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HARUN FAROCKI PENSADOR E OPERADOR DE MÍDIAS

Tese de Doutorado – Ednei de Genaro (2015)

 

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Resumo

A presente tese expõe uma perspectiva da obra do cineasta alemão Harun Farocki (1944-2014) – constituída por filmes (ficcionais e documentais), ensaios, artigos, instalações artísticas, entrevistas, workshop –, a partir de suas questões e estratégias de teoria, método, trajetória estético-política, trabalho com arquivo e montagem e, por fim, naquilo que essas questões e estratégias – e a visão de mundo do autor –, contribuíram para pensar a modernidade e, especificamente, os estudos de mídia. Defendemos que sua obra, analisada globalmente, nos revela um cineasta que prima por ser um pensador e operador de mídias. Em todo o percurso da tese estaremos buscando os porquês e as decorrências deste primado, ponderando especificamente sobre: 1. A visão materialista-fenomenológica de cinema/mídias; 2. A posição ético-política enquanto gesto de reconciliação prometeu-epimeteu; 3. A noção de operar mídias enquanto um método-estilo explorando aportes horizontal, transversal e transindividual; 4. As influências, contextos e posições de autoria estética e política; 5. A dimensão específica do operar cinematográfico: Farocki como arqueólogo e montador; 6. E as contribuições de uma obra, no lugar em que ela mais movimentou questões e análises: os estudos de mídias. Tais ponderações nos levam, por fim, a pensar a dimensão tecnoestética inerente a uma obra que intercruza pensamento e operação a partir de mídias.

Palavras-chaves: Harun Farocki; Estudos de Mídia; Teoria de Mídia; Teoria do Cinema; Tecnoestética; Capitalismo; Estética; Política; Montagem; Arquivo

 

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DEMOCRACIA DIGITAL E CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

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*POLITIZANDO AS TECNOLOGIAS – tecnopolíticas aceleracionistas – [estudos pós-doc]

DEMOCRACIA DIGITAL E CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO:

Estudo de duas teorias tecnopolíticas aceleracionistas

[No capitalismo contemporâneo, as acelerações do progresso tecnocientífico e das descentralizações midiáticas – e o modo como estas cada vez mais contribuíram para (re)definir a vida biológica, psíquica e coletiva dos seres humanos –, fizeram surgir (pelo menos) duas novas teorias políticas, que salientam projeções tecnopolíticas de democracia digital. De um lado, aparecem anseios capitalistas tecnocráticos-escatológicos (“kurzwelianos”), pregando valores gerais hiperliberais, corporativos e idílicos ao mundo: os aceleracionistas capitalistas. Por outro lado, uma proposição de Deleuze e Guattari, exposta na conjuntura política do início da década de 1970, despertou valorizações contrárias: “acelerar o processo” (progresso, descentralizações) significaria alargar o “teor esquizofrênico” (liberal, mas crítico do poder corporativo, do consumismo etc.). Esta última visão, a dos aceleracionistas pós-capitalistas, defendida por determinada corrente deleuziana-guattariana, realizaria, pois, uma crítica imanente ao capitalismo, fazendo dissenso à ordem tecnocrática-escatológica capitalista dos primeiros, ao buscar a ampliação de formas de descentralizações mais democráticas. A partir de perspectivas genealógica, conceitual e crítica, procuramos pesquisar e refletir sobre tais teorias tecnopolíticas contemporâneas, nos contextos em que estas aparecem. Projetamos dividir a pesquisa em cinco eixos (futuros capítulos de um livro) – consistindo esses em apresentações (1° e 4°) e análises críticas (2° e 5°), e em proposição teórica sobre o contemporâneo (3°). O objetivo do estudo é, centralmente, colaborar com a compreensão de aspectos das novas posições políticas na democracia digital do século XXI, formada cada vez mais por materialidades de mídias – que despertam questões a partir de designs, arquiteturas, formas de fluxos e agenciamentos, desempenhos algorítmicos etc. Ao especificar duas teorias tecnopolíticas paradigmáticas e reversas, esperamos, enfim, ajudar a fomentar os debates ressaltando as influências, os fundamentos, as realidades e os valores éticopolíticos que estão sendo gestados hoje – a partir de estudos comparativo e crítico, trabalhando com aportes de método genealógico].

Introdução:                                                                              

No início do século XXI, caberia uma pergunta genérica: o que deveríamos esperar do chamado progresso tecnocientífico para a construção de valores e espaços democráticos em ambientes digitais, no momento atual de ampliação das descentralizadoras a partir das novas materialidades de mídias[1]?

Diante de tal questão, devemos lembrar que, em 1972, nos contextos da Guerra Fria, das investidas contra o modelo de Estado capitalista keynesiano, da ascensão do liberalismo consumista, da exaustão do Estado totalitário no bloco soviético e das revoluções culturais pós-maio de 1968, Deleuze e Guattari escrevem o livro Anti-Édipo – Capitalismo e esquizofrenia 1, no qual – no terceiro capítulo (“Selvagens, bárbaros, civilizados”) –, lançam uma proposição singular e polêmica: a de crítica imanente ao progresso e à modernidade capitalista.

É no nível dos fluxos, e dos fluxos monetários, não no nível da ideologia, que se faz a integração do desejo. Então, qual solução, qual via revolucionária? A psicanálise ajuda pouco, considerando-se suas íntimas relações com o dinheiro, pois que registra, embora evite reconhecê-lo, todo um sistema de dependências econômico-monetárias no coração do desejo de cada sujeito que ela trata, constituindo-se, por sua vez, numa enorme empresa de absorção de mais-valia. Mas haverá alguma via revolucionária? — retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselha aos países do Terceiro Mundo, numa curiosa renovação da “solução econômica” fascista? Ou ir no sentido contrário, isto é, ir ainda mais longe no movimento do mercado, da descodificação e da desterritorialização? Pois talvez os fluxos ainda não estejam suficientemente desterritorializados e suficientemente descodificados, do ponto de vista de uma teoria e de uma prática dos fluxos com alto teor esquizofrênico. Não retirar-se do processo, mas ir mais longe, “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche: na verdade, a esse respeito, nós ainda não vimos nada (Deleuze; Guattari, 2010, p.318, grifo nosso).

Deleuze e Guattari foram apontados como pioneiros em um debate recentemente designado como aceleracionismo[2] (Noys, 2014). Porém, sabemos, atualmente são os poderes os político-econômicos mundiais, notadamente da chamada new economy, centralmente localizada no pólo tecnológico do Vale do Silício (Silicon Valley, California, EUA), que procuram “acelerar o processo”, destacando discursos tecnocráticos-escatológicos. São os aceleracionistas capitalistas, como denominaremos, que por esses discursos afirmam, no mais das vezes, valores gerais hiperliberais, corporativos e idílicos ao mundo. Contudo, opostamente, reflexões posteriores sobre a propositiva e polêmica crítica de Deleuze e Guattari, dentro das conceitualizações de Anti-Édipo, e na obra dos autores como um todo, ganharam contemporaneamente valorizações e debates, a partir do advento de conjecturas políticas aceleracionistas pós-capitalistas, como também denominaremos.

Procuramos circunscrever recortes, questões específicas e contribuições em filosofia política e estudos de mídias (especialmente, em estudos sobre a democracia digital), a partir da sistematização do estudo em três eixos:

[1] Em geral, a democracia é compreendida de três maneiras, como forma de governo (teoria, constituição), como dispositivo de tomada de decisão (prática, tecnologia), e como relação social (valores, cultura). Liberdades (de expressão, de informação, reunião etc.) e direitos (de voto, de ser candidato, de igualdade de justiça etc.) constituem princípios democráticos. Bem sabemos, uma democracia não é meramente uma conquista técnica; contudo, as configurações e tecnicidades diversas com os humanos – de fluxos midiáticos associativos, como esclareceremos –, são imprescindíveis para definir e desenvolver uma democracia. Como escreve Gomes (2011, p.27-28), a democracia digital pode ser definida, particularmente, como “[…] qualquer forma de emprego de dispositivos (computadores, celulares, smart phones, palmtops, ipads…), aplicativos (programas) e ferramentas (fóruns, sites, redes sociais, medias sociais…) de tecnologias digitais de comunicação para suplementar, reforçar ou corrigir aspectos das práticas políticas e sociais do Estado e dos cidadãos, em benefício do teor democrático da comunidade política”.

[2] O termo aceleracionismo (accelerationism) foi cunhado recentemente, e de forma crítica, pelo teórico crítico inglês Benjamin Noys. Como veremos, o termo passou, no entanto, a ser utilizado tanto em sentido crítico como afirmativo.

PERSPECTIVA GERAL DO ESTUDO:

O estudo busca acompanhar, de forma genealógica, os contornos diversos (autores/textos/acontecimentos) de duas teorizações tecnopolíticas para a construção de democracias digitais contemporâneas e futuras, uma de base tecnocrática-escatológica-capitalista (“kurzweliana) e outra de base crítica-pluralista-prometéica-pós-capitalista (certa influência deleuziana-guattariana – e marxista). Sem dúvida, nosso recorte de pesquisa, sendo teórico, quer revelar aspectos dos novos regimes de ficções e verdades cada vez mais pertinentes à investigação acadêmica: de reconstrução de ideários políticos – de liberdade, igualdade, utopia, justiça e, centralmente, de democracia digital – das chamadas direitas e esquerdas. Acreditamos que, de acordo com nossas proposições, questões e hipóteses delimitadas nos eixos do projeto, poderemos aprofundar e assim contribuir para a discussão desta nova conjuntura. A partir dos eixos de “apresentação” e de “análise crítica”, competiria significativamente observar e avaliar – em suas formulações teóricas-discursivas – em que caso, de que forma e porque ambos os aceleracionismos buscariam “mais” tecnologias, porém – tal como conjecturamos de início pesquisar – com influências (pensamento tecnológico – Kurzweil; pensamento filosófico – Deleuze/Guattari), fundamentos (singularidade tecnológica; singularidades múltiplas); realidades (tecnocrática-escatológica; pluralista-prometética) e valores éticopolíticos (democracia digital liberal-capitalista: mundo centralizado, oligopólico, automatizado e idílico;  democracia digital liberal-pós-capitalista: mundo descentralizado, oligopsônico, indeterminado e crítico) que seriam muito distintos, antagônicos. Trabalharemos estas especificidades-diferenças, realizando do mesmo modo, a partir de uma perspectiva de compreensão do capitalismo contemporâneo, apresentado no eixo “proposição teórica sobre o contemporâneo”, uma ampliação e maior compreensão das análises críticas para ambos os aceleracionismos.

Procuramos portanto circunscrever recortes, questões específicas e contribuições em filosofia política e estudos de mídias (especialmente, em estudos sobre a democracia digital), a partir da sistematização do estudo em três eixos:

1° EIXO: ACELERACIONISTAS CAPITALISTAS:

a- Compreender e periodizar: como compreender e periodizar os aceleracionistas capitalistas?

b- Análise crítica: de que forma podemos entrar e aprofundar nos debates críticos a partir de duas noções centrais dos aceleracionistas capitalistas – singularidade e pós-humanismo?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/24/1287/ 

2° EIXO: PROPOSIÇÕES SOBRE O CONTEMPORÂNEO:

– Como pensarmos contemporaneamente a relação humano-máquina?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/23/acerca-do-contemporaneo-2-eixo/

3° EIXO: ACELERACIONISTAS PÓS-CAPITALISTAS:

a- Compreender e periodizar: como compreender e periodizar os aceleracionistas pós-capitalistas?

b- Análise crítica: de que modo forma podemos entrar e aprofundar nos debates críticos a partir de duas noções centrais dos aceleracionista críticos – materialidades de mídias e o acelerar?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/22/1301/ 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [dos três eixos, e desta Introdução]:

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/21/referencias-bibliograficas-dos-tres-eixos-e-desta-introducao/

ACELERACIONISTAS CAPITALISTAS [1°EIXO]

ACELERACIONISTAS CAPITALISTAS  [1°EIXO]

Singularity

 

Como compreender e periodizar os discursos tecnocráticos-escatológicos – que vem sendo o principal aglutinador de valores dos aceleracionistas capitalistas?

Seguindo a maneira como diversos pesquisadores (com enfoques distintos) evidenciam hoje[1], o lugar da conjunção do hiperliberalismo e tecnologia de mídias informáticas é, por excelência, o Silicon Valley; lugar onde a crescente concentração de poder político-econômico vem moldando, positiva e negativamente, as novas descentralizações/centralizações de mídias, composições de empresariados/trabalhadores e proposições de designs, arquiteturas, formas de fluxos e agenciamentos, desempenhos algorítmicos etc. da vida privada e pública. É o lugar em que vem se arquitetando as novas governamentalidades, agora algorítmica (Rouvroy; Berns, 2013); e que vem produzindo e espalhando, um “novo espírito” que conjuga democracia digital e capitalismo, um novo ideário político diametralmente associado a uma crença tecnofílica: a escatologia tecnológica denominada singularidade tecnológica, que conforma sentidos, práticas, afetos, sonhos – em uma palavra, cultura política – de muitas pessoas[2].

CompreensãoUm discurso escatológico é uma doutrina que evoca a destinação da vida como um todo, realizando especulações e estabelecendo preceitos em caráter de juízos finais, especialmente enquanto doutrinas religiosas versando sobre o destino da humanidade. Contudo, a partir do final do século XX, significativamente, a noção de escatologia passou a ser associada à ideia de progresso tecnocientífico, motivando aos agentes privilegiados do capitalismo (empresários, cientistas de áreas de inovação tecnológicas, tecnocratas etc.) visões, anseios, modelos políticos, ideais de bem-estar individual e social, que se configuram a partir de escatologias tecnológicas –: um olhar para a vida em geral enquanto submissa ao devir tecnológico.

Discursos acerca de uma ordem teórica escatológica das tecnologias começaram a aparecer não somente na vasta literatura de ficção-científica do século XX, mas também nas proposições práticas tecnocientíficas e empresariais – sendo, sem dúvida, o mais importante e disseminado, por sua extensão política, notadamente, os discursos desdobrados por meio da teoria denominada singularidade tecnológica.

A teoria acerca da singularidade tecnológica busca transpor o termo físico-matemático de singularidade[3] para o campo tecnológico, cientistas buscaram empregar os sentidos de aceleração, colapso e consequente perda do domínio humano em relação ao devir tecnológico[4]. Kurzweil é o grande mentor contemporâneo dos discursos singularistas tecnológicos, o maior expoente contemporâneo, no momento em que o tema se tornou um discurso político e midiático. Autor dos livros The age of spiritual machines: when computers exceed human intelligence (1999) e The Singularity is Near: When Humans Transcend Biology (2005), traduzidos em vários idiomas, ele vem argumentando e ajudando a disseminar o ponto de vista de que o progresso tecnocientífico contemporâneo se dá em uma “escala exponencial”, transcendendo e dando nova posição à vida e potências humanas (“transhumanismo”)[5]. A partir de parcerias da Nasa e Google (e outras empresas emergentes ligadas ao ramo de tecnologias de informação e comunicação), Kurzweil constituiu, junto com Peter Diamandis, no Silicon Valley (Califórnia), a Singularity University, universidade que busca ser, ao mesmo, organização think-tank, incubadora de negócios e de inovações tecnológicas bruscas, ansiando disrupções de mercados.

A noção de singularidade de Kurzweil (1999; 2005) é formada a partir do encadeamento contínuo de dados, gráficos, interpretações, previsões de acontecimentos históricos. Discursos de singularidade tecnológica se impõem como uma perspectiva de prenúncio acerca de acontecimentos tecnomidiático e sociopolíticos. Uma perspectiva futurológica que se baseia, portanto, em projeções, formulando leis, teorias e noções que se encontram no campo das especulações tecnocientíficas – disseminadas e valorizadas em diversas áreas acadêmicas (More; Vita-More, 2013). De tal maneira, a singularidade tecnológica se destaca, acima de tudo, como discurso político, econômico, cultural instituidor de uma visão tecnocrática de mundo, constituindo crenças que afirmam um estado político. Discursos que compõem, portanto, regimes de ficções e de verdade[6]: pensamentos sobre imortalidade, volições políticas tecnocráticas e promoção de novas fronteiras de inovações capitalistas, de conformações e automações midiáticas, notadamente.

Os discursos de singularidade tecnológica, e seus valores diversos associados, perfazem um verniz escatológico e utópico aos valores tecnocráticos, explicitando uma destinação final, uma visão de “paraíso”: uma perspectiva teleológica a partir de dada concepção de tecnologia e visão otimista sobre a “abundância”, segurança e felicidade no mundo (Diamandis; Kotler, 2012). Buscam-se então as condições e conformações estritamente tecnocientíficas para “acelerar o processo” rumo à “boa vida”. Atualmente – conforme diversos autores vêm explicitando[7] – as dimensões empresariais corporativas, hiperliberais e idílicas dos novos agentes do capitalismo informacional e comunicacional – destacadamente protagonizada pelo pólo tecnológico Vale do Silício –, são as que mais vêm investindo em tais valores tecnocráticos, promovendo materialidades de mídias problemáticas no que se refere a garantir ampliação de valores e espaços democráticos.

PeriodizaçãoTal como pensamos e denominamos, o pensamento secular tecnocrático-escatológico (diferente das escatologias religiosas), não é exclusivo da Escatologia-Empresarial (escatologia tecnológica de afirmação da Empresa), uma vez que foi preconizado já na década de 1990 por uma Escatologia-Estatal. Logo após a queda do muro de Berlim, de promoção (neo)liberal e sentimento de “vitória” do capitalismo na Guerra Fria, apareceu subitamente uma interpretação teleológica do mundo que tinha como principal mentor o filósofo Francis Fukuyama.

No livro The End of History and the Last Man, publicado em 1992, Fukuyama (1992) apresenta a “Boa Nova” e a “Terra Prometida” enquanto juízos de fim da história; em outras palavras, enquanto doutrina de Estado liberal perene e ilimitado. Derrida (1994), em Espectros de Marx, analisando tal apresentação, criticaria a “nova ordem mundial”, afirmada por uma escatologia cristã-liberal, discutindo ao mesmo tempo a reflexão de Fukuyama que assinala o limite à capacidade do progresso tecnocientífico promover a liberdade[8].

No início do século XXI, contudo, a perspectiva escatológica “humanista” – antropocêntrica – de Fukuyama se confrontaria com a escatologia tecnológica pós-humanista. Em seu livro Our Post human Future: Consequences of the Biotechnology Revolution (2002), o autor faria uma crítica aos discursos e movimentos políticos escatológicos tecnológicos, que começavam a ganhar maior popularidade. Ora, a conjuntura havia mudado, de modo que, para ele, a noção de transhumanismo (ou pós-humanismo), atrelada à noção de escatologia tecnológica, seria uma das “mais perigosas ideias do mundo” (Fukuyama, 2002; 2009).

Naturalmente, o filósofo da nova doutrina geopolítica americana, Fukuyama, se oporia à ascensão de uma “ordem cibernética do mundo” – leia-se, Silicon Valley –, de pensamento a favor “do avanço da industrialização para a liberdade política”: de radicalização neoliberal (libertarianism), de doutrina de inovação tecnológica perene e ilimitada, regida por processos de descentralizações político-econômicos, capitais de risco e empreendorismos, dialogando de forma cada vez “mais livre” com o Estado e pregando automatizações diversas da vida.

Nos anos 1990, no momento de disseminação do livro escatológico sobre a “democracia liberal” de Fukuyama, Derrida se perguntava acerca da ampliação midiática de tais discursos[9]. A partir de nossa perspectiva de periodização, poderíamos, hoje, já na segunda metade dos anos 2010, vislumbrando um período muito mais influenciado e prolongado dos discursos escatológicos tecnológicos (Escatologia-Empresarial) do que os da Escatologia-Estatal, buscar aqui, neste primeiro eixo, da mesma forma perguntar: o que significaria essa ampliação midiática em relação aos discursos tecnopolíticos escatológicos apoiados na noção de singularidade tecnológica? O que significaria, especificamente, essa “boa nova”, pós-humana, de sujeição-automação, e de otimismo irrestritos aos modelos de aceleração da encampação tecnológica corporativa, hiperliberal e idílica de mundo?

Análise crítica dos aceleracionistas capitalistas

Para tentarmos nos afastar diametralmente da dimensão tecnocrática e escatológica da vida, enfrentando, todavia, seriamente as questões centrais levantadas por essa dimensão, será indispensável, neste eixo, realizarmos uma análise conceitual crítica, que nos leve a aprofundar produtivamente o debate, propondo discussões sobretudo a partir de dois pontos: o conceito de singularidade e a “condição pós-humanista” (para nós, antropotécnica).

Singularidade – No pensamento filosófico contemporâneo, o conceito de singularidade se afasta diametralmente de uma proposição escatológica. A singularidade na filosofia condiz propriamente com um sentido de devir contínuo dos seres/objetos/ambientes, e da noção de potência destes enquanto diferenciada, espacializada e temporalizada a partir de relações (heterogêneas, múltiplas). Especialmente a partir dos legados da filosofia de Simondon, Deleuze nos afasta de qualquer ideia de hipostasia e determinismo no interior de singularidade: o conceito é pensado enquanto diferença, repetição e virtualidades, expressando realidade intensiva (ou transindividual, no caso de Simondon) na qual indivíduo significa hecceidade, “individuação não é individual”. Indivíduo está dentro de uma totalidade aberta, criando espaços ou topologias, por meio de suas ressonâncias internas: singularidade são pré-individual (Deleuze, 2006).

Singularidade é portanto vista como imanência de um ser que entra em um campo de forças, ou seja, quando opera em mundos diversos, de agenciamentos maquínicos: psíquicos, coletivos, naturais, técnicos[1]. Em Deleuze, não faz sentido compreender o conceito como algo prescrito e decidido por si mesmo. Não há singularidade enquanto germe auto-reprodutor, auto-multiplicador. E, de tal modo, em sua filosofia, a máquina técnica não pode se afirmar de forma autônoma, sem a perspectiva de conjunção com a máquina social e máquina desejantes (seguindo aqui as distinções de Deleuze e Guattari introduzidas em Anti-Édipo). Singularidade é, pois, encontro de forças, diferenças, realidades, mundos; uma constelação[2] – algo expressamente diferente do hilemorfismo e substancialismo que se encontram nas raízes dos argumentos escatológicos tecnológicos.

Podemos então recuar a uma pergunta essencial: existe um sentido valorativo da noção de progresso – em si mesma? Em outras palavras: por que se vive um triunfo tão forte do conceito de progresso baseado apenas no desenvolvimento da tecnociência? Ou: em que implica a redução da noção de progresso a um estado de eficácia produtiva apenas da máquina técnica? É preciso refletir sobre os modos de existência criados a partir de tal valorização escatológica, no momento em que a concepção ocidental de progresso se limitou a uma ideia de “superioridade técnica” (Dupas, 2006)[3].

Condição antropotécnica – “Libertar-se” da máquina, ter vontade “própria”, desejos “puros”; encontrar-se com a “essência” do humano… Tais proclamações, de espírito romântico – que nos reportariam genealogicamente a Rousseau (Derrida, 1973; Stiegler, 1994; Deleuze, 2006) –, parecem ser hoje, filosófica e politicamente, insustentáveis e problemáticas. A partir disso, como compreender, designar e se posicionar diante da noção de “crise do humano” sem nos filiar às concepções escatológicas pós-humanistas?

A história humana, enquanto uma ampla antropotécnica[4], indica-nos um horizonte de maquinações contínuas do eu, do social e da técnica. Se apenas hoje nos damos conta da complementaridade da exterioridade técnica da vida humana, isto se deve ao fato de que o pensamento humanista antropocêntrico perde força de forma inédita, sendo substituído por um pensamento da mediação, que inclui, simetricamente, humanos e não-humanos (Deleuze, 1997; Latour, 1994). Em termos de mediação (ou de realidade intensiva ou transindividual), a atenção, o cuidado com a vida, não se dá pela procura da “essência do Ser”, mas pela procura das composições e dos modos de existências capazes de potencializações diversas. Portanto, o pensamento essencialista, que advoga, de alguma maneira, uma dicotomia ontológica humano–técnica, é criticado. Como nota Garcia dos Santos (2005, p.165), o principal problema dos que defendem a “essência do Ser” seria a “[…] valorização do humano no que ele tem de animal, como se houvesse uma espécie de terreno a salvaguardar… [O] recuo para o animal implica a tentativa de segurar uma espécie de ‘essência do humano’ que já não tem sentido”.

Segue então uma necessidade de superar dada perspectiva que associe diretamente escatologia à pós-humanismo, não se posicionando de maneira simplesmente “contrária” ao pós-humanismo, ou a partir de afirmações críticas, como havia feito Lyotard[5]. Ora, há certamente ainda um caminho para a política, para a história; há ainda o lugar do acontecimento, da vida não-determinada a partir dos horizontes ditos “pós-humanos” – para nós, preferencialmente horizonte antropotécnico. A questão não é exatamente ser “contra o pós-humano”, mas, sim, problematizar o universo tecnocrático-escatológico pós-humanista – lugar em que se tem a automatizações e submissões dos seres e objetos a uma certa ordem cibernética de mundo. A questão dever aquela que problematize as volições que querem eliminar o acontecimento, o incalculável das máquinas desejantes e sociais, a partir da ideia de uma “imperiosa” máquina técnica que impetra a “transparência cibernética total”.

Longe de pensarmos em termos de incomensurabilidade humano-máquina, devemos propor que entre o maquinal e o não-maquinal, “opera uma relação que não é de simples oposição. Pode-se chamar isso de liberdade, mas somente a partir do momento em que haja o incalculável […]” (Derrida; Roudinesco, 2004, p.65). Tal associação maquinal e não-maquinal é, antes de tudo, uma condição amplamente antropotécnica. As maquinações técnicas do mundo, isto é, a ação dos dispositivos de cálculo e repetição, tem lugar naquilo que engendra a nossa própria possibilidade de liberdade e, tão logo, de política – sendo ela, a expressão da indecisão, em Derrida (2010), e da indeterminação, em Deleuze (1974).

[1] Singularidades – expressará Deleuze, em Lógica do Sentido –, “[s]ão pontos de retrocesso, de inflexão etc.; desfiladeiros, nós, núcleos, centros; pontos de fusão, de condensação, de ebulição etc.; pontos de choro e de alegria, de doença e de saúde, de esperança e de angústia, pontos sensíveis, como se diz. […] A singularidade faz parte de outra dimensão, diferente das dimensões da designação, da manifestação ou da significação. A singularidade é essencialmente pré-individual, não-pessoal, aconceitual […]” (Deleuze, 1974, p.54).

[2] Os apontamentos de Derrida, contemporâneo de Deleuze, seguem o mesmo caminho: “[…] a singularidade do ‘quem’ não consiste na individualidade de uma coisa idêntica a ela mesma, não é um átomo. Ela desloca-se ou divide-se ao reunir-se para unir ao outro […]. É aqui, sem dúvida, em ligação com as questões de responsabilidade ética, jurídica, política, que se constitui a metafísica da subjetividade” (Derrida, 1989).

[3] O antropólogo francês Pierre Clastres (2003), em A sociedade contra o estado, estudando a história da organização das tribos ameríndias, refletiu acerca de como estas compreendiam progresso. Segundo Clastres, quando analisou “progresso”, a tradição ocidental sempre impetrou uma ideia de “inacabamento, incompletude, falta” às tribos. No entanto, elas nem mesmo possuíam tal noção. A natureza das sociedades primitivas, aponta Clastres (Idem, p.209;216), era “bem mais como positividade, como domínio do meio ambiente natural e do projeto social, como vontade livre de não deixar escapar para fora de seu ser nada que possa alterá-lo, corrompê-lo e dissolvê-lo”. Ocorre que, em relação às tecnologias, diferente da hiper-dimensão sublime e escatológica dos modernos, os ameríndios colocavam-nas como “modo de vida” (idem, p.209), ou como modo de existência, como pensaremos. Para os modernos, no entanto, há sempre uma problemática, uma cisão marcante, que coloca pesos diferentes aos valores fatuais e de valores éticos, isto é, como se diz, entre a “razão instrumental” e a “razão comunicativa”? (Domingues, 2004, p.170-1).

[4] Ao lermos variadas reflexões filosóficas e consultarmos estudos antropológicos-paleontológicos (Sloterdijk, 2010; Deleuze e Guattari, 1997; Stiegler, 1994; Serres, 2004; Leroi-Gourhan, 1964), apreendemos que o ancestral humano somente aparece a partir das inovações técnicas e, tão logo, de sua contínua transformação a partir delas. Haveria uma antropotécnica desde sempre; e não exatamente um estágio avançado em que atingiríamos um horizonte “pós” – humano.

[5] O filósofo francês teria se posicionado a partir de hesitações paradoxais, indicando uma dicotomia e incomensurabilidade entre o humano e a técnica. Ele via o paradoxo entre o “destino inumano” e a liberdade humana: o exercício da liberdade humana para incremento constante da maquinação (“informatização do mundo”) implicaria, paradoxalmente, em perda da liberdade humana – automação, ausência do pensar e “eclipse” da liberdade. Isolando e hipostasiando em última instância a tecnociência dos agenciamentos humanos, pensou que, de forma cega e hegemônica, a tecnociência decide sobre o “verdadeiro” e o “justo” – não deixando nenhuma outra alternativa para se pensar as circunstâncias do mundo (Lyotard, 1989; 1987; Sim, 2011; Latour, 1994, p.50). Lyotard se posicionaria, pois, a partir de uma afirmação crítica da escatologia tecnológica, tendo-se encontrado, portanto, em uma hesitação “sem saída”.

[1] Ver, por exemplo: Justus Haucap; Heimeshoff, 2013; Aschoff, 2015; Levy S., 2011.

[2] No Silicon Valley nos encontramos “mergulhado no coração de uma região onde ainda se sonha em mudar o mundo”, esta é a epígrafe do jornalista do Le Monde Jérôme Marin para seu blog de notícias sobre o pólo tecnológico. Não por menos, é lá que se começa a consolidar as novas grandes corporações mundiais (artigo: “Is the Internet driving competition or market monopolization?”); que se “ensina” a construir o futuro (livro: “Notes on Startups, or How to Build the Future”); que se constrói os novos espaços de sociabilidade e trabalho reais/virtuais (artigo: “Le siège social futuriste de Google ne sortira pas de terre”); que se busca construir uma nova “máquina cerebral” (artigo: “Zuckerberg, Musk, and Kutcher Want to Build You a New Brain”); e é, enfim, pensando neste lugar, que o mundo passa a questionar os limites e as desventuras em relação ao progresso, suas escatologias e novas encampações capitalistas (artigos: “Google est-il un libertarien de gauche?”; “Liberté.Liberté. Inegalité. Immortalité” ; “Google, une certaine idéologie du progrès”). Conferir os links: http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs10368-013-0247-6; http://zerotoonebook.com/; http://siliconvalley.blog.lemonde.fr/2015/05/07/le-siege-social-futuriste-de-google-ne-sortira-pas-de-terre/; http://www.wired.com/2014/03/vicarious-funding/; http://www.multitudes.net/google-est-il-un-libertarien-de/; http://www.philomag.com/les-idees/dossiers/liberte-inegalite-immortalite-le-monde-que-vous-prepare-la-silicon-valley-10229; http://www.lemonde.fr/economie/article/2013/09/26/google-une-certaine-idee-du-progres_3485155_3234.html.

[3] No campo físico-matemático, o termo singularidade é parâmetro de performatividade de uma resolução ou de um fenômeno. Refere-se a um estado singular, peculiar, incomum ou anormal, em que todas as linhas se colocam paralelas gerando um evento infinito ou que tende ao infinito e à incomensurabilidade. Na matemática, especificamente, condiz com o valor ou com o intervalo de valores de uma função para a qual não existe uma derivada. Na física, condiz com um ponto ou região no espaço-tempo em que as forças gravitacionais fazem a matéria ter uma densidade infinita (exemplo clássico: os buracos negros). A singularidade marca um sentido importante, portanto: o da transição entre dois mundos ou dois domínios em um ponto ou instante, tendo um valor de quebra, de cisão. É um termo que define aceleração dos processos e colapso das explicações teóricas tradicionais, sucumbindo assim as possibilidades de cognição – avaliação, previsão – por meio dos instrumentos e leis da matemática e da física.

[4] Segue uma recuperação rápida de cientistas importantes que versaram a respeito. Alan Turing (1912-1954): em 1951 escreve artigo intitulado Maquinaria inteligente: uma teoria heterodoxa (Intelligent Machinery: A Heretical Theory), no qual afirma que as máquinas irão, cedo ou tarde, ultrapassar a inteligência humana: “uma vez que se tiver completado o método da máquina de pensar, não levará muito tempo para que esta máquina ultrapasse nossos fracos poderes […]. Em algum momento, portanto, nós poderemos esperar que as máquinas tomem controle, do mesmo modo que mencionou Samuel Butler [1835-1902, escritor de ficção-científica] em Erewhon [1872]”; John von Neumann (1903-1957): certa vez, escreveu: “a cada progresso acelerado da tecnologia […] temos a impressão que se a aproxima uma singularidade essencial na história da tecnologia para além do humano […]. Singularidade será o momento no qual a tecnologia irá se tornar incompreensivelmente rápida e complicada” (ver: Ulam, Stanislaw, Tribute to John von Neumann, 1958); Venor Vinge (1944-): desenvolveu o conceito de singularidade em seu ensaio Coming Technological Singularity (1993): “Dentro de 30 anos, teremos os meios tecnológicos para criar inteligência super-humana. Pouco depois, a era humana estará encerrada. […] Eu acho que é justo chamar este evento de uma singularidade. Este é um ponto onde nossos modelos deverão ser descartados e uma nova realidade irá tomar conta. À medida que caminhamos cada vez mais perto deste ponto, a singularidade irá se mostrar gigantesca para as dimensões humanas até que isto se torne senso comum. No entanto, quando ela finalmente chegar, ainda poderá ser uma grande surpresa e uma enorme desconhecida”.

[5] Em The Singularity is Near (Kurzweil, 2005, p.25), o autor escreve: “O que é, portanto, Singularidade? É um período futuro durante o qual o ritmo da mudança tecnológica será tão rápido, o seu impacto tão profundo, que a vida humana irá irreversivelmente ser transformada. Embora nem utópico ou distópico, esta época irá transformar os conceitos que utilizamos para dar sentido às nossas vidas, dos modelos de negócios aos ciclos da vida humana, inclusive a própria morte”.

[6] “O real precisa ser ficcionado para ser pensado. Essa proposição deve ser distinguida de todo o discurso — positivo ou negativo — segundo o qual tudo seria ‘narrativa’, com alternâncias entre as ‘grandes’ e ‘pequenas’ narrativas. […] Não se trata de dizer que tudo é ficção. Trata-se de constatar que a ficção […] definiu modelos de conexão entre apresentação dos fatos e formas de inteligibilidade que tornam indefinida a fronteira entre razão dos fatos e razão da ficção […]. Escrever a história e escrever histórias pertencem a um mesmo regime de verdade” (Rancière, 2009, p.54).

[7] Cada vez mais abundantes, os estudos críticos acerca das novas materializações midiáticas (Crary, 2013; Bifo, 2013; Malabou, 2009; Terranova, 2014; Morozov, 2015; Pariser, 2011; Evangelista, 2011; Lanier, 2000; 2013) evidenciam – centralmente e a despeito de suas diferentes posições filosóficas, científicas e políticas – que a promoção de descentralizações midiáticas do atual capitalismo vem, ao mesmo tempo, conformar novos controles (cognitivos, neuropoder etc.) na população, garantindo o livre e acelerado desenvolvimento do capitalismo e seus ideais corporativos, hiperliberais. (Cabe aqui salientar que, em nossa atitude compreensiva das teorias tecnopolíticas, não nos importa exatamente na pesquisa investigar em pormenores a “filosofia” de Kurzweil ou pesquisar e denunciar o biopoder ou a economia política do novo capitalismo midiático. Precisamente, importar-nos investigar e demarcar, a partir de uma periodização, os principais sentidos e interesses (convicções, crenças, valores) das redes de discursos que instituem e sustentam um novo ideário tecnopolítico, que advogaria uma noção de singularidade enquanto hispostasia e determinismo tecnológico, imputando uma cultura política tecnocrática-escatológica despolitizadora do mundo, na verdade).

[8] Fukuyama (1992, p.16) escreve: “Contudo, embora a ciência natural nos conduza até os portões da Terra Prometida da democracia liberal, não nos leva à Terra Prometida propriamente dita, uma vez que não existe nenhuma razão economicamente necessária para que a industrialização avançada produza a liberdade política”. Derrida comentaria da seguinte maneira esse trecho: “[…] Se levarmos em conta o fato de que Fukuyama associa um certo discurso judaico da Terra Prometida à impotência do materialismo economicista ou do racionalismo da ciência física; se levarmos em conta o fato de que, noutra parte, ele trata como exceção negligenciável o fato de que isto, a que chama tranquilamente ‘o mundo islâmico’, não faça parte de um ‘consenso’ geral que, segundo ele, parece tirar como consequência a ‘democracia liberal’, pode-se formular uma hipótese, ao menos, a partir do ângulo que Fukuyama escolhe privilegiar no triângulo escatológico. O modelo de Estado liberal que ele reivindica explicitamente não é somente o de Hegel, do Hegel da luta pelo reconhecimento, é o de um Hegel que privilegia a ‘visão cristã’ […]. Esse fim da história constitui essencialmente uma escatologia cristã” (Idem, Ibidem).

[9] “[…] Valeria mais a pena perguntar-se por que esse livro, com a ‘boa nova’ que pretende trazer, tornou-se semelhante gadget midiático, e por que faz furor em todos os supermercados ideológicos de um Ocidente ansioso. Compra-se esse livro, aí, como se corre atrás de açúcar e de óleo, quando estes ainda restam, aos primeiros rumores de guerra. Por que essa ampliação midiática? E como um discurso desse tipo é buscado por aqueles que só cantam a vitória do capitalismo liberal e de sua aliança predestinada com a democracia para dissimular, e primeiramente a si mesmo, que, em tempo algum, esse triunfo esteve mais ameaçado, nem foi tão crítico, frágil, e até mesmo, sob certos pontos de vista, catastrófico, e mais enlutado?” (Derrida, 1994, p.90)

ACERCA DO CONTEMPORÂNEO [2° EIXO]

ACERCA DO CONTEMPORÂNEO [2° EIXO]

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Antes de seguirmos para uma apresentação e análise dos discursos aceleracionistas pós-capitalistas, será necessário, neste eixo da pesquisa, fazer uma reflexão acerca das proposições teóricas centrais para uma compreensão do contemporâneo – salientando as noções de singularidade e antropotécnica, como vimos, no campo estritamente filosófico; e, agora, as de fluxos midiáticos associativos e sujeição social/servidão maquínica, no campo filosófico-político.

Como compreender contemporaneamente a relação humano-máquina? Uma investigação mais apurada sobre o progresso tecnocientífico e de superação da dicotomia filosófica humano/máquina pode nos levar a enfrentar, de forma adequada, uma faceta importante do estado atual da política com as atuais materialidades de mídias. Sem dúvida, a devoção tecnocrática-escatológica ao progresso e sua utopia de “abundância”, isto é, sua devoção às máquinas técnicas, auferem-nos algo: constrói-se uma noção fechada de máquina, que não se vincula à perspectiva de realidade transindividual em que estas, na verdade, deveriam ser observadas – ou seja, nos “hibridismo dos reinos”, lugar em que “[…] os discursos críticos não deveriam apoiar-se num humanismo universalista sob pena de passarem ao largo do que constitui os agenciamentos contemporâneos e sua força” (Pelbart, 2013, p.124).

Tal como pensamos, a partir de uma interpretação dos dois tomos de Capitalismo e Esquizofrenia, a máquina, perfaz uma noção aberta – multiplicidades, alteridades, agenciamentos –, de “fluxos associativos” (Deleuze; Guattari, 1972), que podemos expressar por sua adjetivação, a maquinação, enquanto “zonas de proximidades e de indecernibilidade”, sistema de fluxos e “cortes”, satisfazendo planos de consistência entre os seres orgânicos e inorgânicos.

Máquinas como fluxos midiáticos associativos Parte-se, pois, de uma recuperação e atualização da perspectiva epistemológica aberta por Deleuze e Guattari (não nos restringirmos a eles). Ora, o primeiro tomo de Capitalismo e Esquizofrenia (O Anti-Édipo) realizou uma releitura das obras de Marx e Freud (e dos marxismos e freudismos), criticando centralmente as posições naturalistas, mecanicistas ou reducionistas acerca do que vem a ser o humano e sua socialização. Influenciados principalmente por Gilbert Simondon, Deleuze e Guattari pensam uma teoria sociotécnica a partir das associações de máquinas técnicas, desejantes e sociais, estando interessados em expressar a ideia do humano e do mundo em um conceito bem peculiar de máquina, no qual abrange os variados aspectos da realidade[1]. De tal forma, no diálogo crítico com a teoria da psicanálise e na proposição da esquizoanálise do livro, a política dos desejos não se encontra hipostasiada e determinada por parâmetros de performatividade pré-codificados, mas, sim, inserida em uma política de fluxos midiáticos associativos – maquinações.

Hoje, as máquinas técnicas estão longe de serem determinadas por finalidades únicas. Ao ultrapassarmos o paradigma da era mecânica e entrarmos no paradigma da era algorítmica (Galloway, 2013; Serres, 2004; Rouvroy; Berns, 2013), as máquinas se tornaram, por excelência, descentralizadas e sem-finalidades a priori (e, precisamente, isso ocorre justamente no momento em que surgem os discursos de singularidade tecnológica). Assim, não estaríamos mais na era do homo faber, “que constrói ferramentas pela sua utilidade, que actualiza máquinas tendo em vista uma finalidade” (Serres, 2004, p.77). A partir da invenção das máquinas algorítmicas começamos a nos afastar da era mecânica, uma vez que estas máquinas trazem uma novidade: elas são universais, ao mesmo tempo, teóricas e práticas. As máquinas servem para todas as coisas “[…] e ainda para mil outras, justamente porque não servem para nada. Diferenciadas, universais, transferem o projecto de utilidade do construtor para o utilizador, que as emprega como lhe apraz e como lhe parece” (Idem, Ibidem).

Fluxos midiáticos associativos e capitalismo contemporâneo – Com a ascensão das máquinas algorítmicas, e com a maximização das maquinações, o capitalismo contemporâneo – chamado muitas vezes de cognitivo – tornou-se cada vez mais um amálgama de operações diversas no espaço-tempo: operações de movimentações (de matérias-primas, técnicas, humanos,…), de comparações (de lucros, culturas, informações, forças de trabalho,…) e de capturas (de territórios, tempos, grupos humanos,…) que ganham complexidade e potenciais inéditos de fluxos midiáticos associativos centralizados e descentralizados sócio-politicamente (Galloway, 2007). Assim, nos hibridismos dos reinos, Deleuze e Guattari cultivaram um universo conceitual próprio. Assim, noções como subjetividade, agenciamento e individuação aparecem como inovações nos campos social, político e econômico[2]; e revelam novas formas de subjetividades e de exploração capital-trabalho criadas pelas maquinações capitalista[3] – explicitadas no segundo tomo de Capitalismo e Esquizofrenia (Mil Platôs).

Deleuze e Guattari afirmam: com as “máquinas da cibernética e da informática […], a relação do homem e da máquina se faz em termos de comunicação mútua interior e não mais de uso ou de ação” (Deleuze; Guattari, 1997, p.169, grifo nosso). Em Mil Platôs[4], o capitalismo apareceria como uma “empresa mundial de subjetivação”; porém, somente aparecia, sob um Estado garantindo as “axiomáticas do capital”[5] nas populações. Capitalismo e Estado atuariam a partir de duas palavras-chave intimamente conexas para apreender os movimentos de liberação (inovação perene e ilimitada) e de contenção (codificação retroativa) das populações. Para os autores, na conjunção contemporânea dessas duas palavras-chave, isto é, na expansão do Estado liberal capitalista da era algorítmica, as populações se encontram constantemente em domínios que almejam reduzir seus modos de existência a partir do duplo movimento de produção/exploração –: de sujeição social e servidão maquínica[6].

[1] “Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões. […] Toda máquina está, em primeiro lugar, em relação com um fluxo material contínuo (hylê) que ela corta” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 11; 55). A máquina é, de tal modo, um “sistema de cortes” que não significa separação de realidades (de completude, de subtancialização ou de isolamento), mas, pelo contrário, operações de extração de “fluxos associativos”, isto é, de maquinações – nas ordens do desejo, do técnico e do social. Na teoria sócio-técnica dos autores, é este sistema que continuamente engendra e torna possível compreender as produções sociais (ações, paixões,…), as distribuições técnicas (registros, marcações,…) e os consumos e desejos (volúpias, angústias, dores,…) das formações sociais como um todo.

[2] Na esteira de Deleuze e Guattari, considerações como as de Paolo Virno, por exemplo, articulam bem as consequências de pensar os coletivos a partir deste novo universo conceitual, estabelecendo, enfim, um determinado tom político: “O que aqui está em causa é a conceituação do campo de coincidência imediata entre produção e ética, estrutura e superestrutura, entre a revolução do processo de trabalho e da revolução de sentimentos, entre a tecnologia e a tonalidade emocional, entre o desenvolvimento material e cultural […]. Se não formos capazes de perceber os pontos de identidade entre as práticas de trabalho e modos de vida, não iremos compreender nada das mudanças que ocorrem na produção atual e não compreenderemos muito sobre as formas de cultura contemporânea” (Virno, 1996, p.268).

[3] “[No capitalismo contemporâneo,] “por um lado, o indivíduo leva a subjetivação ao clímax, já que provoca nela, no curso de sua atividade, todos os recursos ‘imateriais’ e ‘cognitivos’ de ‘si mesmo’; por outro lado, faz coincidir subjetivação e exploração, uma vez que o indivíduo é, ao mesmo tempo, patrão de si mesmo e escravo de si mesmo, capitalista e proletário, sujeito de enunciação e sujeito de enunciado” (Lazzarato, 2007).

[4] Neste segundo tomo, os discursos em relação às maquinações aponta diretamente para uma teoria política e sociológica, propondo a “resistência das minorias” e suas “políticas de subjetivações”, isto é, propondo política de liberação por desterritorialização da vida submetida às axiomáticas do Estado e das empresas.

[5] Deleuze e Guattari (1997, p.334) escrevem: “Em suma, a conjunção dos fluxos descodificados, suas relações diferenciais e as suas múltiplas esquizas ou fraturas, exigem toda uma regulação cujo principal órgão é o Estado. O Estado capitalista é o regulador dos fluxos descodificados como tais, enquanto tomados na axiomática do capital”. E Sibertin-Blanc (2013, p.150-151) esclarece: “O conceito de axiomática é introduzido em 1972 para pensar, primeiramente, não apenas a especificidade da ‘relação social’ capitalista, mas a forma singular que o capitalismo confere à relação social. Ele é, ainda, determinado diferencialmente pela relação com os outros conceitos da relação social (código, sobrecodificações), destacando imediatamente a temática sobre um terreno duplo: uma antropologia econômica, e uma analítica do modo de produção capitalista, esta última mobilizando um exame triplo, genealógico, estrutural e dinâmico-tendencial”.

[6] A sujeição social aparece enquanto processo de assujeitamento (o “cinismo ‘humanista’”, como interpreta Lazzarato, 2010), de normalização ou governamentalidade das populações a partir de um sistema homem-máquina. É o regime que – como conjecturou Marx e Foucault atualizou e apurou – sujeita os indivíduos à máquina social, segundo discursos, ideologias, ordens de segmentação de poderes etc., buscando agenciar a formação do trabalhador-empresário, o consumidor, o soldado, os gêneros e diversos governos de modos de vida na cidade. Um tipo de poder molar que pode ser identificável, manipulável e quantificável. Na era algorítmica, seria preciso falar também de servidão maquínica, enquanto segunda natureza de produção/exploração; segunda modalidade de maquinação da subjetividade no capitalismo – trabalhando simultaneamente e complementarmente, em movimentos, aqui negativos, de (re)codificação (sujeição social) e de descodificação de cunho servil (servidão maquínica). A servidão maquínica corresponderia, pois, ao sistema homens-máquinas (no plural). Neste sistema, não seria mais a partir de discursos e outras “falas” (semióticas significantes) que as maquinações irromperiam, mas sim a partir da modalidade de semiótica assignificante, que atuam como “maquinações inconscientes”, não quantificáveis ou identificáveis linear e antropocentricamente: códigos, procedimentos, equações, gráficos, índices, diagramas etc. O regime no qual os indivíduos são submetidos às máquinas técnicas multiplicadas na era algorítmica. Na multiplicação das ações destas máquinas, ocorreria a fragmentação do sujeito (agora, o “cinismo ‘desumanizante’”), onde o sujeito é “despedaçado” nos agenciamentos técnicos de nível molecular, tanto em relação ao seu corpo-ação (tendendo a ser apêndice; peça; ferramenta) como em relação ao seu corpo-mente (tendendo a ser utilidade capitalista para alguma inteligência, afeto, sensação, cognição, memória). A servidão maquínica seria, enfim, o modo como as volições e as ações capitalistas buscariam manifestar o híbrido, a simetria, a horizontalidade humano-técnica e os espaços de desantromorfização e transindividuação.

*POLITIZANDO AS TECNOLOGIAS – tecnopolíticas aceleracionistas – [estudos pós-doc]
APRESENTAÇÃO [links]: https://maelstromlife.wordpress.com/category/1-politizando-as-tecnologias-estudos-pos-doc-2016-2019/ 

ACELERACIONISTAS PÓS-CAPITALISTAS [3°EIXO]

ACELERACIONISTAS PÓS-CAPITALISTAS [3°EIXO]

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Ao realizarmos pesquisa envolvendo (1) apresentação dos discursos tecnocrático-escatológicos dos aceleracionistas capitalistas, (2) análise conceitual crítica (singularidade, pós-humano), (3) e a teoria acerca do contemporâneo (fluxos midiáticos associativos, sujeição social/servidão maquínica), acreditamos ser agora possível desenvolver, nos dois últimos eixos, a outra visão exposta na introdução do projeto: a proposição dos aceleracionistas pós-capitalistas de “acelerar o processo”, a partir de uma certa interpretação das obras políticas de Deleuze e Guattari. Impetraremos o mesmo procedimento investigativo: como compreender e periodizar os variados discursos pluralistas-prometéicos que vem sendo os centrais valores aglutinadores dos aceleracionistas pós-capitalistas?

Compreensão – No início da década de 1970, Deleuze e Guattari, como escreve Pelbart (2013, p.121), apostavam que o combate à conjunção niilismo (reativo) e capitalismo só poderia se dar “[…] a partir do niilismo que se pretende ultrapassar, voltando contra ele mesmo […]”, de modo que, o contramovimento não significaria: “[…] sustar, frear, bloquear a escalada do niilismo, mas justamente intensificá-lo, esgotá-lo, levá-lo a seu termo, fazer com que se complete e retorná-lo contra si”. Os autores vislumbravam assim um niilismo ativo, elegendo acelerar os processos de descodificação-desterritorialização; em outras palavras, de forma indagativa: advogavam um determinado liberalismo político, de avanço das “forças produtivas”, de avanço das inovações de forma a criar condições de possibilidades democráticas a partir de contínuas descodificação-desterritorialização?

Se Deleuze e Guattari, como vimos, nos afastam de mecanicismos, naturalismos e reducionismo; se eles nos dissuadem, portanto, de horizontes tecnocráticos-escatológicos; e, sobretudo, se eles nos concedem elementos para pensarmos a singularidade, a realidade intensiva ou transindividual, a maquinação e a ambivalência positiva/negativa da produção de subjetividades e a exploração destas – no âmbito da sujeição social e da servidão maquínica da era algorítmica –, podemos compreender que a posição prometéica dos aceleracionistas pós-capitalistas se manteria reflexiva, isto é, buscando superar diagnósticos filosófico de afirmações (mesmo que críticos, como em Lyotard) das tecnocracias-escatologias contemporâneas.

As aberturas filosóficas e políticas de tais autores procurariam então validar diferentes “mundos possíveis”. E seus propósitos de crítica imanente ao capitalismo e de resistências estariam baseados em contraperformatividades: afirmando a partir dos agenciamentos maquínicos e, ao mesmo tempo, ativando as desmontagens e remontagens de subjetividades e de construções políticas. Assim, ao procurarmos compreender os discursos tecnopolíticos dos aceleracionistas pós-capitalistas, seria preciso evidenciar tais aberturas filosóficas e políticas, acrescentando que os partidários destes discursos anseiam, especificamente, a aceleração das mutações e formas desviantes de materialidades de mídias, nas quais caracterizariam peculiares conformações de sentidos, práticas, afetos, sonhos –: que expressariam outra cultura política: novas singularidades coletivas de democracia digital. Mas, contudo, de que forma poderíamos trabalhar a genealogia deste tipo de teorização tecnopolítica?

Periodização – No início do século XXI, tentando escapar do duplo movimento (liberação/controle), Antonio Negri e Michael Hardt publicaram o livro Império, posicionando-se em relação ao pensamento e à indicação de “acelerar o processo” de Deleuze e Guattari, para os quais respondiam propondo fomentar nova teoria tecnopolítica. Essa não almejaria somente resistir, mas, sobretudo, apostar que, por meio das reais descentralizações midiáticas, poder-se-ia realizar uma crítica imanente ao capitalismo (cognitivo, “imaterial”)[1].

Negri e Hardt seriam uns dos pioneiros na proposição de teorizações tecnopolíticas que visaram, fundamentalmente, produzir mudanças no modo de pensar da esquerda tradicional[2]. E no conjunto dessas proposições, destaca-se hoje a teoria aceleracionista, sendo nessa relevante alguns marcos bem recentes, importantes para as leituras e estudos no presente eixo. Em 2013, é publicado e “viralizado” na Internet um manifesto intitulado #Accelerate manifesto: for an accelerationist politics, assinado por Alex Williams e Nick Snircek[3]; e, em 2014, Robin Mackay e Armen Avanessian publicam #Accelerate: The Accelerationist Reader (Mackay; Avanessian, 2014), livro no qual organizam e republicam textos clássicos e contemporâneos (27 autores) que inspiram pensamentos tecnopolíticos, tais como: Marx (Fragment on Machines); Veblen (The Machine Process and the Natural Decay of the Business Enterprise); Lipovetsky (Power of Repetition). Seguem dois trechos do referido manifesto #Accelerate, que ressaltam aspectos políticos contextuais ou conjunturais:

Que as forças do poder governamental, não-governamental e corporativo, de direita, tenham sido capazes de fazer pressão com a neoliberalização é, ao menos em parte, um resultado da paralisia contínua e da natureza ineficaz de muito do que resta da esquerda. Trinta anos de neoliberalismo tornaram a maioria dos partidos políticos de esquerda desprovida de pensamento radical, esvaziada e sem um mandato popular. Na melhor das hipóteses, eles responderam a nossa presente crise com chamados a um retorno à economia keynesiana […]. Os novos movimentos sociais que emergiram a partir do fim da Guerra Fria, experimentando um ressurgimento nos anos após 2008, foram igualmente incapazes de conceber uma nova visão ideológico-política. Ao invés disso, eles consomem uma considerável energia em processos direto-democráticos internos e numa autovalorização afetiva dissociada da eficácia estratégica, e frequentemente propõem alguma variante de um localismo neoprimitivista, como se, para fazer oposição à violência abstrata do capital globalizado, fosse suficiente a frágil e efêmera “autenticidade” do imediatismo comunal.

Aceleracionistas querem libertar as forças produtivas latentes. Nesse projeto, a plataforma material do neoliberalismo não precisa ser destruída. Precisa ser reaproveitada para fins comuns. A infraestrutura existente não é um estágio capitalista a ser esmagado, mas um trampolim para lançar o pós-capitalismo.

Negri, em artigo de 2014, publicado na revista E-flux, comenta o manifesto como tendo, de maneira geral, um saldo positivo, salientando a capacidade dos aceleracionistas pós-capitalistas ajudarem a compreender, de maneira produtiva e propositiva, acerca das materialidades “revolucionárias” do mundo contemporâneo.

O argumento do Manifesto por um Aceleracionismo Político baseia-se inteiramente nesta capacidade de liberar as forças produtivas do trabalho cognitivo. Temos de remover qualquer ilusão de um retorno ao trabalho fordista; temos de finalmente compreender a mudança da hegemonia do trabalho material para a hegemonia do trabalho imaterial. Portanto, considerando o comando do capital sobre a tecnologia, é necessário atacar a ‘abordagem cada vez mais retrógrada do capital à tecnologia’. Forças produtivas são limitadas pelo comando do capital. A questão fundamental é, em seguida, libertar as forças produtivas latentes, como o materialismo revolucionário sempre fez. É nesta ‘latência’ que temos agora de habitar” (Negri, 2014, p.3).

Tais teorizações políticas, procurariam assim, acima de tudo, fazer prosperar um novo pensamento sobre a práxis, sobre a política[4]. A partir de ambientes intelectuais e práticos-experimentais e abertos[5], acenderiam sentidos positivos de crítica, de dissenso e imaginação de um novo mundo possível – algo distinto do horizonte centrado em um pólo tecnológico (“fechado”, planificado para disrupções de mercados a partir de think-tanks, start-ups).

5° Eixo: Análise crítica dos aceleracionistas pós-capitalistas

Para tentarmos refletir criticamente sobre o horizonte pluralista-prometéico – algo que desperta controvérsias –, sem contudo simplesmente voltarmos contra tais discursos aceleracionistas, será imprescindível, neste eixo de pesquisa, seguirmos com as análises genealógicas-conceituais críticas, aprofundando ideias e propondo discussões, agora a partir de outros dois pontos: 1. A noção de materialidades de mídias; 2. E o posicionamento em relação à perspectiva de acelerar o processo.

Materialidades de mídias – Para nós, os aceleracionistas pós-capitalistas estariam certos ao salientarem a questão das materialidades –: seus designs, arquiteturas, formas de fluxos e agenciamentos, desempenhos algorítmicos etc., para a construção de subjetivações políticas. Ora, tudo isso nunca surgem a partir de uma política “pura”[6]. E mais ainda: “A verdadeira estrutura do poder é a organização material, tecnológica, física deste mundo. O governo não está mais no governo” (Comitê invisível apud Pelbart, 2015, p.165). Mas, de tal modo, podemos indagar: tais aceleracionistas salientariam também hoje que o poder não se refere mais fundamentalmente a uma instituição ou pessoa, mas nas governamentalidades? Se sim, de que forma pensariam a emancipação e o poder a partir das materialidades de mídias?

Para Terranova (2014), por exemplo, em seu artigo Red stack attack!, publicado no referido livro The Accelerationist Reader, a ênfase recai sobre as possibilidades das materialidades de comunicação e informação, especificamente, no que diz respeito ao design e ao algoritmo. A autora destaca a centralidade dos algoritmos hoje, que vão além de ser commodities, pois perfazem diretamente contextos, valores estéticos, éticos, políticos. Práticas sociais de produção e circulação, planejamentos e designs ambientes urbanos e em diferentes áreas (medicina, marketing, games etc.) e expressões criativas (música, desenhos, danças etc.) vêm sendo integrados às plataformas algorítmicas. Para ele, nesta conformação, três assuntos necessitariam de fortes politizações e criações alternativas: a criação de novas formas de trocas (moedas virtuais descentralizadas[7]), de redes sociais livres e de designs de dispositivos para ativar reais sensibilidades e sociabilidades (bio-hipermídias[8]).

Os aceleracionistas pós-capitalistas vêm levantando questões políticas urgentes. Contudo, devemos buscar compreender e esclarecer que o dimensionamento político e atarefamento teórico-prático acerca da relação democracia digital e materialidades de mídias não são exclusivos e originários destes. Podemos encontrar autores pioneiros e reconhecidos como Gerald Raunig (Factories of Knowledge, Industries of Creativity, 2013; Dividuum : machinic capitalism and molecular revolution, 2016) e Pierre Lévy (Ciberdemocracia, 2003; La sphère sémantique: computation, cognition, économie de l’information [tome 1], 2011) – e ainda Lev Manovich (códigos: softwares); Sloterdijk (arquiteturas: “esferas/espumas”); Nicolas Nova (designs: ambientes atuais-virtuais); Dominique Cardon (estruturas: internet); Mark Poster (fluxos/agenciamentos: informação) – que, apesar de diferentes temperamentos políticos de “esquerda” –, vem contribuindo para compreensões e proposições acerca. Estes autores buscam, como os aceleracionistas, novas ferramentas teóricas-e-práticas para potenciar expressões políticas e inteligências coletivas; potencializar as coexistências múltiplas de pessoas e coisas e os espaços conjuntos; fortalecer movimentos sociais, de resistências; ampliar os espaços colaborativos, não-hierárquicos e emancipatórios; ampliar ad formas de acompanhamento e de denúncia de ações corporativas e dos Estados, fortalecendo as capacidade de exercício de cidadania e dos direitos, para a diversidade, discussão pública, decisões participativas, deliberativas, transparentes, plurais –: não obstante, sem advogar um horizonte aceleracionista.

Acelerar? – O capitalismo, não sendo uma estrutura ou sistema fechado, “acabado”, está em constantes mutações e competições, buscando suas materialidades diversas para garantir produtividades/explorações, apropriações, controles: sujeições sociais e servidão maquínica. A partir disto, o mundo é imperativamente o da velocidade, de “destruição criativa”. É o mundo da aceleração. Assim sendo, caberia uma pergunta-chave no presente eixo: em uma época de enorme destruição do planeta – de enorme sensibilização sobre a dimensão antropocênica –, de que maneira a versão prometéica dos aceleracionista pós-capitalistas se distinguiria da dos aceleracionistas capitalistas? Em outras palavras, em variante polêmica: ambos os aceleracionistas não estariam dentro da lógica dos modernos – aquela mais cruel –, de destruição da Gaia – um demandando a maximização dos lucros, da abundância; outro buscando a “redenção” revolucionária? Estariam assim, os aceleracionistas pós-capitalistas, demarcando um (velho) messianismo (de um certo marxismo) acerca do desenvolvimento libertador das forças produtivas e, tão logo, movimentando também – de certa maneira, e em paralelo com aqueles que criticam – outra escatologia?

Diante dos questionamentos acima, poderíamos pesquisar e debater – como fazem Danowski e Viveiros de Castro (2014), Pelbart (2015), Clastres (2003) – se, ao contrário, deveríamos fazer prosperar um pensamento político que almejasse a desaceleração, o ralentamento, uma nova ecologia política – algo que os ameríndios teriam muito a nos ensinar[9].

Bifo (2013), autor que reflete sobre as reinvenções de sociabilidades-afetividades, de inteligência coletiva a partir das plataformas tecno-poéticas e de colaborações cognitivas, deixa-nos um debate importante: as capacidades de metabolizar informações, criar experiências de singularidades coletivas em meio a uma vida altamente acelerada, em que as mutações tecnológicas ocorrem com maior rapidez que as mutações mentais-sociais, não estariam sobrecarregando e bloqueando as mutações das últimas? Apesar de se mostrar amigável com aqueles que se manifestam a partir de uma “concepção materialista e imanentista extremadas” – aceleracionista –, Bifo adverte que, hoje, “acelerar” pode significar interrupções de produção de singularidade –: de experiências, desensibilizações; de redução dos modos de existência à meros estímulos. Desterritorização-descodificação não seria sinônimo imediato de autonomia (criação de singularidade, emancipação)[10].

A questão é acelerar ou permitir criações, desvios, experiências, diferenças, singularidades coletivas a partir deste novo mundo descentralizado pelo digital? Em relação a essa pergunta, caberia a prevenção reflexiva e a indicação de pesquisa de Pelbart (2013, p.123): “Sabemos que o capitalismo pode muito contra isso as desterritorializações, e muito mais do que na época se acreditava, mas talvez, também, muito menos. Em todo caso, hoje, uma tal avaliação demandaria uma ‘atualização’ minuciosa”[11].

Fazer política ou fazer democracia vem a ser, hoje, a criação de novos espaços de vida. Rancière (2005), mesmo que tenha deixado de lado a discussão urgente acerca das relações entre materialidades e a democracia, esclarece-nos que, longe de ser um ambiente institucional, a democracia – o processo de luta contínua contra a privatização da esfera pública –, nunca se define, em última instância, por uma forma de governo, ou uma constituição, mas pelo encontro e conflito entre as lógicas oposta da política (o governo de “qualquer um”; a possibilidade do dissenso) e da polícia (a separação, hierarquização e gestão das competências sociais; a formatação do consenso). A democracia seria, então, emancipação de múltiplas formas, materialidades, estéticas. Isto vem a ser particularmente significativo para se refletir e debater acerca das proposições tecnopolíticas levantadas, para os quais caberia perguntar: como a democracia é compreendida por tais aceleracionistas? A partir da fomentação de materialidades, buscariam por que e qual tipo de insurreição e novo poder constituinte? Afinal, na luta contra as sociedades oligárquicas-democráticas, ou melhor, na luta a favor das materialidades de mídias para o chamado Open Government, qual figura-central admitiriam esses aceleracionistas, a do hacker (dissenso) ou a do engenheiro (consenso)[12]?

[1] “Deleuze e Guattari sustentaram que melhor do que resistir à globalização do capital é acelerarmos o processo. ‘Mas qual é’, perguntam eles, ‘o caminho revolucionário? Existe? – Sair do mercado mundial…? Ou será que se deve ir na direção oposta? Avançar ainda mais no movimento de mercado, de decodificação e desterritorialização?’. O Império só pode ser efetivamente contestado em seu próprio nível de generalidade, e levando-se os processos que ele oferece para além de suas limitações atuais. Temos de aceitar o desafio e aprender a pensar e agir globalmente. A globalização precisa ser enfrentada com uma contraglobalização, o Império com um contra-Império” (Negri; Hardt, 2001, p.226-227, grifo nosso).

[2] A esquerda tradicional teria sempre apostado na crítica e na mobilização via quebra, paralisação ou revolução do modo de produção capitalista, normalmente desconjurando ou combatendo as ideias de subversão, desvios, détournement a partir de “dentro” do capitalismo.

[3] Tais autores fazem coautoria na obra recém-lançada Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work (Verso, 2015) e Snircek anuncia a publicação de Postcapitalist Technologies (Polity, 2016). Obras que pretendem trazer diretrizes e proposições para as suas visões políticas.

[4] Para se ter uma ideia das discussões acadêmicas no Brasil a respeito, consultar, por exemplo, a edição n°42, 2014, da revista Lugar Comum [on-line]. (Para, do mesmo modo, analisar a penetração das ideias dos aceleracionistas capitalista, ver o recente artigo de Squirra, 2016).

[5] Contemporaneamente surgem diferentes coletivos (FabLabs, Hackerspaces, Wikispaces, Crowndfunding) e ambientes (plataformas colaborativas; programas para monitorar contas, obras públicas; programas para acompanhar representantes públicos; para acessar informações, fazer projetos educativos e artísticos, etc.) buscando a criação de materialidades de mídias para a ampliação de esferas públicas democráticas. Um dos últimos alcances importantes desses ambientes/coletivos talvez seja o lançamento, em Berlim, do blockchain Ethereum (https://www.ethereum.org/), almejando garantir bases algorítmicas para construção de plataformas digitais mais seguras e sofisticadas para compor inéditos procedimentos democráticos.

[6] “Dizer, como Badiou ou Rancière, que a subjetivação política não é dedutível à economia, é bem diferente do fato de colocar a questão a partir de sua articulação paradoxal. O primeiro caso ilustra a ilusão de uma política ‘pura’, porque a subjetivação não se articula a nada, nunca espera uma consistência necessária para existir; a segunda, ao contrário, abre canteiros de experimentação e de construção política, uma vez que ela deve, se ela deseja existir e ter consistência, operar uma ruptura, atravessando e reconfigurando o econômico, o social, o político etc.” (Lazzarato, 2011, p.44).

[7] As atuais inovações em moedas virtuais decentralizadas ajudariam a demarcar possibilidades de novas topologias, de espaços comuns, compartilhados, via algoritmos. Sobre o assunto, a autora faz uma série de indagações. A questão central seria: como podemos tornar as financias monetárias em moedas do comum (money of the common)? As questões específicas: “An experiment such as Bitcoin demonstrates that in a way ‘the taboo on money has been broken’, and that beyond the limits of this experience, forkings are already developing in different directions. What kind of relationship can be established between the algorithms of money-creation and ‘a constituent practice which affirms other criteria for the measurement of wealth, valorizing new and old collective needs outside the logic of finance? […]. Is the currency created not limited solely to being a means of exchange, but can it also affect the entire cycle of money creation-from finance to exchange? Does it allow speculation and hoarding, or does it promote investment in post-capitalist projects and facilitate freedom from exploitation, autonomy of organization etc.? What is becoming increasingly clear is that algorithms are an essential part of the process of creation of the money of the common, but that algorithms also have politics (What are the gendered politics of individual ‘mining’, for example, and of the complex technical knowledge and machinery implied in mining bitcoins?” (Terranova, 2014, p.391-392).

[8] “The term bio-hypermedia, coined by Giorgio Griziotti, identifies the ever more intimate relation between bodies and devices which is part of the diffusion of smart phones, tablet computers and ubiquitous computation. As digital networks shift away from the centrality of the desktop or even laptop machine towards smaller, portable devices, a new social and technical landscape emerges around ‘apps’ and ‘clouds’ which directly ‘intervene in how we feel, perceive and understand the world’ (Terranova, 2014, p.395).

[9] Citando Danowski; Viveiros de Castro, Pelbart (2015, p.162) escreve: “Uma coisa é certa: os coletivos ameríndios, com suas populações comparativamente modestas, suas tecnologias relativamente simples mas abertas a agenciamentos sincréticos de alta intensidade, são uma ‘figuração do futuro’, não uma sobrevivência do passado. Mestres da bricolagem tecnoprimitivista e da metamorfose político metafísica, eles são uma das chances possíveis, em verdade, da subsistência do futuro. Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. ‘Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele’”.

[10] Bifo (2013) lembra que, entre Anti-Édipo e O que é a filosofia?, isto é, entre 1972 e 1992, Deleuze e Guattari teriam mudado bastante. “[…] Durante este período, a globalização econômica e a revolução info-tecnológica intensificaram os efeitos da aceleração no corpo desejante”, e os efeitos da aceleração maquínica na subjetividade social seriam outros. Em Deleuze e Guattari, isto transpareceria na reversão problemática quando abordam a relação entre o “caos” (disrupções tecnológicas?) e o “cérebro” (subjetivações?). Em O que é a filosofia?, os filósofos escreveram: “Queremos apenas um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais estressante do que o pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparece apenas esboçadas, erodidas pelo esquecimento ou precitadas em outras, que do mesmo modo não dominamos” (Deleuze; Guattari apud Bifo, 2013, p.3).

[11] O autor nos indica as seguintes referências a serem consultadas durante a pesquisa: Julian Ferreyra, L’ontologie du capitalisme chez Gilles Deleuze (2010) e Akseli Virtanen, Poder arbitrário: Crítica da economia biopolítica (prelo), além de Sibertin-Blanc (2013).

[12] Conforme distingue Comitê invisível (2014, p.126), enquanto a figura do engenheiro se posiciona como um agente policial que vem fazer com que o mundo funcione, da melhor forma possível, de acordo com um sistema; a figura do hacker, por sua vez, busca encontrar as falhas, inventar outros usos, experimentar, isto é, liberar novos ethos a partir de suas experimentações técnicas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [dos três Eixos, e desta Introdução]:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [dos três Eixos, e desta Introdução]:

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*POLITIZANDO AS TECNOLOGIAS – tecnopolíticas aceleracionistas – [estudos pós-doc]

APRESENTAÇÃO

https://maelstromlife.wordpress.com/category/1-politizando-as-tecnologias-estudos-pos-doc-2016-2019/

1° EIXO: ACELERACIONISTAS CAPITALISTAS:

– Compreender e periodizar: como compreender e periodizar os aceleracionistas capitalistas?

– Análise crítica: de que forma podemos entrar e aprofundar nos debates críticos a partir de duas noções centrais dos aceleracionistas capitalistas – singularidade e pós-humanismo?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/24/1287/

2° EIXO: PROPOSIÇÕES SOBRE O CONTEMPORÂNEO:

– Como pensarmos contemporaneamente a relação humano-máquina?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/23/acerca-do-contemporaneo-2-eixo/

3° EIXO: ACELERACIONISTAS PÓS-CAPITALISTAS:

– Compreender e periodizar: como compreender e periodizar os aceleracionistas pós-capitalistas?

– Análise crítica: de que modo forma podemos entrar e aprofundar nos debates críticos a partir de duas noções centrais dos aceleracionista críticos – materialidades de mídias e o acelerar?

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/22/1301/

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [dos três eixos, e desta Introdução]:

Link: https://maelstromlife.wordpress.com/2016/02/21/referencias-bibliograficas-dos-tres-eixos-e-desta-introducao/

 

SOBRE A ENQUETE COM INTELECTUAIS DA FOLHA

SOBRE A ENQUETE COM INTELECTUAIS DA FOLHA 

[13-04-2016]

banco de dados

Ednei de Genaro, mestre em Sociologia Política, doutor em Comunicação.

Robson Gabioneta, mestre em Filosofia.

 

“Não teve Fla-Flu”

É com tom de desdém que a Folha de S. Paulo anunciou: “É previsível que entre a intelligentsia as visões contrárias ao impedimento prevaleçam”. Reduziu-se a isto a “análise” da matéria do domingo (10/04/2016) A favor ou contra o impeachment? Intelectuais respondem enquete (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/04/1758968-a-favor-ou-contra-o-impeachment-intelectuais-respondem-enquete.shtml). O levantamento, que poderia ser a sua principal notícia do dia, a capa do jornal impresso, e ter ampla divulgação e análises, acabou sendo deixado como uma espécie de “banco de dados”. O leitor simplesmente seleciona os arquivos em um menu.

A contribuição do presente artigo é, pois, tentar fazer aquilo que o jornal renunciou. E comecemos pelos números e demais explicações bem gerais, que também não foram divulgadas. Foram 31 intelectuais entrevistados, ou melhor, encurralados a responder se são contra ou a favor do impeachment. Cada um entregando seu breve texto a Folha. O resultado? “Vitória”, de lavada, dos contra: 20 a 8 – com 3 ficando “em cima do muro”.

A favor: Roberto Damatta (79, antropólogo), Jean Marcel Carvalho França (49, historiador), Ferreira Gullar (85, poeta, crítico), Boris Fausto (85, historiador), Eduardo Gianetti da Fonseca (59, economista), Fernando Henrique Cardozo (84, sociólogo e político), Carlos Pereira (51, cientista político), Bolívar Lamounier (72, cientista político).

Em cima do muro: José Murilo de Carvalho (76, cientista política e historiador), Joaquim Falcão (72, professor de direito), José Eli da Veiga (67, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP).

Contra: Zé Celso (79, diretor de teatro), Walter Sales (59, cineasta), Roberto Schwarz (77, crítico literário), Ricardo Antunes (63, sociólogo), Paulo Sérgio Pinheiro (72, cientista político), Paul Singer (84, economista), Nuno Ramos (56, artista plástico), Maria Rita Kehl (64, psicanalista), Luiz Gonzaga Belluzo (73, economista), Luiz Felipe de Alencastro (70, historiador), Laura de Mello e Souza (63, historiadora), José Miguel Wisnik (67, compositor, ensaísta, professor de literatura), Jessé Souza (56, sociólogo), Fernando Morais (69, jornalista e escritor), Fernando Limongi (58, cientista político), Delfim Netto (87, economista), , Antônio Risério (62, antropólogo, poeta, ensaísta), Antônio Cândido (97, sociólogo e crítico literário), Ângela Alonso (46, socióloga), Alcir Pécora (61, crítico literário)

Ora, não houve um jogão Fla-Flu que a Folha gostaria[1]. Veremos que não foi nem exatamente um jogo que ocorreu. Mesmo tendo escolhido os próprios jogadores, o jornal não conseguiu sequer montar um time a favor. (O elenco geral, no entanto, foi, digamos, incrivelmente experiente: calculamos e a idade média deu 70 anos!). Ao jornal, restou então o desdém, tentando, além de não analisar, deixar pra lá a divulgação. Não vimos a edição impressa. Quem vê hoje mesmo? Mas, na edição digital, já sabemos bem os “truques”: primeiro uma divulgação tímida, “lá embaixo”; depois, ela se transformando em signos de “vitória” do time com 8, tendo Boris Fausto estampado como o capitão da manchete, e, ao lado, na lista também dos intelectuais velhos colunistas do jornal, Ferreira Gullar.

Lembremos, antes de irmos aos lances mais importantes deste referido jogo. A Folha parece desatinada. Foi semana passada que ela escreveu o seu já histórico editorial (Nem Dilma nem Temer, de 02/04/2016), expressando seu tom melancólico fatalista-golpista a partir de três argumentos-chave: 1. A governabilidade impossível: Dilma “perdeu as condições de governar o país”; ela é “o” obstáculo “à recuperação do país”; 2. A maioria quer impeachment: “Formou-se imensa maioria favorável a seu impeachment” (Aqui, o verbo formar é interessante, e soa como um triunfo das corporações de mídias, com sua dose cavalar do sedativo “imobilista”, e da guerra diária contra o governo); 3. Deve haver no país, a começar por este jornal, respeito pleno à imparcialidade e à pluralidade: “Esta Folha continuará empenhando-se em publicar um resumo equilibrado dos fatos e um espectro plural de opiniões, mas passa a se incluir entre os que preferem a renúncia à deposição constitucional”. A situação do jornal não poderia ser mais problemática, e descreditada. Ora, não estando disposta – por motivos evidentes – a declarar apoio ao impeachment por meio do artifício “pedaladas”, faz contudo suas manobras para que ele de fato aconteça. Entre um dos incontáveis casos problemáticos, está o desprezo que acabou expressando com os intelectuais que ela entrevistou – como se pretendesse “arquivá-los” antes mesmo deles terem um protagonismo por meio do principal jornal do país

Observando as declarações dos intelectuais, podemos pensar que aquele “pesar” do jornal de que “o impeachment tenderá a deixar um rastro de ressentimento”, não vem definitivamente apenas de que uma “minoria expressiva” de partidários do PT se sentirá desta maneira. Ora, não é nem realmente o “ressentimento” que vai a campo – mas o sentimento de luta, alegre e corajoso, pela democracia. Descobrimos então que o time dos contra, não jogam para defender (ou destruir) uma camisa, um partido, mas pela democracia comum. O jogão Fla-Flu vem a ser, na verdade, impossível.

Após o Advogado Geral da União, José Eduardo Cardozo, desmontar, com uma hábil oratória que surpreendeu a todos, o dossiê político excessivamente anódino de Janaina Pascoal e Hélio Bicudo na Câmara, o que restou a Folha? “Pedaladas” jornalísticas? Por que o tema central em pauta, o que mais importante no momento, não vai ser a procedência ou não do dossiê político? Vejamos prontamente uma análise de Fernando Limongi: “O pedido assinado por Hélio Bicudo e outros juristas é, para dizer o mínimo, bem fraco e inconsistente. Cita mais Lula que Dilma e foi remendado na última hora, seguindo o pragmatismo de Eduardo Cunha que notou que 1) pedaladas, e não corrupção, deveriam ser o motivo do pedido e 2) que ele tinha que se referir ao mandato atual. O resultado é pífio, inconsistente – eu recomendo a leitura do pedido –, é uma colcha de retalhos. Argumentação e motivo não fecham”. E, seguindo tais circunstância, Nuno Ramos tem toda razão, ao dizer que, ao escancararmos a corrupção, “estamos assistindo, ao vivo e em cores, àquele circuito fechado que Raymundo Faoro”, e, do mesmo modo, “estamos também perdendo qualquer chance de enxergar neutralidade nos meios de comunicação, que parecem obviamente escolher quais destes híbridos alimentam, quais atacam. Nada disto é novidade, mas a explicitação contínua e crescente deste circuito é nova”.

A situação de polarização bipolar, doentia, epidêmica, foi então lançada aos entrevistados. Mas tal enquete bipolar não deu certo. Praticamente todos os 21 contrários não se posicionaram essencialmente em defesa do governo Dilma, do PT etc., mas sim em defesa da democracia, da constituição, do respeito ao voto, às eleições. A crise é estrutural, advertiu Alcir Pécora, e completou: “Não acho que a saída da presidente seja uma questão de opinião, mas sim de caracterização de algum crime previsto em lei para a justa aplicação da pena”. Enquanto Walter Salles, observando o cenário político, rememorou o roteiro de um livro-filme clássico: “Algo deve mudar para que tudo permaneça como está’, sugere Tomasi di Lampedusa em ‘O Leopardo’”.

Vejamos portanto quais poderiam ser os traços gerais de uma sociologia dos intelectuais com o “material bruto” deixado pelo plano da Folha.

“A favor”

Comecemos pelos a favor. Não há dúvida de que – também entre os intelectuais – a questão do impeachment transparecesse profundamente de forma política, sendo apregoada, pelos favoráveis, por intelectuais reconhecidamente de direita, e, no mais das vezes, conservadores. Qualquer argumentação ou justificação democrática, jurídico-constitucional, fica completamente esvaziada nos a favor. São a favor, e pronto. A favor, por via de um discurso abertamente ou tendencialmente moralista (Roberto Damatta, Jean Marcel Carvalho França, Ferreira Gullar, Boris Fausto). Damatta parece estufar o peito para dizer: “Sou favorável ao impeachment por motivos morais e éticos, indignado que estou com tanta mentira, incompetência e roubalheira. É indesculpável o que o governo lulo-petista fez com o povo brasileiro. Minha decepção é com o PT e com essa mistificação inventada por Lula chamada Dilma Rousseff, incapaz de agregar pessoas e ideias […]. É preciso coragem”. Ou a favor, por parecer desejar uma “limpeza moralizadora” –: Carvalho França: “Creio que o impeachment, diante da situação que estamos vivendo, é necessário para que o país possa se recompor econômica, social e moralmente –o que não será uma tarefa nem simples nem rápida de ser realizada […]. O nacionalismo cego e excludente, para além de ser o ‘último reduto dos canalhas’, é uma enorme tragédia para o desenvolvimento do país”. Há ainda aquele que lamenta a falta de “líderes” para assumir o “novo país” que viria depois do golpe –: Gullar: “não há ninguém com calibre moral para governar”. Boris Fausto é mais precavido, esquivando de explicitar diretamente discurso moral, porém, veja, ele já sentenciou Dilma culpada pela crise “social e econômica”, e quer que a sua sentença seja cumprida: “Sou a favor do impeachment, por duas razões básicas: pelo seu fundamento constitucional e por abrir um caminho para que o país saia de uma situação social e econômica calamitosa a que vem sendo submetido”.

Entre os a favor – explicitaremos aqui todos – há também aqueles que, de uma maneira ou de outra, reproduzem a sinfonia melancólica do golpe da Folha (Eduardo Gianetti da Fonseca, Carlos Pereira, Fernando Henrique Cardozo, Bolívar Lamounier): ‘ora, o ideal seria a renúncia, mas a mulher não larga o osso, então, infelizmente, tem que ser assim…’. Fonseca: “Seria melhor para o país que ela saísse”. Pereira: “A renúncia seria menos traumática, mas menos pedagógica. O impeachment é mais custoso, mas geraria um legado, traria maior conscientização às instituições de que há um Estado impessoal que não compactua com desvios”. O resultado disso seria a oportunidade de o Brasil caminhar verdadeiramente rumo a uma “democracia liberal, rompendo com o componente iliberal de nossa democracia: o compadrio”. FHC declara – é sempre curioso ele – ser motivo de impeachment o ato que ele praticou e ajudou a disseminar: “Infelizmente tenho que ser a favor do impeachment. O impeachment é uma disposição constitucional e legal. No caso em discussão, não só o caso das chamadas pedaladas fiscais é crime de responsabilidade, a reiteração de uso de recursos não orçamentados, gastos para uso em programas sociais e sobretudo empresariais, é caso de impeachment”. Lamounier, parece estar em transe apocalíptico: “Sou a favor da saída do atual governo, mas prefiro o caminho da renúncia, porque seria o processo mais rápido e menos traumático para o sistema político e para a sociedade. Estamos numa contagem regressiva, num tique-taque cada vez mais nervoso e apressado, rumo a um grande desastre”.

“Em cima do muro”

Os em cima do muro parecem ser aqueles que gostariam de dizer com todas as letras “sim ao golpe!”, mas, enfim, se sentiram muito acuado com a saia justa do jornal, abortando exposição pública e/ou problemas profissionais (José Eli da Veiga, Joaquim Falcão, José Murilo de Carvalho). Veiga gostaria que Dilma renunciasse, lamentando o fato de não haver como “fazer o imprescindível recall, como ocorreu recentemente na Califórnia”. Ele tem medo do Brasil “venezuelar”, e deseja que só os Supremos resolvam a questão. Falcão (professor de direito), diz categoricamente: “O processo do impeachment é um fato. Continua. Não se sabe onde vai parar”. No Câmara e Senado, a questão é política. No Supremo, não: “é diferente”, mas, admite, este “está fragmentado e individualizado. Vítima do próprio excesso de recursos, agravos e liminares. O Supremo é o gestor da incerteza constitucional”. Conclui: pode haver “insegurança jurídica”. Carvalho, é o mais ambíguo: “[…] a meu ver, se não surgir clara evidência de violação da lei pela presidente em crime de responsabilidade, sou contra a aprovação da medida. Aprovação sem essa condição daria margem ao aumento da gritaria de que foi golpe”. À princípio, um intelectual contra o golpe. Contudo, logo após, vem o discurso conservador e outras coisas mais. Está preocupado com a plebe gritando “golpe”. Tem medo do caos nas ruas. E, tentando fazer as equações conjunturais, lembra a dificuldade de encontrar a ‘melhor saída’ e solta: “O problema são os prazos”.

“Contra”

Chegamos aos 21 contra. Tentemos aqui restringir o escopo, destacando aquilo que mais marcaram suas (breves, ou mesmo brevíssimas) declarações. Primeiro, o maior grupo, aqueles que se centraram no argumento de respeito constitucional democrático: Luiz Gonzaga Belluzo, Luiz Felipe de Alencastro, Laura de Mello e Souza, José Miguel Wisnik, Maria Rita Kehl, Fernando Morais, Fernando Limongi, Delfim Netto, Ângela Alonso, Alcir Pécora. (Todos os contra poderiam, na verdade, estar incluídos aqui, mas estamos notando aqueles que se centram nisto). Lembramos algumas declarações destes, que fazem quase um coro. Belluzo: “Dilma recebeu o mandato pelo sufrágio universal. Presidente não pode ser tratado como técnico de futebol: se a galera não está gostando, ‘a gente trocamos’”. Alencastro: “Dilma foi eleita, tem que cumprir o mandato. Não há delitos claramente imputáveis. Há um encarniçamento, uma obstinação”. Mello e Souza: “Sou contra. No meu entender o delito alegado não justifica o pedido, e sobre ele não há consenso” (Ela lembra ainda o machismo encravado no processo: “E, como mulher, não posso deixar de registrar uma convicção: essa crise seria diferente se a Presidência, no momento, fosse ocupada por um homem”). Limongi (e Wisnik) descaracteriza a tentativa de aplicar o dispositivo não previsto – em nenhum lugar do mundo – de recall governamental: “O processo de impedimento da atual presidente se transformou em peça política, em uma espécie de recall. Derrubar ou mudar governos desta forma não está dado em lugar nenhum do mundo”. Sérgio Pinheiro, por fim, lembra bem a inversão de ordem das coisas: “O que vemos hoje é uma busca sôfrega de um fato ou de uma interpretação jurídica para justificar o impeachment. Neste, os fatos devem guiar investigação e o processo; no caso atual o processo é que guia (e procura) os fatos”.

Zé Celso, Roberto Schwarz e Jessé Souza foram os que aproveitaram para questionar o comportamento golpista das corporações de mídias. Zé Celso faz paródia ao escrever sobre a “crise Fake” da mídia: “Em 1964 o golpe nos pegou desprevenidos. Hoje não; sabemos de tudo, principalmente se não formos capturados pela novela que a ‘midiona’ não para de tentar empurrar, pra nos capturar para seu velho sistema enferrujado desejoso de repetir a história pra cair na Farsa da doida que quer acabar com as Cobras: a Histérica Mor: Janaina Paschoal”. Schwarz salienta o confronto “grande mídia versus internet”: “A Folha e O Estado de S. Paulo acabam de publicar um manifesto assinado por talvez 500 associações empresariais, exigindo o impeachment já e afirmando que ‘chega de pagar o pato’ […]. De outro lado, está na internet um manifesto das ‘Periferias Contra o Golpe’, assinado por cerca de 400 associações culturais”. Jessé Souza, por fim, nos lembra que o golpe em curso tem um “braço midiático”, “[…] de combate seletivo à corrupção, que é a senha da manipulação de um público desinformado, e atende a necessidades econômicas do andar de cima. Mesmo um reformismo fraco é muito para o Brasil”.

Observamos também aqueles que criticam o PT, a Dilma, mas nem por isso vê o golpe como bem-vindo, absolutamente: Ricardo Antunes, Nuno Ramos e Antônio Risério. O primeiro nos diz sobre o caráter horripilante, para os trabalhadores, do governo Dilma, deixando-nos uma hipótese interpretativa do atual momento: “as engrenagens da dominação brasileira, ao longo de nossa República, têm dois mecanismos essenciais para preservar-se no poder. A conciliação e o golpe. Os governos Dilma e Lula primaram pela conciliação. Agora é a vez do golpe”. Nuno Ramos, indica a miséria que se transformou o PT: “de partido que revolucionaria a inércia político-institucional brasileira para transformar-se nessa inércia”. E Antônio Risério, em declaração mais sarcástica, escreve: “[…] sou contra o impeachment porque penso que este não é o melhor caminho para o país […]. Contudo, “infelizmente, não temos, na legislação brasileira, um mecanismo para ejetar imediatamente do cargo o candidato que cometesse crime contra a democracia, vencendo as eleições com um programa – e, depois de tomar posse, fazendo o contrário do que tinha assegurado aos eleitores”.

Haveria ainda um último pequeno grupo, o dos defensores “incondicionais” do PT: Paul Singer e Antonio Cândido. “Sou contra o impeachment por violentar os princípios básicos de nossa democracia. Não creio que Dilma Rousseff precise recuperar a governabilidade porque não a perdeu” (Singer); “Sou totalmente contra o impedimento da íntegra e destemida presidente da República. Os motivos alegados não me convencem e o impedimento provavelmente só agravaria a dificílima situação política e econômica do país” (Cândido).

A realidade, triste, é constatar que no Brasil a democracia, além ser recente e frágil, ainda vive sob scripts –: posições pré-montadas, encenadas, orquestradas e, por fim, endossadas por seletivos “placares” Datafolha’s. O golpe talvez seja, sobretudo, político-midiático. As redes e as ruas revelam, desmontam – como nunca –, a fantasia criada. Contudo, mesmo assim, não interrompem. Eis uma importante lição cruel de Brasil contemporâneo[2].

Ao visitarmos o “banco de dados” da Folha, uma coisa é certa: compreendendo que livros são escritos por intelectuais, o processo de impeachment de Dilma em 2016 será lembrado, no melhor dos casos, como tentativa de golpe, ou como um golpe de Estado, liderado pelas oligarquias política, empresarial e a grande imprensa. Sim, o nome certo na história é este: “golpe”. Reiteremos, então: não parece ser caso de Fla-Flu. Porém, no agora, é a maquinação da grande mídia que predomina: e com ela, “o povo quer o impeachment”; e “já não há mais saída”; e “é urgente”, e também “é um dever moral”… No Brasil, jornais não “conversam”, ou não nunca se entende, com os intelectuais. Enquanto a história não vem, parece ser assim os jornais que “conversam”, no agora, com o povo.

Poderíamos imaginar o que a Folha teria feito com seu “banco de dados” caso o “placar” fosse o inverso, ou se pelo menos tivesse ocorrido um Fla-Flu. De nossa parte, imaginamos a sua imediata pretensão de advogar aquela disposição liberal de Stuart Mill, um dos patronos do liberalismo, na qual os votos das elites culturais, “os intelectuais”, deveriam valer mais na “verdadeira democracia” (algo que desde Gramsci, pelo menos, foi muito bem contestado). Ou seja, o voto dos intelectuais valendo “mais do que 1”, pois este estariam “mais além” da divisão maior entre os capitalistas e proletários, como era explícito no século XIX… Na atual conjuntura, no entanto, o jornal não pode evocar a alma liberal à la Stuart Mill. Na verdade, tal jornal parece desejar escrever, no próximo domingo, um outro editorial, intitulado: Os intelectuais estão tortos.

[1] Fazemos referência ao nome do novo programa de debates da TV Folha, estreado na última sexta-feira (08-04-2016), que expõe duas personalidades com ideias opostas.

[2] “Todo o poder ao povo!”, esbraveja agora Demétrio Magnoli, em sua coluna (E agora, Folha?, 09/04/2016) na Folha. E neste, ele cobra o juízo desencorajado contido no editorial Nem Dilma nem Temer: “[…] se o jornal quer mesmo que o povo decida, tem o dever de apoiar o impeachment – para, em seguida, solicitar a renúncia de Temer […]. E agora, Folha?”.

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