que salta os nossos olhos é o cenário estereotipado do ‘mundo’ do progresso técnico que imprime os hábitos cotidianos dos moradores. A arquitetura e os artefatos domésticos que se encontram na casa são a expressão eloqüente e escatológica dos progressos e das consequente associação do design industrial com as conquistas tecnológicas. Dessa associação, Tati nos mostra as formas ridículas e medíocres dos modismos de uma nascente sociedade francesa.

Ficamos então a assistir as aflições causadas pelos conflitos da transição do modo de vida urbano tradicional para o moderno. Tati nos leva, quase sempre, a um riso, mesmo que angustioso e chocante. Lembra-se, por exemplo, o tio pobre, morador de cortiço, que anda de carroça com seu cachorro e trajes típicos e acaba, sem alternativas, indo procurar trabalho na moderna fábrica de mangueiras do seu genro.

É uma hilária confusão de mundos, de modos. Tati nos mostra as separações, os preconceitos e as batalhas dos valores populares e burgueses. Como também não se deliciar, no filme, com a valorização das relações cordiais, de ternuras e intimidades vividas pelas pessoas que estão ainda imersas no modo tradicional de vida? Encontramos até um tom nostálgico e uma idéia de melhor harmonia social que oferecia o passado. Isto parece muito nos agradar, mesmo que tenhamos, a fundo, a crença de que seja apenas uma configuração romântica.

São diversos os elementos de contrastes entre o tradicional e moderno que, magicamente – em cortes ligeiros de cenas – aparecem no filme. Admira-se, assim, a memorável construção de cenas e expressão de fiel de linguagem. Alguns destes fragmentos contrastantes são notáveis e marca-nos: as cenas que mostram a cidade que agora parece ser projetada para os carros e sem nenhuma chance de transitar uma carroça; o cenário de automatismos e designs ‘áridos’ e futuristas da casa burguesa que é contrastado com a arquitetura nem um pouco funcional do cortiço; a audição do império de ruídos das máquinas da vida moderna em contraste com os sons das cantorias populares e das conversas das pessoas do cortiço. Todas as cenas notáveis.

Acredito que força crítica da narrativa seja esta: a de mostrar a miséria espiritual trazida pelo progresso técnico. Ora, sabemos bem hoje que a idéia de felicidade dada pelo consumismo e individualismo burguês são ilusões trágicas.

A beleza da estética teatral e cheia de interpretações mímicas do ‘cinema mudo’ é uma maravilha a mais do filme de Tati. Não devemos esquecer, por fim, que se expõe não à toa do universo de uma criança dentro desta miséria espiritual moderna. Para nós, esta parecer ser a forma mais ágil do cineasta anunciar um questionamento ético, uma vez que não percebemos ‘o futuro maravilhoso’ que a modernidade quer prometer: a criança é privada de brincar, de conhecer o mundo e até de cometer (por que não?) as suas peripécias. Seu mundo é, pois, cercado de coisas que o aprisiona e administra.

Quem nunca assistiu pode ter certeza que esta perdendo um grande e autoral filme – longe então do mero entretenimento, como acontece com muitas comédias contemporâneas.

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